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É cada vez mais difícil emigrar para a Austrália

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O elevado custo de vida, os critérios apertados e políticas de redução significativa da imigração na última década são alguns dos fatores que têm condicionado a ida de portugueses para a Austrália.

Fatores a que se somam aspetos como o complexo e demorado processo de reconhecimento na Austrália de qualificações ou experiência profissional e às dificuldades em conseguir ter acesso a vistos de maior duração, os mais procurados por emigrantes portugueses.

“A dificuldade de vir para a Austrália não é isolada só aos portugueses, e a imigração baixou bastante nos últimos dez anos, com prioridade a refugiados, que é natural, mas também a pessoas com altas qualificações e que manobram a língua inglesa ao nível que o Governo exige”, disse à Lusa Silvia Renda, uma das conselheiras das comunidades portuguesas, atualmente a residir em Melbourne.

“Uma das dificuldades tem a ver com o reconhecimento das qualificações. Na área da saúde, por exemplo, é preciso ver as qualificações reconhecidas e o processo é demorado e nem toda a gente segue o processo até ao fim. A verdade é que há muitas barreiras que não havia no passado”, enfatizou.

Em grupos nas redes sociais das comunidades portuguesas sucedem-se as perguntas de potenciais emigrantes, muitos a tentarem saber claramente o que fazer e como navegar o complexo processo de vistos.

E mesmo que a Austrália se debata com crescentes problemas de falta de mão-de-obra, em parte resultado da política de imigração de sucessivos governos do partido Liberal (problema agravado pelos anos de pandemia), emigrar para a Austrália é hoje particularmente difícil.

Melissa Silva, outra conselheira das comunidades portuguesas, explicou que os elevados custos é outro dos fatores que tem impacto no caso dos portugueses – que procuram vistos de maior duração em vez dos temporários vistos de férias-trabalho (os ditos vistos mochileiros) ou os vistos de estudante.

“Os custos de vida na Austrália são muito elevados para quem queira vir estudar, só podendo trabalhar 20 horas por semana, principalmente em cidades como Sydney e Melbourne”, explicou à Lusa.

“É muito difícil conciliar as coisas, especialmente se são famílias com filhos, porque têm custos mais elevados de escolas e outros. Muitos acabam por ir embora”, referiu.

O novo Governo trabalhista, que conquistou maioria absoluta em maio, parece – pelo menos em declarações políticas iniciais – querer corrigir vários aspetos do tema da imigração, uma das questões predominantes de uma recente Cimeira de Emprego.

Setores da restauração à agricultura, do cuidado da terceira idade às minas, da saúde ao turismo, enfrentam hoje carências sem precedentes, com muitos dos lugares outrora ocupados por ‘mochileiros’ ou estudantes a ficarem por preencher.

As duas conselheiras notam a contradição entre essa falta de emprego e a manutenção das políticas fechadas de imigração, com Silvia Renda a insistir que o problema vai continuar, se não foram encontrar “formas e alternativas de facilitar a imigração”.

“Notamos que depois destes dez anos de políticas mais fechadas em relação à imigração, agora há um diálogo um pouco diferente. Mas tem sido muito difícil e são precisas soluções para resolver o problema”, explicou a conselheira.

“Isso passa por estratégias internas no país, de melhorar qualificações, mas também por trazer mais pessoas de fora”, disse.

Dados oficiais mostram, por exemplo, que no período entre 2020 e 2021 – ainda que com condicionalismos devido à pandemia – se registou uma perda líquida na migração de quase 89 mil pessoas.

No período 2019-2020 entraram no país cerca de 450 mil imigrantes, com a saída de 250 mil.

Oficialmente, e segundo os dados do censo do ano passado, há atualmente na Austrália pouco mais de 17 mil portugueses, um número que as duas conselheiras consideram não ser real e que atribuem ao facto de alguns não responderem adequadamente a algumas das perguntas do inquérito.

“Há uma pergunta no censo sobre qual é a língua que falam além do inglês e muitos portugueses ou lusodescendentes não indicam o português. É impossível que existam só 17 mil portugueses, porque só os consulados têm mais pessoas registadas”, explicou Silvia Renda.

“Estou à espera de ver os resultados completos do censo para analisar aspetos como país de nascimento ou país de nascimento dos pais, o que pode dar mais visibilidade a várias comunidades, incluindo a portuguesa”, referiu.

Melissa Silva disse que essa redução no número real de portugueses no país tem um efeito direto, depois, na influência da comunidade e nos serviços que o Estado disponibiliza, desde acesso a intérpretes ou em termos de financiamento para serviços como a rádio SBS.

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