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CR7 sem rodeios em entrevista especial

O capitão da seleção portuguesa de futebol, Cristiano Ronaldo, concedeu recentemente uma entrevista a Piers Morgan, jornalista da cadeia televisiva britânica ITV.

Depois de uma chegada ao seu estilo, sempre calmo e bem disposto, CR7 chegou mesmo a comparar alturas com o experiente entrevistador, uma forma inusitada de quebrar o gelo entre os dois.

Seguiu-se então a entrevista, onde Morgan começou por perguntar o que é que Ronaldo esperaria daquele momento. “Espero falar de mim mesmo, sem rodeios nem mentiras. Não vou fingir ser outra pessoa”, afirmou o craque.

“És um futebolista brilhante e, obviamente, muito famoso. És o maior e estás a milhas de distância!”, afirmou Piers enquanto comparava o estatuto de Ronaldo com outras celebridades de nível mundial. “Tens 182 milhões de seguidores nas redes sociais enquanto que a Ariana Grande, que vem em segundo lugar, tem cerca de 164 milhões. O Messi tem 130 milhões e o David Beckham apenas 58 milhões. Como é ser três vezes maior que o Beckham?”, perguntou.

“Para ser honesto, não estou surpreendido. Tudo o que fiz foi por paixão, (…) o futebol é 75% da minha vida e o resto é a minha família e os meus amigos”, disse Ronaldo.

“Gostas de ser o número um?”, interrompeu de imediato o britânico. “Ser segundo ou terceiro no Instagram não me faz diferença. No meu trabalho, faz. Quero ser sempre o número um”, vincou o jogador.

“E como é ser o Cristiano Ronaldo? És uma estrela e tens fama, mas não podes sair à rua porque tens logo milhares de pessoas atrás de ti”, interrogou o jornalista.

“É aborrecido, honestamente. Claro que há o lado fantástico de poder receber troféus, marcar golos e ser primeira página nos jornais, mas agora quero a privacidade que não tive nos 10 anos que passaram. Sabe quantas vezes fui ao parque com os meus filhos? Zero!”, lamentou o português.

De seguida, o experiente entrevistador decidiu alterar o rumo da conversa e puxou pelo lado mais descontraído de Ronaldo. “Ouvi dizer que a tua passagem de ano, em 2009, foi algo interessante. Queres contar-nos o que aconteceu?”.

Entre risos, o craque português explicou que “na noite de ano novo disse ao Ricardo (amigo íntimo) que não podíamos ficar em casa. Decidimos ir para uma discoteca em Madrid, mas não podíamos ser reconhecidos. Comprámos umas perucas, colámos uns bigodes e vestimos uns casacos… Seguimos então para um hotel, no centro da cidade, e combinámos que só iríamos falar em inglês. O problema foi que, assim que chegámos ao bar, perguntei em português ao Ricardo o que é que ele queria beber… Foi então que um rapaz chegou por trás de mim e sussurrou: ‘Cristiano, eu sei que és tu!’. A partir daí, ele passou a noite inteira a dizer a toda a gente que aqueles éramos nós. Ainda assim, passámos lá três ou quatro horas e foi a melhor noite da minha vida”.

“Isso é interessante, não é? É como viver numa jaula e só poder aproveitar esses pequenos momentos…”, comentou Morgan. “Diz-me, em quantas pessoas confias plenamente?”.

“Confiar a 100%? Tenho um círculo de família e amigos bastante fechado, mas só confio a 100% em quatro pessoas”, admitiu.

A conversa entre ambos estava ainda nos minutos iniciais, mas foi precisamente nessa altura que Morgan aproveitou para se mostrar um confesso admirador de Cristiano. “Para mim, tu és o melhor de sempre, tenho de admitir”. Seguiu-se então um caloroso e sincero aperto de mão vindo da estrela lusitana.

“Acreditas que é a tua capacidade de trabalho que te faz ser o melhor?”, adiantou Piers. “Eu sou um bom jogador, mas a minha melhor qualidade é a mente. Estou há 15 anos no mesmo nível, portanto considero que o esforço, a dedicação e a mentalidade fazem de mim o que sou hoje”.

