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Do mau vaticínio me penitencio

Ano após ano, verões a fio, assistimos ao pavoroso espetáculo das matas transformadas em archotes, com os bombeiros a queixarem-se da falta de acessos e da falta de limpeza dos terrenos, os autarcas a queixarem-se da falta de meios de combate ao fogo, os meios aéreos impedidos de agir devido à espessura do fumo, as populações a tentarem proteger o seu património com mangueiras e baldes de água, as forças policiais a arrancarem (com a melhor das intenções, não duvido) as pessoas às casas que tentam salvar, os debates televisivos acerca do problema, e tudo sobre um fundo de labaredas descomunais que saltam fulminantemente de maciço arbóreo em maciço arbóreo.

Desta vez (e ainda o verão vai a meio), a tragédia andou próxima de mim, que moro a 40 km de Monchique, em linha reta. Por estrada é para aí o dobro mas, se o fogo quisesse cá chegar, não viria pela estrada, e acho que tampouco pararia nos semáforos ou respeitaria cruzamentos sem prioridade. Se estou a ser irónico, trocista não o sou, certamente, que esta ironia é amarga e acusadora.

Vem, depois, o que sempre se diz: por exemplo, que a única solução é rever a densidade e a geometria das florestas e zonas verdes. Pois é: enquanto houver plantações maciças de eucaliptos e pinheiros-bravos, temos forçosamente de esperar catástrofes desta dimensão. Quem viaja de Lisboa até ao norte, atravessa um imenso, contínuo e densíssimo eucaliptal: aqui e ali, fantasmas enegrecidos de há um ano ou dois; ali e aqui, massas densas ainda verdes, a anunciar a hecatombe previsível para os próximos verões. Há décadas que se culpa o eucalipto, mas aprendermos é que não há maneira.

Porque a culpa é, de facto, do eucalipto. Ou melhor, das plantações maciças de eucaliptos e pinheiros-bravos em regime praticamente de monocultura, com as quais não se compadece um clima como o nosso, de verões muito quentes e secos. Até na normalmente húmida Suécia ocorreram há poucas semanas incêndios pavorosos, porque este verão está a ser excecionalmente quente e seco. Mas as condições climáticas que na Suécia são excecionais são em Portugal a regra. Os culpados estão há muito identificados: na Grécia, no sul de França, na Califórnia, em Itália, densos pinhais; em Portugal, densos pinhais e densos eucaliptais. Em todos os casos, o combustível mais eficaz.

Entre o que desta vez mais se ouviu nos debates a que atrás aludi, destaco as comparações com a Suécia, elogiando a rapidez dos seus bombeiros, em contraste com uma alegada ineficiência em Monchique. Ora, importa desmontar este mito: a coisa correu muito mal aos suecos, que até ativaram o mecanismo europeu de solidariedade. E, em termos de tempo, os recentes incêndios florestais da Suécia não foram extintos muito mais depressa do que o de Monchique: a sua duração foi comparavelmente longa. A única coisa abonatória que se pode dizer sobre os incêndios suecos é que, sendo eles raríssimos naquelas latitudes, o país, compreensivelmente, estava mal preparado para os enfrentar. Só isso e nada mais. Por sua vez, na Califórnia, o governo chegou a apontar setembro como horizonte mais realista para a extinção dos incêndios que devastam aquele estado norte-americano desde finais de julho, o que significaria uma boa meia dúzia de semanas. Portanto, lá como cá, o problema não parece residir na eficácia do combate, mas sim na causa dos incêndios. E esta é manifesta: grandes massas de espécies arbóreas altamente combustíveis.

