
Estando na Casa dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto para assistir a colóquio, moderado por Óscar Lopes, este, referindo-se a certa passagem do romance “Ana Paula”, de Joaquim Paços D’Arcos, afirmou que o autor pretendia dizer: isto e aquilo…
Joaquim Paços D’Arcos, que estava presente, imediatamente ripostou: – ”Penso que sei o que pretendia dizer…”
Este episódio, ocorrido há muitas e muitas décadas, saltou-me à memória, ao ler o pós-fácio da “ Arte de Furtar” – Edição Afrodite, de João Benard da Costa, que a determinado passo diz:
“Um conferencista (supõe-se que erudito) comentava determinado passo da obra de Lautréamont. E explicava: ”Com este verso quis Lautréamont dizer…”. Do público, levantou-se Breton furioso: “Não senhor, não quis, se quisesse dizer, tinha dito.”
Quantas vezes, de boa ou má fé, dizemos ou interpretamos um texto, de modo diferente do autor? Tentando dizer o que este não disse, nem pretendia dizer?
Acontece essa “exegese” com a Bíblia: alterando pontuação ou usando versículos isolados.
Muitos, fazem-no por ignorância; mas outros, por malícia, ou artifício, para asseverar que o Autor queria dizer o que não disse, nem pretendia dizer.
Interpretam o Livro, consoante o que lhes vai no coração, de encontro com o que desejam, e não com a Verdade.
Afirmar que se disse, o que nunca se disse, é astúcia de muitos, para ludibriar herdeiros. Quem não conhece a esperteza dos que põem na boca dos mortos, palavras que não disse, na esperança de virem a receber bens, que por direito, não lhes pertenciam?
Homens públicos e políticos (para além de caricaturas e do humor maléfico) são vítimas desse habilidoso estratagema, com o fim de lhes denegrir a imagem e destruir-lhes a carreira.
Cada qual, interpreta ou deturpa o que se disse, de harmonia com os interesses de momento. Poucos buscam a Verdade, porque a Verdade nem sempre interessa, nem convém.
O atrevimento é tal, que não falta quem diga: que Deus quer, o que nunca quis; ou que o Apóstolo, assevera, o que nunca afirmou!
