Catarina Vieira: Uma voz jovem e insular na política europeia
Com apenas 29 anos, Catarina Vieira é uma das mais jovens eurodeputadas em funções. Nascida em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, é também a única portuguesa eleita por outro país da União Europeia (UE). Em 2024, a candidata pela coligação neerlandesa PvdA/GroenLinks, conquistou um lugar no Parlamento Europeu graças a cerca de 30 mil votos preferenciais, num sistema eleitoral que permite aos eleitores escolherem diretamente os seus representantes.
O BOM DIA conversou com a jovem cuja história é marcada pela emigração, pelo compromisso europeu e pela vontade de tornar a política mais transparente e acessível.
Dos Açores para os Países Baixos
Após concluir os estudos em Relações Internacionais pelo ISCSP (Lisboa) e de ter realizado um intercâmbio na República Checa através do Programa Erasmus, Catarina optou, tal como muitos jovens, por iniciar a sua carreira fora de Portugal. “Procurava uma oportunidade para começar a minha carreira e achava que em Portugal teria algumas dificuldades”, recorda. A aventura nos Países Baixos começou em 2017. “Acabei por concorrer a vários empregos na Holanda, especialmente nesse país porque o meu namorado era holandês e vivia cá. Consegui uma proposta para um emprego no verão a seguir aos meus estudos, e vim em setembro.”, conta.
Apesar de ter adorado desde logo o país, a adaptação foi gradual, marcada por desafios culturais e climáticos: “Especialmente adaptar-me ao tempo e à falta de luz durante o inverno foi complicado.” No entanto, o acolhimento por parte da comunidade onde se inseriu e o ambiente internacional das organizações onde trabalhou facilitaram o processo. “Trabalhei sempre em organizações com colegas de todo o mundo, para além de holandeses, e tive a família e amigos do meu parceiro para me apresentar à cultura holandesa aos poucos. Tinha sempre alguém a quem perguntar como as coisas funcionavam, o que ajuda imenso.”, confessa.
De emigrante a representante europeia
Apesar de nunca ter sido politicamente ativa em Portugal, Catarina acabou por se envolver na política neerlandesa, uma realidade bem diferente da portuguesa. “Nunca me passou pela cabeça entrar na política holandesa, para mim era outro mundo – só o facto de o parlamento ter 21 partidos chocava-me e confundia-me imenso, em comparação com a realidade em Portugal”, explica.
A possibilidade de se candidatar surgiu porque no GroenLinks a oportunidade de integrar a lista é aberta a todos os membros. “Há um processo de seleção por uma comissão a que qualquer pessoa se pode apresentar, semelhante a uma entrevista de emprego. Candidatei-me à lista do GroenLinks, o partido verde, e durante esse processo decidiu-se também que iríamos avançar em coligação com o partido trabalhista, o PvdA.”, explica. Após três entrevistas com o comité de seleção, foi escolhida para ocupar o décimo lugar da lista conjunta. “Três dias depois, a lista foi anunciada publicamente e tornei-me candidata.”, conta.

O sistema eleitoral neerlandês permite que os eleitores votem diretamente nos candidatos. A jovem eurodeputada considera que essa realidade “não só ajudou, como foi a única razão pela qual fui eleita!”. Catarina realça também a importância da mobilização promovida pelo movimento Stem op een Vrouw (“Vote numa mulher”), que encoraja os eleitores holandeses a escolherem candidatas mulheres dentro dos seus partidos. “As mulheres representam 36%, 39%, e 40% da representação nos parlamentos português, europeu e holandês, respetivamente. Isto significa que estamos ainda longe da paridade, e movimentos como estes que permitem aos cidadãos influenciarem a composição dos seus representantes são, na minha opinião, muito bem-vindos.”, explica.
A eurodeputada assume que saber que tinha sido eleita “foi uma grande surpresa”. “Senti-me muito honrada e senti de imediato um grande sentido de responsabilidade pela confiança que mais de 30 mil pessoas puseram em mim”, assume.
Uma voz jovem no Parlamento Europeu
Catarina é uma das poucas jovens eurodeputadas e vê isso como uma responsabilidade e uma oportunidade de representar a diversidade geracional no Parlamento. “O eurodeputado médio tem 50 anos. É importante termos pessoas com experiência, mas também quem saiu há pouco do sistema educativo e conhece mais de perto os problemas que os jovens atravessam na Europa.” E acrescenta: “Tenho tido oportunidades de ter pessoas que nos visitam, entre eles muitos jovens, e espero que eles se identifiquem com o percurso que fiz e que seja possível inspirá-los. Precisamos de uma representação de todos os tipos, de variedade e diversidade no Parlamento. Quanto mais diverso, melhor.”
Apesar da sua campanha ter sido focada em temas ambientais e sociais, Catarina trabalha agora nas comissões de Comércio Internacional e Direitos Humanos. Ainda assim, vê “muitas oportunidades para promover a agenda climática na forma como a Europa faz negócios com o mundo, garantindo respeito pelos direitos humanos e laborais nas cadeias de valor globais. Portanto, acabo por conseguir integrar muitas dessas questões de âmbito social e ambiental nas questões comerciais entre países.” “O Comité dos Direitos Humanos também tem sido muito interessante: tem muito a ver com os direitos humanos fora da UE, mas pela qual UE continua a ser uma voz no mundo e é um contexto onde posso trazer exemplos do que se passa e tentar mudar situações graves que se verificam.”, acrescenta.

