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Cara a cara

A notícia foi divulgada por quase todos os meios de comunicação social em Portugal.

Uma mãe deu à luz, e colocou o seu recém-nascido num contentor do lixo. O bebé seria encontrado pouco tempo depois graças a um homem que, menos afortunado, vive nas ruas.

Muito se escreveu acerca do assunto. Ninguém no seu juízo perfeito aplaude ou até compreende semelhante ato. No entanto, muitos foram os que ao escrever sobre o sucedido optaram mais por questionar certos factos, que não justificando o ato incompreensível, pelo menos levantam outras questões importantes em se chegar a um possível entendimento ao que levou uma jovem mãe a ter a atitude que teve.

Outras pessoas optaram por condenar de maneira profunda e em muitos casos, implacável, o caso que pela parte que toca ao público, os mais vulneráveis e os mais acusadores, do que dele conhecem, só tem a versão das notícias e dos comentários, acusações e julgamentos, que têm vindo a lume nos mais variados meios de comunicação social.

Não é, no entanto, para falar do caso que o chamei à estampa.

Ninguém compreende, nem pode aceitar o facto de que uma criança tenha que ser submetida a tal ato para o qual me custa imenso encontrar as palavras certas que o definam. E, porque julgar é papel para o qual não estou habilitado, nenhuma das palavras implacáveis de muita gente que julgou e já condenou esta mãe, me serve para aqui usar.

Por isso, o que realmente me inquieta a mente é saber se, algumas das pessoas que falaram sobre este caso, se ao invés de se sentarem ao computador e deixarem cair os dedos pelas teclas, tivessem a oportunidade de falar cara a cara com esta mãe, falar, conversar, descobrir mais sobre a pessoa, o seu passado, o seu presente, os seus sentimentos, as suas ideias, os seus sofrimentos, as suas angústias, enfim, falar com vontade de ouvir também. Será que depois disso, que depois de ficarem a conhecer mais com a troca de conversas, a opinião continuaria a ser a mesma?

Falar cara a cara deveria ser a única maneira aceitável para se criticar alguém.

Quem navega pelas redes sociais depara-se com comentários acerca de A e B, muitos deles inflamados por outras críticas que como uma bola de neve vão ganhando volume à medida que vão rolando. Fala-se, ou critica-se porque alguém fez um poste e um comentário que a maior parte das vezes se baseia numa opinião pessoal, opinião essa que de uma em uma vai incendiando a vontade que se tem de apontar o dedo e de se achar que os outros é que são sempre os maus da fita. Caso para perguntar, afinal quem são os outros, se não nós também?

Fala-se e critica-se A ou B, mesmo sem conhecermos esse A ou B pessoalmente. A questão que se põe, é se, havendo a oportunidade de falar cara a cara com a pessoa que se critica, a quem muitas vezes se apelida dos mais escabrosos palavrões, se não mudaria a opinião, depois de uma troca de ideias, de um esclarecimento etc.

Temos de acreditar de que somos capazes de sair da nossa concha onde por vezes nos ensimesmamos esquecendo que as verdades são parciais, e que não haveria progresso na humanidade se não houvesse troca e partilha de ideias.

Se ao menos os políticos, em vez de assumirem como facto que as pessoas são estúpidas e facilmente manipuláveis, arranjassem uma maneira de as por a falar umas com as outras, a trocarem impressões, ideias e factos, independentemente das suas preferências políticas, talvez eles mesmos ficassem impressionados com o nível de capacidade de entendimento que as pessoas têm em relação aos temas que de uma ou de outra maneira afetam as suas vidas no dia a dia, e se as pessoas em si compreendessem que é falando cara a cara que se aprende uns com os outros, talvez que a política despertasse mais interesse na população, talvez que muitos dos problemas que afligem um país e o seu povo, encontrassem melhor solução para o benefício de todos.

E talvez que, falando cara a cara não se fosse tão exímio em criticar, por vezes tão injusto ou sem o verdadeiro conhecimento de causa, e talvez que a cultura beneficiasse bem mais entre a compreensão e o conhecimento que advém entre pessoas que falando cara a cara têm a oportunidade única de evoluir muito mais culturalmente (…)