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Como gerir a incerteza?

O ano de 2020 começou ofuscado pelo Sars-cov-2. No dia 25 de Janeiro, tambores e dragões usados para “assustar os maus espíritos” e trazer bons augúrios foram substituídos pelas portas fechadas e isolamento social na China. A partir dessa data, a propagação do contágio, num mundo globalizado, foi veloz e com ela, populações, de cada canto deste planeta, sentiram-se cair nas garras da incerteza.

Mensagens, artigos e notícias debruçam-se sobre a incerteza relativa ao tempo de isolamento social, sobre o receio do retorno gradual à interação social, sobre o estado da economia e política doméstica e global, sobre o comportamento do vírus, sobre o futuro.

Alguns referem que o novo coronavírus trouxe uma das mudanças mais rápidas e impactantes, outros, que trouxe mudanças permanentes – nada será como antes. E perante essas afirmações, pessoas no mundo inteiro sentem-se ainda mais angustiadas.

Mas, se olharmos para a história algumas das pandemias que assolaram a humanidade, como a pandemia de Tifo, a peste negra na idade média, a primeira pandemia de gripe reconhecida, teve início na Ásia, em 1580, que depois se espalhou para a África, Europa e América do Norte, da cólera no século XIX, da gripe espanhola no século XX, além de epidemias locais devastadoras como a Peste do Egito (430 a.C ) ou  Peste Antonina (165 d.C, que especialistas estimam ter causado mais de cinco milhões de mortos), o Covid-19 não parece nos trazer novidade, mas antes, nos recorda que, de tempos a tempos, o ser humano é confrontado com a sua natureza e com o fator intrínseco ao seu nascimento – a morte. E juntamente com a humanidade, a própria ciência é confrontada com uma nova estirpe virológica, um novo desafio a ser enfrentado.

Sob o olhar da perspetiva histórica, embora em condições diferentes de vida, temos, por um lado, o conhecimento do passado, e, por outro, estamos a atravessar um desafio conhecido pelos nossos ancestrais e gravado no nosso ADN que são as pandemias. Em todas as pandemias, pessoas partiram, outras ficaram, o sistema social sofreu impacto, mudou, se adaptou, pois a força da vida continua.

Enquanto cientistas de todo o mundo, num movimento sem precedentes, lançaram-se numa corrida contra o tempo a desbravar um ser microscópico que paralisou as nossas vidas, para poder gerar uma vacina que o combata, nós estamos em quarentena (medida que foi usada na gripe espanhola, por exemplo), cercados de tecnologia que nos possibilita comunicar de forma (quase) gratuita, repletos de informação diária que nos coloca a par da evolução e os cuidados a termos, viabilizando uma maior capacidade de lidar com o evento embora todos os problemas intrínsecos à ele, mas nada disso parece ser suficiente para aplacar os sentimentos de medo, fragilidade e incerteza presentes em nós.

A incerteza nos deixa nervosos. Gostamos de ter a sensação que conseguimos resolver os problemas e se possível rapidamente. Quando isso não acontece, sentimo-nos incompetentes, e quando isso acontece numa configuração de pandemia mundial, sentimos que as coisas estão fora de controlo. Esse sentimento não é novo. Todos vivenciamos esse sentimento numa situação na nossa vida a qual não prevíamos e que não conseguíamos controlar. Portanto, quer o sentimento quer a possibilidade de fazermos parte de uma nova pandemia são factos por nós conhecidos…Entender isso nos traz mais compaixão e sabedoria para a nossa finitude, mas não elimina a incerteza.

Então, o que fazer para lidar com esse sentimento de incerteza e essa sensação de que algo foge do controlo?

Vou partilhar consigo 5 estratégias de enfrentamento que irão ajudar- lhe a si (e as pessoas que conhece), a fortalecer a sua imunidade mental e emocional:

1ª Livre Escolha – Quando a situação não é favorável podemos mudá-la. Quando não podemos mudá-la, podemos escolher que atitude teremos frente à situação. Eu, como uma grande parte da população mundial, estou em confinamento e a nível psicológico e emocional estou calma e precavida. O que me leva a esse estado é que tenho consciência que possuo liberdade de escolha por qual atitude que quero ter perante as circunstâncias que a vida me apresenta. Eu estou a escolher estar em confinamento e isolamento social, porque escolho pela vida, escolho querer viver e não ser um veículo de disseminação do vírus.

2ª Concentre-se no que está sob o seu controlo e decisão – O que está sob o seu controle neste momento? O que você pode escolher fazer nessa situação?
Por exemplo, sua escolha pela prevenção, isolando-se, pela manutenção da sua vida organizando-se no espaço em que reside, pelo apoio ao outro, através de uma chamada telefónica, ou nas redes sociais, ou doando comida é o que está sob seu controlo e escolhe fazer nessa situação.

E quando outros desafios vierem, questione-se: O que quer fazer ou como pode contribuir para essa situação? Por exemplo, eu quero colocar em primeiro lugar a minha avó ou mãe, ao escolher não visitá-las. Eu decido lavar as mãos, trabalhar de casa a remoto, manter a distância social, pagar os salários dos meus funcionários para que possam estar protegidos e proteger suas famílias.

3ª Afirmar a sua identidade que está sendo desafiada por esta experiência, é entender como a sua força pode ser usada nesta altura de incerteza. Quando não podemos alterar as circunstâncias em que nos encontramos, então, é a nós, que devemos nos transformar.

Quem quer ser ou como quer estar nessa situação? Por exemplo: Eu quero ser uma pessoa corajosa ou quero estar calmo nesta situação.

Quando identifica que quer ter coragem, paciência ou calma, você pode pensar no que fazer para desenvolver e nutrir esses sentimentos. Isso leva a que seja consistente com suas ações, valores e relacionamentos significantes para si. É importante ter uma sensação de rendição de que não pode fazer tudo, mas com a consciência
de que pode fazer o seu melhor.

4ª Reconhecer qual é a dor que está na causa dessa incerteza. Olhar compassivamente para si, para os seus filhos, para o seu parceiro e entender que possui o direito de sofrer ou sentir incerteza, é um passo para aceitar o que sente. A partir daqui, pode entender a causa que o leva a sentir-se assim. Por exemplo, a causa pode ser o medo – medo de não ter dinheiro, medo do futuro, medo de ser infetado. Identificar esse medo, isolá-lo, ajuda a entender o que pode fazer para alterá-lo – pode pensar em outras formas de trabalho, fontes financeiras, entender se está a fazer tudo que está ao seu alcance para se proteger, entre outras ações.

5ª Nutra o seu sentimento de esperança tendo os pés no chão.

Esperança é uma disposição do espírito, é uma confiança no amanhã. Pessoas sobreviveram às pandemias, às guerras, e conseguiram reconstruir as suas vidas, as suas cidades, e levar a que a sociedade chegasse até onde estamos hoje. Ter uma disposição de espírito que conseguiremos ultrapassar esta fase e procurar como podemos contribuir para a reconstrução, de forma prática e efetiva, da nossa realidade, leva-nos a passar mais sabiamente por este momento.

Por fim, o que nos une é “ser” humano. Podemos ter muitas razões para desistir e desesperar, mas basta uma razão, viver, que temos todas as razões para lutar.

Karina M. Kimmig

Karina M. Kimmig foi galardoada Top Coach na Alemanha, autora do livro “Metodologia Humanística: Os Sete Poderes que Todos Nós Possuímos”, General Manager MORE Institute GmbH, Presidente de associações internacionais, cocriadora da MORE Humanistic Methodology, autora, blogger e referência internacional em desenvolvimento humano. Mais: https://more-institute.com

 

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