“Fontes dizem-me que vales cerca um bilião de dólares”, prosseguiu o britânico. “Um bilião? Não sei… Posso apenas dizer que tenho bom dinheiro no banco e alguns carros. 17 carros, na verdade, (…) e o que mais gosto de conduzir é o Rolls Royce”, confessou o filho mais novo de Dolores Aveiro.

“Mas nem sempre foi assim, pois não? Quando chegaste ao Sporting, proveniente da Madeira, deram-te ‘cama e mesa’, mas fiquei surpreendido ao saber que tu e as outras crianças da academia iam às traseiras de um McDonald’s pedir comida”, referiu Morgan, visivelmente emocionado.

“Quando era miúdo, com uns 11 ou 12 anos, não tinha dinheiro. Vivia com outros jovens jogadores e sem a família por perto… Por volta das onze da noite tínhamos fome e havia um McDonald’s ali ao lado. Batíamos à porta das traseiras e perguntávamos às empregadas se havia algumas sobras para nós. A Edna e outras duas raparigas, que foram incríveis, davam-nos comida. Nunca mais as voltei a ver, apesar de ter pedido ajuda a algumas pessoas. Espero que esta entrevista ajude a encontrá-las porque quero convidá-las a jantar em minha casa, seja em Turim ou em Lisboa”, prometeu Cristiano.

Ao abordar as dificuldades que atravessou durante a sua juventude, o madeirense fez questão de falar sobre a geração atual. “Hoje em dia as crianças têm tudo, já não é preciso fazer muitos sacrifícios para ter o que se quer. É esta ‘fome’ de lutar que eu pretendo passar ao Cristiano Júnior. Foi por isso que o levei à residência em que vivi em Lisboa durante os primeiros tempos de academia. Era uma residência pobre mas estavam lá exatamente as mesmas pessoas com as quais tinha convivido… Levei o Cristianinho ao meu antigo quarto e ele disse-me: ‘papá, estás a brincar, certo?’. As crianças hoje em dia não fazem ideia dos sacrifícios que nós tivemos que fazer, mas eu sei como motivá-lo a dar o melhor de si”.

“Vamos agora falar de futebol”, desviou Pierce. “Tu tens atualmente 145 recordes pessoais mas também és um jogador de equipa. Os prémios individuais são importantes para ti?”, perguntou. “Parte do meu sucesso é vencer prémios. Eu dedico-me tanto que não sou eu quem procura os recordes, eles é que vêm atrás de mim. Sou viciado no sucesso e isso motiva-me”, revelou Ronaldo.

Questionado sobre o seu golo preferido, CR7 foi perentório ao eleger o tento marcado pelo Real Madrid à Juventus (clube que agora representa) num jogo a contar para os “quartos” da Liga dos Campeões. “Tentei marcar golos como este durante anos. Tenho agora 700 golos e nunca marquei nenhum tão difícil como aquele. Na verdade, foi provavelmente o melhor golo de futebol que eu já vi, e não o digo por ter sido eu a marcá-lo”.

“Foi melhor que sexo?”, provocou de imediato Morgan, ao que o atleta, uma vez mais num registo descontraído, respondeu: “não. Não foi melhor que (o sexo) com a Gio (Georgina Rodriguez)”.

“Falemos então da Georgina, com quem estás há três anos. É o teu verdadeiro amor?”, aproveitou o britânico. “Sim, é. A Gio é uma parte de mim e ajuda-me imenso. Um dia vamos casar, e esse é também um dos sonhos da minha mãe”, respondeu o veterano sem hesitar.

“A tua mãe é o teu porto de abrigo e parece uma verdadeira força da natureza. Quão importante tem sido (Dolores Aveiro) para ti?”, continuou Piers.

