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Com amigos destes…

Recordo-me dos tempos de escola. Existiam sempre um ou dois miúdos que procuravam problemas, judiavam os colegas mais fracos, inventam as travessuras mais ignóbeis e estavam sempre prontos para uma zaragata, mesmo com os colegas mais velhos. Eram tipicamente crianças frustradas que descarregavam na escola os problemas “lá de casa” – uso as aspas pois alguns nem isso tinham. A estratégia era simples: manter a distância, em especial nos testes.

É este tipo de crianças que me lembra quando vejo um estado soberano, supostamente nosso aliado, acossar três outros estados em menos de quinze dias. Dois deles estão mais que à sua altura em termos militares. Eis o que diz, por exemplo, Sigmar Gabriel sobre este nosso aliado:

Este incidente mostra que há neste jogo um jogador que é, de acordo com declarações de diversas fontes da região, imprevisível […]

O estado a que estas declarações se referem é a Turquia, e são uma reacção ao abate de um caça-bombardeiro russo sobre a Síria. Para as compreender é necessário recuar um pouco no tempo e perceber como este incidente não é de todo isolado.

A Turquia foi um dos apoiantes de primeira hora ao levantamento popular contra o regime xiita da Sírira, liderado por Bashar al-Assad. Foi na Turquia que foram montados os primeiros campos de treino da NATO aos soldados sunitas, aos quais depressa se seguiram outros na Jordânia.

A NATO tentou por diversos meios criar um exército sunita – apelidado de Exército Sírio Livre – mas tal nunca se materializou. Falhou a criação de uma hierarquia de comando que coordenasse efectivamente as diversas facções sunitas em revolta contra o regime. No final de 2012 começou a ficar evidente a fragmentação do conflicto, com Curdos a norte, o Al Nusra a ocidente e o embrião do Daesh a oriente; cada uma destas forças com uma agenda militar própria.

O regime xiita sírio encontrou-se em sérias dificuldades em 2013, mas não caiu. O Hezbollah entrou em jogo, assim como muitos xiitas iraquianos – antigos refugiados da guerra contra Saddam Hussein que tinham sido acolhidos na Síria – e a guerra entrou num impasse. No verão de 2013 aparecem as primeiras notícias de ataques do exército do Daesh em território iraquiano. Em Janeiro de 2014 teve lugar a primeira grande ofensiva do Daesh no Iraque, com a tomada das cidades de Faluja e Ramadi. Os Jordanos começaram então a mostrar publicamente o seu desconforto com o apoio da NATO aos sunitas sírios no seu território. Mas não a Turquia, a essa altura já o seu envolvimento na guerra tinha passado o ponto de não retorno.

Com uma economia anémica e uma contestação interna crescente, a guerra nos países vizinhos da Turquia tornou-se rapidamente num negócio lucrativo. Em primeiro lugar com o tráfego de seres humanos: num sentido passam os mancebos recrutados para o exército do Daesh, no outro seguem refugiados de guerra e toda a espécie de migrantes económicos. Com tudo se faz dinheiro: as passagens de assalto das fronteiras, segurança informal, emissão de passaportes falsos. O governo Turco se não lucra directamente, pelo menos permite o lucro.

Ao longo deste tempo a Turquia firmou-se como rectaguarda logística dos sunitas que combatem na guerra, em particular do Daesh. Cedo emergiram notícias de que os soldados do Daesh feridos em combate recebem tratamento médico na Turquia. Com a expansão do seu território, o Daesh tomou controlo de um crescente número de recursos petrolíferos na Síria e do Iraque. O petróleo tornou-se a moeda de troca do Daesh nas relações comerciais com a Turquia.

