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Deriva bloquista

Depois de cinco anos de entendimentos à esquerda que garantiram estabilidade e progresso e tornaram Portugal um modelo de esperança política para outros países, eis que o Bloco de Esquerda decide votar contra o Orçamento do Estado para 2021 ao lado da direita, renegando o passado recente e entrando numa deriva incompreensível, exatamente no meio da maior crise sanitária dos últimos 100 anos.

É certo que faz parte do jogo democrático cada partido assumir livremente as suas posições, mas há momentos críticos em que o sentido do bem comum deve imperar, para poupar as pessoas ao medo de um futuro que se anuncia difícil e imprevisível por causa da pandemia, mas a que o Orçamento do Estado, como não podia ser de outra forma, procura dar a melhor resposta para reforçar o sistema de saúde, apoiar as empresas e o emprego, as famílias, os rendimentos e o investimento público.

Além disso, Portugal tem a partir de janeiro a importante missão de levar a bom porto a presidência da União Europeia, e dará início à implementação do novo ciclo de programas e fundos comunitários para a recuperação económica e social do país, criando condições para um futuro mais moderno, sustentável e resiliente às crises.

Por mais que o BE se esforce, os argumentos que utiliza para justificar a sua decisão de votar contra o Orçamento do Estado não honram os esforços que têm sido feitos pelo Governo para ir ao encontro das suas exigências, nem o passado recente de colaboração virtuosa que permitiu conquistas importantes em termos de salários, rendimentos, pensões, direitos sociais, combate à pobreza e melhorias nos serviços públicos.

Os tempos são muito exigentes e recomendam diálogo, humildade e capacidade para fazer concessões, e não guerrilhas feitas de discordância sistemática e radicalização de posições. A humildade política e a inerente capacidade para aceitar que não existe apenas uma verdade e uma forma de fazer as coisas é fundamental para aliviar a crispação e a tensão num contexto em que as pessoas exigem que os políticos se ponham de acordo para darem resposta aos seus problemas. E um país dividido, tenso e a navegar na incerteza, como tem acontecido em Espanha, deixa as pessoas sem saber o que fazer e o que esperar para as suas vidas.

Muitas vezes, os partidos ajuízam mal a realidade e acabam por seguir caminhos que vêm a revelar-se desastrosos. Foi o que aconteceu em 2011 quando o Bloco perdeu metade da sua bancada parlamentar (passou de 18 para seis deputados), depois de ter rejeitado o PEC IV em plena crise económica e financeira global
Uma coisa é fazer política em tempos normais, em que as guerras entre partidos e a alternância democrática não causam grandes disrupções nem ansiedade. Outra, completamente diferente, é quando seria exigível unidade para enfrentar melhor uma crise pandémica profunda, complexa e com consequências difíceis de antecipar.

É claro que, muitas vezes, os partidos ajuízam mal a realidade e acabam por seguir caminhos que vêm a revelar-se desastrosos. Foi o que aconteceu em 2011 quando o Bloco perdeu metade da sua bancada parlamentar (passou de 18 para seis deputados), depois de ter rejeitado o PEC IV em plena crise económica e financeira global, que provocou eleições antecipadas e abriu caminho para o mais duro período de austeridade e recessão vivido em Portugal.

A atual conjuntura exige muito mais cooperação do que taticismo e o mero interesse partidário, para evitar que as pessoas se revoltem contra a política e acabem a optar por partidos extremistas, o que, com o seu rol de mentiras, manipulações e falsas certezas, acaba sempre por ser a pior das soluções e degradar, invariavelmente, a vida em sociedade.

O BE juntará assim os seus votos aos da direita, isolando-se e radicalizando-se, regressando às suas origens de partido anti-sistema. E assim, em vez de contribuir para a unidade da esquerda político-partidária, age ativamente para a sua divisão e, por contraposição, também para o reforço da direita.

Por isso, não é o OE para 2021 que falha ao país, como afirma Catarina Martins. É o BE que quer seguir outro caminho com o argumento enganador de querer outro Orçamento, para então se poder acantonar no protesto e na contestação militante, nas propostas simpáticas mas pouco razoáveis, o que será talvez bem mais fácil do que abrir-se de boa fé ao diálogo construtivo e à concertação política para se encontrarem soluções para a vida dos portugueses.

Felizmente que há outros partidos que não se deixam enredar em querelas internas e dúvidas existenciais, como o PCP, o PAN e o PEV, que mostram sentido de responsabilidade e cumprem a sua missão patriótica de contribuir para dar estabilidade ao sistema político e à governação. É isso que os portugueses querem: que no período mais incerto das suas vidas não se inventem argumentos para criar ainda mais incerteza.

 

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