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Diálogo e Conhecimento: O «Templo Ecuménico Universalista» em Miranda do Corvo

1. A matéria de que somos feitos
Nos dias seguintes ao 11 de Setembro de 2001, José Saramago publicava um texto marcante em dois jornais, um em Portugal, outro no Brasil, “O factor Deus”. Num sentido teológico e espiritual, ou num sentido político e social, Saramago resumia em pouco mais de uma página a herança que trazíamos e que cada vez mais praticávamos de forma eficaz: matar em nome de Deus. Sem dúvida que hoje uma das expressões em árabe mais difundidas é Allahu Akbar (Deus é Grande), repetido antes de tantos atentados terroristas.
Depois desse terrivelmente célebre 11 de Setembro, não só os atentados terroristas se tornaram mais correntes e nos habituámos a alienar a liberdade por um pouco de segurança, como percebemos que esse quase gosto de pegar na religião e a transformar no mais sólido instrumento de poder é algo que tem milénios.
O chamado Mundo Ocidental, depois de muitas ameaças e maiores desastres na sua política internacional pós-colonial, acabava de entrar numa nova fase verdadeiramente ontológica que viria a definir a sua própria natureza na década e meia seguinte.
De facto, não descobrimos no ano de 2001 que se podia matar em nome de Deus. Não, já o fazemos há muitos milénios, apenas estamos agora a tomar consciência disso, recuperando a memórias da Inquisição, das Cruzadas, de todas as mortandades que nos levam a reequacionar palavras e sentidos que tanta alegria deram às mentalidades simplistas dos regimes ditatoriais, como a de “reconquista” ou ainda a de “descobrimentos” – sendo que esta última viu nas comemorações do “Achamento do Brasil” o quão era politicamente incorrecta a postura europeia de “descobrir” um continente que já tinha habitantes, e que com a chegada dos europeus viveu, essencialmente, várias levas de genocídios pelos séculos seguintes.
Tendo os melhores centros de investigação e os melhores meios para analisar e dar respostas, o Ocidente começou por não perceber que era na autoanálise que se deveria ter centrado e não no “outro”, como sempre. Agora, era ao espelho que se deveria olhar, saído das metáforas poéticas e místicas, trazendo-as para o pragmatismo das relações políticas e culturais.
Efectivamente, se podemos definir um imenso erro crasso na forma e na capacidade de avaliação da Europa, ele encontra-se no facto de se estar a viver uma total redefinição geoestratégica do Mediterrâneo, especialmente Sul e Este, com base em atentados e em terroristas de nacionalidades da Europa central e de Norte. Numa tremenda facada no ego cultural, o chamado Estado Islâmico leva a guerra, quer ao Médio Oriente, quer à Europa, com muitos radicais com nacionalidade europeia.
Hoje, passada essa dezena e meia de anos sobre esse 11 de Setembro, parece que pouco aprendemos e menos ainda conseguimos avançar na luta contra a criação de visões fundamentalistas, radicais e, acima de tudo, contrárias ao dito Ocidente, visões que vêm na nossa forma de vida e nos valores defendidos por toda uma parte do globo como demoníacos.
Numa sistematização dos atentados pós Al-Qaeda, no ambiente radical-terrorista já dominado pelo DAESH, é clara a luita e aterrorização em torno das formas emblemáticas da vida ocidental: espectáculos, desporto, bares, restaurantes e centros comerciais. A luta não é contra pessoas ou nações. É contra um conceito de vida.

2. Ou a matéria de que são feitos os sonhos
Num sentido de maturidade, mesmo para encontrar as melhores respostas aos desafios que hoje temos pela frente, urge olhar para o que a cultura ocidental tem como ferramentas. E as melhores utensilagens vamos encontrá-las, não naquilo de que nos podemos orgulhar, mas no que costumamos esconder ou nem reconhecer.
Um olhar para o que certas palavras nos podem dizer, mostra-nos como temos a mente moldada na relação que inconscientemente criamos entre religião e violência. Verbos como «sacrificar» mostram como se construiu a nossa relação com o agradecimento a Deus: o acto de tornar sagrado, “sacrum-facere”, e que seria um júbilo de agradecimento, resultou em dar a Deus o que mais queremos, tornando-se um sacrifício, uma dor, o sentido em que a palavra se veio a metamorfosear.
Dificilmente conseguimos ter um olhar isento em relação ao passado, tal como dificilmente nos conseguiríamos desligar das heranças que as palavras, como o “sacrificar” nos colocam aos ombros. As questões mais importantes residem no simples facto de ser apenas pelo confronto connosco mesmos que conseguiremos, serenamente, decidir caminhos e tornamo-nos mais humanos.
E na equação em torno das respostas, a mais premente questão encontramo-la na natural definição dos limites, o quase instintivo refúgio do medo e da sobrevivência. Até onde precisamos de ir? E este ir, numa expressão de definição de limites, tem várias implicações. Num sentido imediatista, mais simples, devemos interrogar-nos sobre os limites daquilo de que abdicaremos, e a partir de onde não passamos; onde se encontram os limites civilizacionais de que não abrimos mão, seja a laicidade, seja a relação com o corpo, seja a liberdade, entre tantas outras.
Mas esta afirmação, tendencialmente matéria de desvios nada salutares, por que prenhe de ego e orgulho, necessita de ser condimentada com um campo mais importante na definição desses limites: mais que saber até onde poderemos dialogar, antes precisamos de nos conhecer para saber, de facto, o que nos constituí. No limite, para saber de que podemos abdicar e aquilo que queremos guardar, temos de afinar muito bem o que somos no cruzamento do passado com o futuro.
E é este o percurso, no vórtice do campo mais perigoso na gestão de poder, o religioso, que o Templo Ecuménico Universalista em Miranda do Corvo pretende realizar através da mistura complexa entre o confronto e o ensino.

