Em 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, lembrei-me de rever «Os acusados». Neste polémico drama de 1988, a atriz Jodie Foster interpreta magistralmente uma jovem violada num bar por três homens, atiçados e aplaudidos por outros. A película tem um fim quase feliz: após uma intensa batalha jurídica, violadores e claque são condenados. Que vida terá tido a heroína após o trauma é deixado à imaginação de cada um.
Menos feliz foi o desfecho do caso que inspirou este filme, a história de Cheryl Araujo, uma jovem luso-americana violada em 1983 por quatro compatriotas num bar de New Bedford, no bairro onde vivia. Antes, durante e após este mediático processo, o primeiro desta índole a ser transmitido em direto pelas televisões e rádios americanas, Cheryl passou paulatinamente de vítima a ré aos olhos da comunidade lusa, cerca de 60 % da população da cidade.
Esta horrenda história e a exposição mediática de que foi alvo lançaram o opróbio sobre a comunidade lusa. Cresceu uma vaga assustadora de preconceito contra os imigrantes portugueses, radicados há décadas naquela cidade piscatória. No episódio dedicado a este caso numa excelente série da Netflix, Trial by Media (Julgamento pela Comunicação Social), podem ser ouvidos comentários relativos aos portugueses como «Não contribuem nada para este país», «Não partilham os nossos valores» ou «Não compreendem que este país não é Portugal», estranhamente próximos do «Isto aqui não é o Bangladeche» e de outros slogans que certos políticos proferem à boca cheia e enchem cartazes poluidores do atual espaço público português.
Cheryl, cujo nome foi incauta e lamentavelmente escarrapachado na comunicação social, acabou por ser vista como aquela que veio manchar o bom nome e a honra dos portugueses. A comunidade de New Bedford não lhe perdoou por isso, nem por se ter deixado violar. «Se foi violada, foi porque quis», disseram muitos. Os quatro homens, que sustinham estar inocentes, acabaram por ser condenados por violação agravada. A claque, porém, foi ilibada – coitada, afinal não tinha feito nada. Após o veredicto, realizou-se uma manifestação de apoio aos incriminados e repúdio da sentença, que contou com milhares de participantes. Cheryl viu-se forçada a mudar de cidade com a sua família. Morreu cerca de dois anos depois num acidente de automóvel e ninguém falou disso.
Há coisas dos diabos. No mesmo dia, 25 de novembro, fui surpreendida por uma notícia vinda do Portugal profundo, entretanto amplamente difundida na imprensa e nas redes sociais. No Fundão, a Polícia Judiciária (PJ) deteve 11 bombeiros voluntários, por suspeitas de terem violado e coagido sexualmente um jovem de 19 anos que tinha entrado recentemente para a corporação.
Ouvi com horror as declarações prestadas à Rádio Cova da Beira pelo comandante dos Bombeiros Voluntários do Fundão (BVF), que, entretanto, se demitiu. Entre outras coisas, disse que estavam a ser ouvidos 11 bombeiros, sendo a maioria «apenas» testemunhas; que tinha todo o interesse em esclarecer a situação junto da opinião pública, porque, acima de tudo, estava a defesa da honra e os superiores interesses de uma organização exemplar e centenária; que, enfim, tratara-se de uma praxe, de uma «brincadeira» que não fora aceite pelo jovem sujeito a ela.
Preocupado em salvar a honra da sua corporação, o então comandante esforçou-se por banalizar um hediondo crime. Não fez um pedido de desculpas nem dirigiu palavras de consolo à vítima e à sua família. Não se lhe notou um pingo de vergonha na voz. Tal como Cheryl, o jovem teve a coragem de apresentar queixa e de pedir que justiça seja feita no local apropriado – os tribunais. Décadas depois e noutro lugar, espero que não passe pelas agruras por que passou a luso-americana, que não venham dizer-lhe que foi violado porque quis e que o destino lhe reserve melhor sorte.
É difícil aceitar que uma violação de grupo possa acontecer à nossa porta, no nosso local de trabalho ou em nossa casa. No entanto, acontece. É difícil aceitar que um tal ato possa ser cometido «pelos nossos» – compatriotas, colegas de trabalho, familiares, etc. Mas acontece. Por instinto, por reação de autopreservação e de proteção da nossa tribo, cremos que tais atos bárbaros só podem ser cometidos pelos outros – os selvagens, os estrangeiros, os que não são como nós. Enganamo-nos.
E quando estes crimes acontecem, há sempre algo ou alguém que se esforça por os negar, os abafar ou os banalizar para lavar a honra supostamente perdida de uma cidade, instituição, comunidade, família, etc., manchada pela ocorrência do ato criminoso, como se fosse mais importante ou mais urgente proteger-se a si próprio do que proteger a vítima. Se é errado crucificar uma comunidade, sejam os lusos de New Bedford, os bombeiros fundanenses ou outra qualquer, por crimes cometidos por alguns dos seus membros, fechar os olhos e recusarmo-nos a pensar sobre o que faz com que tais crimes possam acontecer também é crime.
Diz quem trabalha em associações de apoio a homens vítimas de violência sexual que as violações em grupo ocorrem em contextos masculinizados (por exemplo, militares ou desportivos) por puro gozo do exercício do poder e pela alegria proporcionada pelo espetáculo da humilhação ou da subjugação da vítima, porque é inocente, porque é jovem, porque é imigrante, porque é frágil ou porque é pobre. Ou, no caso de Cheryl, porque é uma mulher num espaço masculinizado, o bar. O comportamento dos violadores em grupo não discrimina em razão do género: homem ou mulher, é uma pessoa-brinquedo que deixou de ser dona do seu corpo e de qualquer laivo de vontade própria. Uns iniciam, outros vão atrás, para não serem excluídos ou tidos por fracos.
Que raio de masculinidade é esta? Porque é que tantos homens se submetem à injunção de terem de ser homens assim? Como é que se instala esta masculinidade? Como se perpetua? Psicólogos e professores repetem à exaustão que urge promover competências sociais e emocionais como a empatia nas crianças, desde a mais tenra idade, e antes mesmo da educação sexual. Sem dúvida.
Recordo o escritor e filósofo francês Édouard Louis que diz que esta masculinidade, pela qual se pode destruir os outros, fazer mal aos outros, é a «riqueza dos pobres», daqueles que nada mais têm porque tudo lhes foi subtraído, o acesso à escola, à cultura, a um trabalho decentemente remunerado que lhes permita ir além da sobrevivência; é a sua única forma de terem a ilusão de poderem controlar alguma coisa. Contra o recalcamento e a frustração dos pobres – e dos que a breve trecho pobres se tornarão -, contra a violência social, sexual e de género, é preciso aumentar salários, criar habitação, melhorar a escola e os hospitais, criar tempo, afirma Édouard Louis. Vasto programa.
Confesso que o meu otimismo nesta matéria é muito moderado. Apesar dos esforços envidados para desarreigar a violência, seja de que natureza for, – através da educação para empatia, do esclarecimento e do apoio às vítimas – continua a fervilhar em lume brando o caldo cultural de ignorância, superficialidade e caciquismo que a pereniza. Neste mundo caldeirão, dominado por classes políticas ultraliberais e liderado por velhos e honrados machos guerreiros de todas as idades que não têm qualquer pejo em tratar os cidadãos como brinquedos, temo que as violações – do corpo, do livre arbítrio, dos direitos económicos, sociais ou políticos – continuem a ser da praxe.
