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Castelos de areia

Os Sapatos na Margem do Danúbio, em Budapeste, são um ausente testemunho de um dos odiosos acontecimentos da 2ª Grande Guerra – um por entre milhares deles. Durante a ocupação pelas forças do Reich da capital húngara, o Partido da Cruz Flechada, forte apoiante das forças invasoras, tinha por uso executar judeus nas margens do Danúbio para que os seus corpos fossem arrastados pelas águas. Antes de serem executadas as vítimas eram obrigadas a descalçarem-se. O escultor Gyula Pauer ergue este memorial representando tudo o que ficava para trás daqueles que a longa noite Nazi silenciosamente suprimia.

No sábado à noite foi possível assistir na cinemateca ao filme dinamarquês “Debaixo da Areia”. Este filme, cuja acção se situa após o fim da 2ª Grande Guerra, foca-se num dos menos conhecidos episódios da história dinamarquesa desse período.

Durante a ocupação alemã, temendo que a tentativa de reconquista da Europa se iniciasse nas costas dinamarquesas, as forças do Reich colocaram mais de 2 milhões de minhas nas praias deste país. No fim da guerra, o exército dinamarquês usou-se dos prisioneiros de guerra alemães para desminar essas praias. Sem preparação alguma, mais de metade deles acabaram por morrer ou ficar gravemente mutilados. De entre eles uma grande parte, como nos dia o realizador Martin Zandvliet, eram “rapazes que na verdade tinham um só desejo na vida: voltar para casa para a sua mãe e seu pai”.

A imagem que o realizador nos transmite sobre a forma como os dinamarqueses olhavam estes jovens alemães, arrastados para uma guerra que um regime moribundo teimava em manter, é duma dureza e rigidez atroz. Aqueles jovens não eram sequer humanos como os demais. Eram tratados abaixo de animais, como nos é mostrado pela relação do Sargento Carl com o seu cão Otto face àqueles escravos de guerra – o mesmo desprezo manifestado pelo Partido da Cruz Flechada para com as suas vítimas.

O mesmo desprezo que demonstramos, colectivamente, ter hoje para com os milhões (mais de cinco milhões) de refugiados do conflito Sírio.

Os sapatos na margem do Danúbio, da escultura de Gyula Pauer, são hoje uma linha interminável de pegadas que vêm desde a Síria e, pelo norte de África e Lampedusa, pela fronteira Turco-Bulgara ou pela ilha de Lesbos, se terminam na barreira implacável da “Selva de Calais”. Os olhos de superioridade com que olhamos hoje esses que fogem de atrocidades inimagináveis não é tão diferente daqueles que se cobardemente se escondiam por detrás das miras das armas nas margens do Danúbio, ou daqueles que mataram os jovens alemães nas praias dinamarquesas movidos por simples e ignóbil vingança.

O desprezo com que somos capazes de olhar outros Homens reside no mais profundo e escuro recanto de nós.

As cicatrizes das guerras perduram, certamente, mais do que aqueles que as viveram. O impacto social da guerra, a formatação de ideias e sentimentos, deixas marcas quase imperceptíveis mas indeléveis na pela da Humanidade. Mas mais grave que as cicatrizes do passado são as feridas que se abrem para o futuro.

São essas feridas que abrimos hoje que vão, amanhã, levar-nos a, de novo, extremas posições. Que vão, de novo, levar-nos a alinhar junto a uma margem aqueles que, num pequeno detalhar, possam ser diferentes de nós.

São essas feridas que vão levar-nos a rastejar para a morte nas areias de uma praia qualquer.

O desejo de acabar com todas as guerras, subjacente ao sonho europeu, é um mero castelo de areia. Será preciso bem menos que as minas alemãs na costa oeste da Dinamarca para o derrubar.

E, no entanto, continuamos a colocar, todos os dias, minas nesta praia de areias finas que, juntos, escolhemos percorrer.

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