3. O Templo Ecuménico Universalista, matéria para um sonho
A construção de um Templo Ecuménico Universalista parte de uma premissa: nada do que é humano nos é estranho, seguindo a frase de Terêncio. É nesta dimensão da natureza Humana que este equipamento é um «Templo», que é «Ecuménico» e é ainda «Universalista».
E este espaço começa por ser um «Templo» porque é um lugar de profundidade, de pensamentos e de sentimentos. Um espaço em que o visitante é transportado para a profundidade do lado criador da sua espécie ou, mesmo, para uma relação com o Criador ou a Criação, se assim acreditar.
O «sagrado» deste Templo é a capacidade de cada um se espantar e de criar, de olhar para a realidade e, sem perder nada da sua concepção de sagrado, se centrar no Homem, no que tem feito de bom e de mau em nome de Deus.
Este espaço é recolhimento na busca dos valores absolutos para cada um. Não é piedade nem crença, mas emancipação no confronto e no contacto com a diversidade que é, para cada um, a Verdade, colocada ao lado de todas as outras Verdades, uma vez que um imenso leque de religiões e espiritualidades estarão presentes num mesmo espaço, sem hierarquias ou valorações.
E é por esta razão que o Templo é «Ecuménico». Este Templo recolhe em si, para o dar aos visitantes, a “ecumena”, o todo, o orbe terreno. É ecuménico, nunca no sentido de fundir as diferenças e buscar alguma coisa de sincrética, mas no sentido em que neste Templo tudo e todos têm lugar. Até os não crentes, como é natural.
E, por fim, este Templo Ecuménico é «Universalista» porque nos remete para um olhar de respeito e de tomada de consciência. Todos os conteúdos, os textos, os signos e os símbolos, correspondem a uma dimensão universalista da Humanidade, a uma procura e a um desejo de explicar o Todo, integrando-o.
Naturalmente, e como falamos do ponto de vista da nossa cultura, com o que isso tem de positivo, mas também de castrante, olharemos para o que a “ecumena” nos traz de experiência de vida em grupos humanos, e teremos pontos dos quais não abdicamos.
Os Direitos Humanos, como ponto de chegada de um caminho em comum de milhares de anos é aquilo que de mais fino, subtil e superior a nossa sociedade criou. É o que aqui nos interessa valorizar.
É esta a realidade que é superior às guerras, às matanças, a tudo o que temos feito em nome de Deus. Não é apenas de belas realizações a que nos referimos neste Templo. Ao longo dos milénios temos matado primorosamente como nenhuma outra espécie.
Organizado no topo de uma colina sobre Miranda do Corvo, o complexo integra caminhos onde várias religiões e religiosos são usados no caminho de tomada de consciência. Muita é a simbologia religiosa que identifica e que exprime sentidos. Mas o centro, o Templo propriamente dito, uma grande estrutura piramidal, tem no seu interior o apelo ao confronto na consciência, um Observatório das Religiões.
Através da transmissão de conhecimento isento sobre treze fenómenos religiosos, cosmovisões, o visitante é confrontado com a História dessas religiões. Esse confronto termina com um momento que invoca as vítimas do terrorismo através do 11 de Setembro de 2001. Mas não são apenas as vítimas deste actual “matar em nome de Deus”. O visitante verá como, de facto, temos sido muito bons a matar em nome de Deus, sejamos europeus, asiáticos ou de outra qualquer origem.
O apelo é simples e está poeticamente sintetizado na frase de Luther King: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”. Que este Templo seja uma ajuda nesta tomada de consciência.

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