Também é lugar comum que os eucaliptais das empresas de celulose não ardem (ou ardem menos). Admito que sim. Mas, a ser verdade, isso pode até dever-se ao simples e inócuo facto de elas saberem geri-los. E, nesse caso, a conclusão é óbvia: restrinjam-se os eucaliptais e pinhais a quem souber supervisioná-los. O problema será então a desordem que já transformou o país num imenso eucaliptal: quem tem terreno sem outro aproveitamento agrícola, planta eucaliptos. E o resultado vê-se: em termos relativos, deve haver (de longe) mais eucaliptos em Portugal do que na própria Austrália, o continente da sua malfadada origem. Na região de Pedrógão, os eucaliptos queimados há um ano começam a rebentar, lampeiros, dos troncos queimados (aliás, a fisiologia do eucalipto ama o fogo, que lhe permite libertar-se da incómoda e concorrente vegetação nativa). Portanto, daqui por uns dez a vinte anos (quinze, em média), lá vamos nós outra vez, felizes e contentes, enfrentar outro pavor nos mesmos locais.

Mas, neste momento em que as cinzas de Monchique mal deixaram de fumegar e em que é tão manifesto o pavor dos eucaliptais em fogo, ainda aparecem defensores pressurosos desta espécie exótica, tão altamente combustível que custa a crer que alguém negue o seu efeito nefasto num clima quente e seco como o da bacia mediterrânica: por exemplo, «Coitado do eucalipto…», de Pedro Barros Ferreira [Observador, 10/8/2018], e «Eucaliptos, florestas e fogos: os mitos e os factos», de José Miguel Cardoso Pereira [Observador, 13/8/2018]. Afirmam, nomeadamente, que os soutos, sobreirais e outras formações de folhosas ardem também. Pois claro que também ardem… por arrastamento. Como, por arrastamento, ardem casas e automóveis. Mas, se não existisse o archote fulminante que são os grandes eucaliptais e pinhais, o incêndio rural (que, com toda a probabilidade, nunca deixaria de ocorrer) seria mais lento e muito mais facilmente controlável. Falam, também, em «riqueza» e na importância da indústria da celulose para a economia portuguesa. Ora, eu não amo o meu país menos do que eles. Quero, pois, o seu desenvolvimento — mas não ao preço da sua periódica cremação. Para isto, não é preciso ser «ecofundamentalista» ou «adepto do Bloco de Esquerda», como demagogicamente vociferam os defensores do eucalipto contra quem os contesta nas suas tecnocráticas certezas. Basta ser sensato, contemplar as imagens dos grandes incêndios emitidas pelas cadeias de televisão e concluir que urge reduzir a nossa dependência em relação às densas matas de exóticas altamente combustíveis.

Como disse, não vivo longe de um desses paióis, pelo que me inquietam oposições acérrimas à que seria a medida de atenuação mais eficaz.

PS: A 30 de novembro do ano passado, publiquei neste mesmo sítio um texto com o título «Quando dói ter razão», referente à tragédia de Pedrógão, no qual apontei o que se afigurava como bom exemplo da Grécia. A comunicação social divulgara pouco antes um gráfico, com alguns países da Europa meridional (Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia) no eixo das abcissas, por ordem decrescente, e as respetivas áreas ardidas em 2017 no eixo das ordenadas: a vertical de Portugal situava-se na ponta esquerda, inquietantemente preponderante em relação ao segundo lugar, o da Itália (que, ainda assim, andava muito abaixo); na ponta direita, a Grécia, com um invejável valor mínimo. Acrescentava eu que, apesar de não menos atingida por secas e temperaturas estivais extremas, a Grécia parecia apontar-nos um caminho para a boa gestão dos incêndios florestais. Assumo o erro sobre a eficácia grega e dele me penitencio: em julho deste ano, a península grega da Ática, nas proximidades de Atenas, foi um inferno de chamas onde pereceram pouco menos de uma centena de pessoas (até agora, o segundo incêndio mais mortífero do século XXI, só suplantado pelo que, em 2009, causou 180 mortes na Austrália). Há aqui, porém, um vaticínio que se confirma: o sinistro não teria chegado a tais proporções se não fossem os extensos maciços de resinosas.

Jorge Madeira Mendes

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