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Conhecer o Mestre Cassiano Nunes

Há dez anos, na tarde de 15 outubro de 2007, falecia o poeta, crítico literário, dramaturgo, jornalista e professor Cassiano Nunes.

Nascido em Santos, SP, em 27 de abril de 1921, como tão bem cantou no poema “Sou de Santos”:

Nasci perto do mar

como Ribeiro Couto.

Como ele, cantei

o cais de Paquetá

cheio de marinheiros,

estrangeiros,

aventureiros.

Apitos roucos de navios

me atraíam para outras terras, propostas sedutoras.

Corri mundo.

Vim parar no Planalto Central

onde, solitário, entre livros,

contemplo os últimos anos.

Às vezes, à noite,

me encaminho para o lado do Eixo

e me detenho ante os terrenos baldios

(amplidão) da Asa Sul.

Ao longe,

os guindastes das construções

sugerem um cenário de cais…

E o vento me traz com cheiro de sal

o inútil apelo do mar.

De família bastante humilde, por insistência do pai, formou-se em Contabilidade, no antigo Ginásio Santista. Aos 16 anos, em 1937, iniciou-se no jornalismo em A Tribuna de Santos, onde foi revisor, repórter, redator e crítico literário.

Por essa época, tinha por companheiros de vida literária nomes como Geraldo Ferraz, Pagu, Francisco De Marchi, Cid e Miroel Silveira.

Em 1947, a convite de Edgard Cavalheiro, transferiu-se para São Paulo, tornando-se secretário-executivo da Câmara Brasileira do Livro. Logo depois, partiu para os Estados Unidos, onde cursou Literatura Norte-Americana, na Universidade de Miami. De volta ao Brasil, formou-se em Letras Anglo-Germânicas, na Universidade de São Paulo e trabalhou como editor na Saraiva, ao lado de Mário da Silva Brito. Seguiu, então, para a Alemanha, onde fez especialização em Literatura Alemã, na Universidade de Heidelberg.

Em 1958, foi um dos fundadores da Faculdade de Letras de Assis (Unesp), ao lado de Antonio Candido e Antonio Soares Amora, sendo, logo após, convidado a lecionar na Universidade de Nova York.

Em 1966, novamente no Brasil, tornou-se professor da recém-fundada Universidade de Brasília, pelas mãos de seu amigo Carlos Drummond de Andrade, onde permaneceu até 1991, quando se aposentou. Paralelamente, ministrou cursos em universidades da Alemanha, Cuba, Equador e Cabo Verde, assim como em diversas outras universidades brasileiras.

Ao receber o título de doutor honoris causa pela Universidade de Brasília, em 2002, declarou: “Nunca separei a vida do ensino, porque acredito que tudo deve convergir para o enriquecimento espiritual do ser humano”.

Não sem razão, um de seus livros – publicou cerca de 50 – chama-se A felicidade pela literatura. Certa feita, definiu precisamente o que a literatura significava em sua vida: “Minha ligação com a literatura, mais do que monogamia, constitui monomania. Vivo a literatura em tempo integral: de manhã, de tarde, de noite. Na mocidade, naturalmente, tinha sonhos eróticos. Hoje, velho, vivo uma obsessão: todos os meus sonhos tratam exclusivamente de literatura. Sonho que estou escrevendo, que estou publicando, que estou fazendo conferências…É claro que amo o teatro, a pintura, o cinema e a própria vida, mas, no fim, tudo isto resulta ainda em matéria para a literatura. Talvez eu não aceitasse nada disto, se não o convertesse em literatura.”

Um dos maiores estudiosos da vida e da obra de Monteiro Lobato, a quem Marisa Lajolo chamou de “nosso maior lobatólogo”, sobre o criador de Jeca Tatu publicou diversos trabalhos, merecendo destaque A atualidade de Monteiro Lobato, ganhador do prêmio Sílvio Romero, da Academia Brasileira de Letras.

Mário de Andrade, outro seu amigo querido, declarou, pouco depois de conhecê-lo (e por essa época contava Cassiano pouco mais de 20 anos): “Cassiano Nunes é uma promessa de grande crítico de poesia, o que sempre faltou no Brasil.”

Sobre sua poesia disse Antonio Houaiss: “Cassiano Nunes tende para uma forma de voluntária aceitação da vida e de seus encargos, com uma lição de ascetismo e ironia que a forma densa não esconde. Sua certeza poética se define irônica, humilde, clara e confiante, numa afirmação de fluir em que ele se sente efêmero e entretanto irrepetível”. Cláudio Santoro foi um dos compositores que musicaram seus poemas, que foram traduzidos para o inglês e o francês, neste último idioma por Vicente do Rego Monteiro.

A vasta correspondência que teve com grande número de intelectuais brasileiros e estrangeiros, ao longo de quase sete décadas, foi por ele doada à Universidade de Brasília, cuja missão, agora, será publicá-la, pois certamente encerra inesgotável contribuição de um humanista exemplar, dos maiores que o século XX produziu entre nós.

Outro lado pouco conhecido do verdadeiro polígrafo que foi, são as peças teatrais que deixou publicadas, Sempre haverá anjos, As luvas de Ema e Pliplaimundo no Circo.

Em 2004, o cineasta Bernardo Bernardes lançou o curta-metragem Viva Cassiano!, premiado no Festival de Brasília, no qual sua rica trajetória de vida foi mostrada com tocante sensibilidade.

No poema “Espera um pouco” disse:

Não dês o nome de amor

ao que não passa de desejo.

Ideal é uma palavra branca demais

para o teu apetite de aposentadoria.

Procura ser exato ao definir as coisas.

A minha morte

não denomines morte.

Nem a consideres definitiva.

Espera um pouco, amigo.

Espera um pouco.

Pela ressurreição.

E em “Epitáfios” escreveu:

Aqui jaz

um indivíduo amável e prestativo,

que, no entanto,

à sociedade satisfeita,

disse: “NÃO”.

 

(O autor deste artigo, Angelo Mendes Corrêa, é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista)

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.