Em resposta ao abate do seu caça-bombardeiro e execução do respectivo piloto, o exército russo publicou uma série de documentos que mostram a dimensão das linhas logísticas entre o Daesh e a Turquia. Apesar destas relações não serem novidade, os números avançados pelos russos são: no Verão de 2015 o Daesh estaria a exportar para a Turquia cerca de 200 000 barris de petróleo por dia (o equivalente ao consumo de Portugal). Dias depois uma reportagem publicada pelo Financial Times explicava que as filas intermináveis de camiões junto às fronteiras da Turquia com o Iraque e a Síria têm ainda outra importante função: no regresso trazem as munições que o Daesh usa em combate e os químicos com que fabrica os seus famosos carros bomba.

Em 2013 a Turquia começou também a comprar petróleo directamente ao governo regional curdo do norte do Iraque, à revelia do governo de Bagdade, inicialmente negando ao governo iraquiano quaisquer receitas. As relações políticas entre Bagdade e Ankara não mais se compuseram e os curdos haveriam de compreender que a Turquia não é um parceiro fiável.

Para além da economia está ainda a própria postura militar. A Turquia começou a ir além do apoio de rectaguarda aos sunitas em 2014 com seu o exército iniciando uma série de operações militares em território sírio. Lutou ao lado de turcomenos e Al Nusra na conquista de várias cidades no norte da província de Latakia, onde mais tarde seria abatido o caça-bombardeiro russo. Recorde-se que a região a norte de Lakatia foi tomada pela Turquia à Síria depois da II Guerra Mundial.  Já este ano tiveram lugar diversas operações contra posições detidas pelos curdos no nordeste da Síria.

Todo este envolvimento económica e militar ficou em causa após os atentados de Paris. François Hollande declarou guerra ao Daesh e por uns dias pareceu querer juntar-se à aliança Russia-Líbano-Síria-Iraque-Irão. Até que o Su-24 russo foi abatido. Mais que uma afirmação de domínio sobre a região de Lakatia, esta acção foi uma mensagem a Hollande, relembrando-lhe que o lugar da NATO é ao lado da Turquia e dos sunitas.

Uma consequência imediata desta acção militar por parte dos turcos foi o fim da Corrente Turca. Era por este nome conhecido o gasoduto planeado para ligar a Rússia à Turquia e entrar depois na Europa através da Grécia. Seria este o primeiro gasoduto a ligar a Europa do sul ao Oriente, depois de planos falhados de ligações a Itália e mias tarde Bulgária. As obras que deveriam começar no início de 2016 foram canceladas de imediato; no Concelho Europeu discute-se agora a expansão da Corrente Norte, o gasoduto que liga a Rússia à Alemanha.

Mas animosidade da Turquia não se fica pela Rússia. Cada vez mais desiludido com a posição da NATO nesta guerra, o governo de Bagdade iniciou recentemente movimentação políticas para pôr termo ao acordo militar de 2014 que permite à NATO o bombardeamento das regiões controlados pelo Daesh. O objectivo é abrir portas à intervenção militar directa de Rússia e Irão, que Bagdade considera de momento mais eficaz. Aparentemente em resposta, a Turquia enviou uma divisão militar para a região de Mossul, o que Bagdade interpreta como uma invasão. Em consequência desta movimentação, Turquia e Irão caíram numa guerra de palavras que ameaça colocar as duas potências regionais definitivamente em rota de colisão.

A Turquia tornou-se hoje numa das maiores ameaças à segurança da Europa. Firmou-se como apoio de rectaguarda de um inimigo declarado da Europa, põe em causa a nossa segurança interna e destabiliza o Próximo e Médio Oriente.

Num período em que a NATO insiste numa deriva expansionista, é necessário repensar o papel da aliança atlântica. Vale a pena arriscar uma guerra por mais um aliado que não partilha a nossa identidade ideológica e que poderá não estar interessado em paz? Não estivesse a Turquia na NATO, teriam sido Europa e EUA tão permissivos em relação ao Daesh? Teria o Califado crescido como cresceu? Teriam os atentados de Paris acontecido?

Naturalmente, uma verdadeira transformação da aliança atlântica só pode acontecer se a União Europeia desenvolver uma política militar própria. Só com uma Europa estrategicamente unida será possível refundar a NATO como autêntica garante de paz e estabilidade, tal como foi inicialmente concebida.

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