“Grande parte daquilo que tenho deve-se a ela. Ela apoia-me tanto que tive de a impedir de ver os meus jogos ‘grandes’. Costuma ficar tão nervosa que até já chegou a partir os dentes e a desmaiar em pleno estádio. Agora, antes de um jogo grande, peço aos meus amigos que caminhem com ela à volta de casa durante a partida. Já não tenho pai e não quero perder a minha mãe também”, confessou Cristiano.

“Quanto ao teu pai, sabemos que morreu devido ao alcoolismo, mas também sei que partiu muito jovem para a guerra em Angola e Moçambique”, revelou Morgan momentos antes de rodar um vídeo nunca antes divulgado de José Diniz Aveiro, momentos antes da final do Euro 2004.

“Fico muito orgulhoso do meu filho, mas não consegui ir a Lisboa ver a final. Os meus nervos não me deixaram, prefiro ver através da televisão”, disse às câmeras o pai de Ronaldo. O filho mais novo do casal Aveiro, ao ver pela primeira vez estas imagens, não conteve as lágrimas.

“É incrível, eu nunca tinha visto este vídeo. Significa muito para mim. Quero ter estas imagens para mim e para a minha família”, pediu o jogador.

“Eu não conheci o meu pai a 100%. Ele era um alcoólico e nunca tivemos uma conversa normal, apesar de ele me tratar como se fosse a jóia da família”, adiantou.

“Porque é que ficas triste?”, interpelou Morgan? “Porque sou o número um, ganho prémios e ele nunca vai poder ver aquilo que eu conquistei”, colmatou.

“Julgas que o que aconteceu com o teu pai serviu como exemplo para te manteres longe do álcool, do tabaco e das drogas, e que isso te faz ser um melhor pai?”.

“Sim, e eu considero-me um bom pai. Incuto aos meus filhos os valores da humildade, do trabalho e do respeito. Para mim são os pontos essenciais”, respondeu Ronaldo, pai de quatro crianças.

Findo o tema da família do capitão português, Piers decidiu sondar o “Caso Mayorga”, uma acusação de alegado abuso sexual sobre Kathryn Mayorga, uma jovem norte-americana.

“Não posso esconder que 2018 foi, possivelmente, o ano mais complicado da minha vida ‘extra futebol’. Foi difícil encarar a imprensa porque eles brincaram com a minha dignidade. Tenho namorada e crianças, e cada vez que elas apareciam, eu mudava de canal por vergonha. Mas também foi difícil para a minha mãe ter de ouvir constantemente as palavras ‘prisão’ e ‘violação’ conotadas com o seu filho. Felizmente as autoridades deixaram cair o caso e eu estou muito feliz com isso”, disse aliviado.

Piers Morgan retomou o âmbito desportivo da entrevista, pedindo a CR7 que elegesse o prémio individual que considera mais importante. “A Bola de Ouro, por exemplo. Quero ser o jogador com mais Bolas de Ouro na história do futebol (venceu o prémio cinco vezes) e acho que o mereço. O Messi (também com cinco Bolas de Ouro) é um rapaz fantástico e um grande jogador, mas eu acho que mereço a sexta, a sétima ou a oitava”, sorriu Cristiano.

Questionado sobre a relação que tem com Leonel Messi, o madeirense afirmou: “nós não somos amigos de casa (sinalizando aspas, referindo-se à intimidade), mas damo-nos bem e já partilhamos os grandes palcos há 15 anos. É o melhor jogador contra quem joguei na vida”.

“E qual esperas que seja o teu legado, quando te retirares?”, perguntou o jornalista da ITV. “Espero ser lembrado como um dos melhores da história. Só não digo o melhor porque isso depende do gosto de cada pessoa, mas é claro que, para mim, eu sou o melhor. Mais tarde, quando morrer, também quero ser recordado como o ‘número um'”, assumiu.

Já na reta final, Piers Morgan desafiou Ronaldo a juntar-se ao seu clube do coração, o Arsenal, que milita na Primeira Liga Inglesa, e CR7 confessou que esteve perto de se mudar para Londres, mas acabou por rumar ao Manchester United, clube onde viria a afirmar-se no topo do futebol mundial.