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Conto do Vigário

Esta é a história do Vigário, um rapaz que passava a vida a tentar enganar os outros. Todas as manhãs, levantava-se e preparava uma nova artimanha. Naquele dia de sol, decidiu que iria vender livros que adivinhavam o futuro.

Saiu de casa e começou a bater de porta em porta, tentando vender os livros, repletos de páginas “milagrosas” que sabiam o que iria suceder no amanhã de cada um.

Uma das casas, pertencia a uma simpática velhota, que lhe abriu logo a porta, toda contente:

– Meu filho, que trazes aí contigo? – questionou a mulher.

– Minha querida senhora, desculpe incomodá-la, mas trago-lhe este livro que irá mudar a sua vida! – explicou o Vigário.

– Ah sim? Como irá mudar a vida desta pobre velhota?

– É fácil! Basta abrir este livro todos os dias e ele irá dizer-lhe o futuro!

– O meu futuro é bem pequeno e já não deve mudar, mas, vou comprar-te um livro, só para te ajudar.

– Obrigado! – Exclamou e sorriu entre dentes.

O Vigário continuou o seu caminho, aldeia acima, aldeia abaixo, tentando vender os seus livros mágicos. Alguns, que já o conheciam, não caiam novamente no conto do Vigário.

No dia seguinte, tentou o mesmo esquema. Sem se aperceber, acabou por bater à porta da mesma velhota. Quando a viu, começou a suar em espinha, com medo de ser apanhado.

– És tu, meu bom menino? A minha vista começa a trair-me. – disse a velhota.

– Sim, sou eu. Queria saber como estava.

– Eu estou muito bem. Aquele livro que me vendeste ontem é fantástico! Tens mais?

– Verdade??? Ainda bem que gostou. Tenho sim… – e vendeu-lhe mais dois livros.

– Muito obrigado! – agradeceu a generosa senhora.

– Bem, agora tenho de ir… – E fugiu a sete pés, o Vigário.

O rapaz continuava a bater de porta em porta enquanto as palavras da velhota não lhe saiam da cabeça. Como podia um caderno com folhas brancas e sem nada escrito, ser tão fantástico? Foi então que decidiu voltar para casa e abrir um dos seus livros. Que patetice! – Pensava. A capa era preta e muito macia ao toque, dando vontade de o abrir. As folhas iam-se soltando lentamente umas a seguir às outras. Que bonito! Nunca tinha parado para apreciar o livro. Depressa, voltou à realidade… O livro estava em branco! Não tinha nada lá escrito, não tinha poderes mágicos, como poderia adivinhar o futuro?

De manhã decidiu voltar a visitar a velhota. Preparou-lhe bolachas e saiu de casa. Ficaram horas e horas conversar; a velhota preparou um belo chá e contou várias histórias incríveis com dragões e anões da floresta. O rapaz passou a visitar a velhota quase todos os dias, sem nunca ter a coragem de lhe dizer a verdade sobre os livros.

Num dia em que o sol não apareceu, o Vigário levantou-se, preparou os biscoitos como habitualmente para levar à sua amiga e fez-se ao caminho. Não levou consigo nenhum livro porque já não tinha vontade de enganar ninguém.

Quando chegou a casa da velhota, a porta estava aberta e, no seu interior, encontravam-se algumas pessoas a chorar.

– O que se passa? – Perguntou o Vigário. – Onde está a velhota?

Uma senhora olhou para ele e deu-lhe um dos livros mágicos. Na capa do livro estava escrito o nome do Vigário. Ele abriu o livro e reparou que não estava em branco. A velhota tinha escrito todos os dias, os bons momentos que tinham passados juntos. No dia anterior, a velhota escreveu que sabia que aquele seria provavelmente o seu último dia e deixou uma dedicatória ao Vigário:

Querido Vigário:

Obrigada pelos livros com páginas em branco. Espero que percebas a importância do presente, pois o futuro pode ser escrito todos os dias. Deixo-te um dos teus livros para poderes mudar o teu. Enganar as pessoas não é correto e, sem te aperceberes, estás a enganar-te a ti próprio também.

Obrigada pela companhia nestes meus últimos dias desta viagem que é a vida.”

O Vigário deixou cair o livro no chão. Que andei a fazer? As lágrimas caíam-lhe rosto abaixo. Tinha perdido a sua única amiga…

A partir daquele dia, usou os seus livros para escrever as incríveis histórias que a velhota lhe tinha contado, e passou a ir, aldeia fora, contá-las às outras pessoas.

Os livros, agora sim, passariam a ser mágicos.

E nunca mais ninguém caiu no conto do Vigário.

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