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Crónicas da vida real: Estarei de olho em ti

Every breath you take
Cada vez que respires

Every move you make
Cada movimento que faças

Every bond you break
Cada vínculo que quebres

Every step you take
Cada passo que dês

I’ll be watching you
Eu estarei de olho em ti

(Sting)

Beatriz subiu o altar, de vestido branco corpo com decote em V na frente, detalhe de renda aplicada no decote e nas alças que por sua vez tinham espaços transparentes, saia ampla em cetim, véu comprido a arrastar pelo chão da igreja, e o rapazinho e a menina que supostamente deveriam segurar esse véu, quase se arrastavam nele à boleia, chateadíssimos pelas delongas da cerimónia e de todos os protocolos a ela pegados.

O nome Beatriz significa “a que traz felicidade”, “Aquela que faz os outros felizes”.

Beatriz era no momento o espelho da felicidade. O dia pelo qual tanto sonhara finalmente acontecia. Foi sonhado, programado, idealizado, esperado.

No altar, impaciente, vigilante, ansioso, está Heitor a olhar de soslaio por cima dos ombros, não resistindo à curiosidade de ver a sua noiva subir o altar de braço dado no pai, ao seu encontro, despertado que foi pela música da cerimónia que os meninos do coro entoaram em canções de felicidade e alegria, com vozes agudas claras e sonantes, quase angélicas.

Heitor significa “aquele que guarda” e tem origem no Grego Héktor, a partir da raiz ekhein, que quer dizer “possuo, tenho em meu poder”.

Se se tivesse em conta o significado dos nomes, se todos soubessem, mas mais do que isso, acreditassem na lengalenga atribuída à história por detrás de cada nome, então Beatriz havia de pensar bem melhor no ato que estava a levar a cabo, mesmo que naquele momento estivesse transbordando de uma inocente felicidade.

Foi apesar de tudo um dia lindo. Tão lindo quanto foram os outros dias a seguir a esse.

Heitor era um homem feliz, Beatriz era uma mulher feliz e realizada.

Beijos, abraços, manifestações de carinho, amor a pairar no ar, a libertar-se por tudo quanto eram poros do corpo. No princípio era o verbo. O verbo amar. E tudo eram rosas. Mas as rosas também têm além de um perfume sensual e uma textura aveludada em cores de aquecer o coração, espinhos.
Depois os dias foram passando, e o amor, sempre presente, foi tomando outras formas, foi-se entrelaçando no dia a dia e gingando entre dias monótonos, dias inseguros, dias de obsessão.

Heitor, aquele que possui, tem em seu poder, quis saber todos os passos de Beatriz. Onde vais, onde estiveste, com quem falaste, porque demoraste, porque te enfeitas toda, quem te mandou a mensagem agora recebida? Porque vestes essa saia… tão curta… porque…

E assim o amor se transformou num pesadelo para ambos.

Tantas desconfianças sem motivos justificáveis. Mas essas desconfianças começaram a dar aso a uma espécie de controle obsessivo, sempre à procura de provas que pudessem justificar suspeitas injustificáveis, à procura de uma possível traição que só existe na sua imaginação. Traição? Qual traição Heitor? Ela, a Beatriz, que casou por amor e por amor tem suportado todo este sofrimento causado por um ciúme doentio, um ciúme insustentável. E ele, o Heitor, aquele que possui, tem em seu poder, no princípio, além do verbo, verbo amar, era todo cheio de boas maneiras, todo cheio de atenções, carinhoso, atencioso…não foi por acaso nem só pelas boas aparências físicas que Beatriz se apaixonou por Heitor.

E agora as noites são longas porque o sofrimento transforma-as em insónia. Os dias amargos, lentos, sofridos.

Heitor deixou de ter paz consigo mesmo, e de uma maneira que nem ele mesmo é capaz de controlar, tirou a paz a Beatriz. Uma suspeita inexplicável, constante, em relação a uma possível infidelidade que ocorre apenas na sua imaginação, está a destruir uma relação que começou tão bem. Heitor transformou-se numa espécie de cerceador da liberdade de Beatriz.

Heitor sofre de uma doença patológica que transformou a sua vida num inferno à superfície da terra, e transformou a vida da sua companheira, da sua amada, num inacreditável, inaceitável, pesadelo. Mas isso… Heitor… não é amor, mas sim doença. Procura ajuda profissional, antes que a tragédia ataque.

Nota do autor – O ciúme patológico é um problema importante para a psiquiatria, que envolve riscos e sofrimentos, podendo ocorrer em diversos transtornos mentais. Na psicopatologia o ciúme pode-se apresentar de formas distintas, tais como ideias obsessivas, ideias prevalentes, ou ideias delirantes sobre a infidelidade. No Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), o ciúme surge como uma obsessão, normalmente associada a rituais de verificação. (Geraldo J. Ballone – MD Ciúme Patológico)