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Dez mulheres, dez histórias de emigração

“Correr mundo”
Dez mulheres, dez histórias de emigração
Oxalá Editora
Março de 2020

Escreve a escritora portuguesa, Ana Cristina Silva, no seu prefácio a esta obra: “Trata-se enfim de uma coletânea admirável que fazia falta ao panorama literário português”.

De facto, não estou devidamente informada do volume de trabalhos escritos por escritoras portuguesas debruçando-se sobre este tema, e sobretudo escritos na primeira pessoa.

Na literatura portuguesa o tema do exílio, da saudade, da impermanência da vida, o sentimento de não pertença, da mudança é narrado na obra do escritor do séc.: XVI, “menina e moça” do escritor
Bernardim Ribeiro. A primeira parte da obra começa exatamente com um monólogo na primeira pessoa da “menina” personagem principal, recordando o tempo da infância, de um espaço que nunca esqueceria. “Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe”.

Mais tarde, já no século XVIII, há registos desta vivência da emigração nas cartas enviadas à família, pela Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna. Marquesa de Alorna, grande figura da cultura e da literatura portuguesa, acompanhou o marido, cônsul por vários países da Europa, deixando uma filha aos cuidados dos avós. Nas suas cartas, Leonor de Almeida, salienta este sentimento tão português da saudade, queixa-se do clima, da tristeza, contudo exalta o carácter educativo e de
crescimento cultural e intelectual que se vive fora do seu país.

A emigração no feminino é um acontecimento recente. De início, os homens partiam sozinhos, seja nos navios dos descobrimentos, seja para o exílio fugindo à guerra das colónias, ou mesmo participando nessa mesma guerra. As mulheres ficavam sempre no seu país, nas suas casas,
cuidando das terras, das casas, dos filhos. Tecendo a vida e os dias, esperando um marido que haveria de chegar. Chegaria?

Seria mais tarde que as mulheres começariam a juntar-se aos seus maridos nos países de acolhimento.

Nesta coletânea “correr mundo” estão representadas através das narrativas as vivencias de 10 mulheres com percursos diferentes, com vivências distintas, contudo, com vários denominadores comuns: a saudade do país e da infância, a adaptação ao país de acolhimento, a dificuldade e precariedade no trabalho, a questão da língua e da identidade.

Quem são estas mulheres? Quem são estas personagens que um dia deixaram o seu país e se aventuraram em países estrangeiros um pouco por todo o mundo. Umas por amor, outras para se juntarem aos maridos, outras pela aventura, pelo fascínio do desconhecido, outras pela procura de uma vida melhor. Mas todas, sem exceção, se debatem com problemas existenciais profundos.

Sentimentos de vazio e exclusão, sentimentos de identidade, de não pertença. Sentimentos de inquietação e de incerteza, sentimento de abandono.

Estas mulheres são diariamente confrontadas com uma nova vida, mas também com os deveres da família.Dos que estão e dos que ficaram. São constantemente confrontas com dilemas aos quais não sabem dar resposta, contudo, errando ou acertando, lá vão tomando as decisões mais adequadas. Ás vezes pagando um preço demasiado elevado.

As dez autoras estão de parabéns. Nesta obra está um bocadinho de nós e muito do sentimento coletivo da emigração no feminino. O sentimento de exílio, de perda, de vazio, mesmo quando essa experiência é vivida dentro do país onde se nasceu. Mas também, o carácter educativo, a aprendizagem de uma outra língua, da alteridade, de outra cultura, de outro modo de ser e de estar no mundo, mais do que nunca globalizado.

 

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