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Dois questionamentos sobre a poesia

Já me perguntaram se escrevo sonetos. Nem sei se escrevo poesia, muito menos sonetos. Deixo para os entendidos, os catedráticos, a classificação sobre os meus textos, especialmente os montados sobre dois supostos quartetos e dois tercetos, ainda que desmetrificados, com ou sem rimas, ricas, pobres ou miseráveis, pois não domino o ritmo, o compasso nem a forma ou a fórmula que no entanto me encantam nos grandes mestres. Aproveito a liberdade que ainda tenho de escrever e a exercito, livremente, à vontade, quando posso e quando quero, sem qualquer pretensão de ser comparado a alguém e é o que me basta.

Também me questionaram a razão de poetizar a morte. É a mesma razão de escrever sobre Deus, sobre o amor, as mulheres, as guerras, as crianças, os animais, as pedras, as árvores, o sol, a lua, os mares, os ventos. E exatamente a mesma razão de tecer versos sobre a vida. Quando desperta a inspiração e as letras, símbolos e palavras sobrevoam minha cabeça e pedem-me para abrigá-los na folha de papel, minhas mãos obedecem e pronto, eis um poema. E a poesia depende do namoro entre o emaranhado de imagens, letras e palavras desmembradas que passam pelo ar e o momento espiritual e a destreza do poeta que consegue recolhê-las e dar-lhes sentido, fazendo-as dialogarem.

Para expor a opinião positiva ou não sobre a obra de qualquer grande poeta (que definitivamente não é o meu caso), não basta ler e sair criticando pelos quatro cantos apenas os seus poemas “bonitinhos”, redondinhos e bem comportados. Há poetas maravilhosos que ficaram mundialmente conhecidos por suas pérolas sobre o amor, a natureza, sobre Deus, mas que depois tiveram descobertos poemas “de arrepiar os pelos”, aguçar ocultos sentidos ou de des(cons)truir antigos e amplamente discutidos conceitos. Quem lê e admira a tradicional poesia social de Drummond de Andrade, por exemplo, não pode deixar de conhecer seus textos picantes recentemente publicados, igualmente valorosos. Quem aprecia o soteropolitano Gregório de Matos louvando Deus não deve cometer o pecado de desconhecer e admitir a relevância da sua poesia erótica ou se emocionar quando ele provoca com tanta acidez a Igreja Católica, a burguesia e a política da época.

Baudelaire, Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Florbela Espanca, Cecília Meireles, Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Álvares de Azevedo… como falar mal destes escritores cuja produção poética, ou parte dela, desvia do ritmo que nos acostumamos a seguir, sem analisarmos profundamente a época em que eles viveram e o contexto em que produziram seus versos?

Seria inconsequente, por exemplo, negar a grandeza da poesia de Bocage, assim como desmerecer o puritanismo nos versos de John Milton, Edward Taylor e Anne Bradstreet.

A poesia é superior às convenções, sempre estará acima de qualquer classificação e se sobrepõe ao gosto pessoal, não precisando necessariamente agradar integralmente a uns poucos leitores, mas cair no gosto ainda que parcial de muitos.

Claramente ou por metáforas, ela retrata a vida. E como vamos descobrindo que a cada novo dia esta é doce e amarga, construída de alegrias e também de tristezas, tecida de encontros e partidas, se por vezes mostra-se aparentemente gentil, outras vezes penosa, mas acima de tudo gratificante, não podemos exigir que a poesia seja diferente.

 

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