Descomplicar a Europa
A eurodeputada açoriana defende uma política europeia mais próxima das pessoas. Reconhece que a UE pode parecer distante ou difícil de compreender, mas acredita que cabe aos eurodeputados tornar o processo mais acessível. “Para mim, o papel dos eurodeputados é ser tão comunicativos e transparentes quanto possível. Tento usar as redes sociais para explicar o trabalho que faço, responder a perguntas e chegar a mais pessoas, sobretudo às mais jovens.”
“O Parlamento Europeu, em particular, tem bastantes canais de transparência: por exemplo, todas as reuniões que tenho com a sociedade civil ou com empresas demonstro-as no meu website, portanto todos podem saber com quem reuni. Há listas de votos disponíveis para podermos saber em quem é que os nossos representantes votaram. Há um webstream das nossas reuniões que as pessoas podem seguir. Porém, é preciso que as pessoas tenham interesse. É muita informação e é preciso que nós saibamos destilar o que é essencial para trazer para as pessoas e comunicar de uma forma acessível.”, explica.

Para ela, exemplos concretos são essenciais: “A nossa capacidade de viajar livremente dentro da UE, o fim das taxas de roaming quando telefonamos aos nossos familiares durante as férias noutro país, e outros exemplos concretos que mostrem como é que os fundos europeus ajudaram a desenvolver Portugal”.
Uma perspetiva insular e europeia
Quando questionada sobre de que forma a sua origem açoriana e a sua vivência como emigrante influenciam a sua visão política, Catarina considera que são duas visões muito diferentes e complementares. “Dos Açores trago a noção do quão extensa e diversa a Europa é, sendo que somos uma das Regiões Ultraperiféricas (RUP) e sentimo-nos, como açorianos, bastante longe das decisões em Bruxelas, apesar de recebermos imenso apoio europeu na nossa região.”, refere.
“Como emigrante, sinto a proximidade da União Europeia, e a experiência em primeira mão das oportunidades a que temos acesso como europeus. Comecei a trabalhar também fora do meu país sem longos processos burocráticos, sem me preocupar com vistos de residência, sem ter de pedir cidadania ou passar por longos processos de reconhecimento das minhas acreditações. Posso telefonar aos meus familiares e amigos sem pagar roaming e o meu casamento em Portugal foi facilmente reconhecido na Holanda. Ser cidadã da UE foi um elemento decisivo no rumo da minha vida”, acrescenta.

Emigrantes e participação política no país de acolhimento
A eurodeputada reconhece que a participação política da comunidade portuguesa nos países de acolhimento na Europa em geral é reduzida, mas compreensível. “Para qualquer emigrante, a participação política tem outro nível de complexidade.”, considera. “Participar politicamente como cidadão em qualquer sítio no seu próprio país não é algo que toda a gente escolhe fazer, quanto mais num país estrangeiro onde a língua, a história, as personalidades e o background são outros; tudo nos é alheio e portanto, uma acrescida dificuldade.”, acrescenta. A açoriana refere ainda o seu próprio exemplo: “Também para mim, que não falava holandês quando vim para cá e tive de decidir votar pela primeira vez nas eleições municipais um ano depois de chegar, tive de ter paciência e ir procurar quem eram os partidos, como é que se organizam, porque é que há tantos, quais são as diferenças, etc. No meu caso, tinha um parceiro holandês a quem podia perguntar o que é que se passa, qual a diferença entre este e aquele.”.
O crescimento da extrema-direita
Catarina mostra-se preocupada com o crescimento da extrema-direita na Europa. “Não há um país em que a extrema-direita não esteja a avançar ou, pelo menos, a causar mossa e, sinceramente, é assunto global. Como combater? Acho que estamos todos à procura de respostas.” Para travar esta tendência, a jovem defende, por exemplo, o combate à desinformação e a cooperação entre forças democráticas e não populistas. “Se nós não trabalharmos juntos, como é que vai ser?”. E deixa o alerta: “O populismo e a extrema direita crescem quando as pessoas estão infelizes com a situação injusta em que vivem. Portanto, é importante levar a sério as preocupações delas nos diversos assuntos sociais, de habitação, saúde, etc. e que estas sejam prioridades para todas as forças democráticas.”
Desejos para o futuro
A jovem considera que “há muito que a Europa pode fazer por nós e há muito que nós podemos fazer pela Europa.” Entre os seus desejos para o futuro, destaca-se a criação de listas transnacionais nas eleições europeias. “Gostava muito de um dia ver listas ao Parlamento Europeu compostas por pessoas de diferentes países, em vez de apenas listas nacionais. Somos cada vez mais uma comunidade europeia e esse ângulo deve ser refletido. Partilho muitas visões políticas com colegas austríacos, italianos ou suecos – por que não estarmos na mesma lista, se lutamos pelos mesmos ideais e pela mesma visão?” – uma ideia que reflete a Europa com que sonha: inclusiva, colaborativa, diversa e verdadeiramente unida.