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Brexit, ou a história de um jogo só com derrotados

A teoria dos jogos, proveniente da matemática mas aplicada à política internacional, ajuda a explicar e estudar as decisões que são tomadas num ambiente onde vários atores interagem. Esta teoria estuda as escolhas de comportamentos ótimos quando o custo e o benefício de cada opção depende, sobretudo, da escolha dos outros indivíduos.

Quando dois Estados soberanos entram em negociação ambos procuram obter vantagens no desfecho dos debates que são podem ser formalizados, por exemplo, através de um acordo internacional. Esta teoria explica que os Estados entram em relação para ganharem algo – que pode ser muito diferente para as duas partes – obtendo assim um resultado de soma nula.

A ativação do famoso Artigo 50 do Tratado de Lisboa por parte do Reino Unido para deixar a União Europeia pode ser um interessante caso de análise para os especialistas da teoria dos jogos. A saída do Reino Unido, segundo uma esmagadora maioria dos especialistas, terá resultados negativos do ponto de vista económico para o bloco europeu mas também para os britânicos.

A União já definiu três domínios essenciais para as discussões que se iniciam: as garantias a dar aos europeus que vivem no Reino Unido e aos britânicos que vivem na UE; a definição de quanto Londres tem ainda de contribuir para os cofres da UE; e a situação da fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, única barreira terrestre entre o Reino Unido e a UE.

Depois de se resolverem estes aspetos da futura relação da EU com o Reino Unido, os negociadores encetarão a discussão sobre o futuro das relações bilaterais, e um acordo transitório que será válido até à entrada em vigor do acordo comercial definitivo. O Parlamento Europeu definiu por uma larga maioria (516 votos contra 133) as “condições para um bom divórcio”: não há direitos sem deveres, não haverá acesso do Reino Unido ao mercado interno sem o respeito das quatro liberdades (livre circulação dos bens, dos serviços, das pessoas e dos capitais), não haverá dumping nem negociações paralelas e um máximo de garantias para os cidadãos da União.

A contribuição do Reino Unido para a União Europeia é uma das grandes preocupações para ambos pois ascende a dez mil milhões de euros por ano. O governo inglês exclui continuar a fazer contribuições significativas para a UE após a saída, exceto para financiar projetos nos quais quer continuar a participar, mas para provar a sua boa vontade e obter um futuro acordo comercial interessante é preciso chegar a um compromisso político, mais do que a um simples cálculo.

Do lado das instituições europeias se ouviram declarações de que o Brexit pode ser o renascimento do projeto europeu, e Jean-Claude Juncker lançou um Livro Branco para fomentar um debate entre os Estados-Membros sobre a União pós-Brexit.

Mas, por agora, o otimismo não domina nem nas hostes europeias nem do lado britânico. O inglês John Kerr, o homem que redigiu o tal Artigo 50 que permite a saída de um membro da UE, já disse que nunca pensou que o seu país fosse o primeiro a utilizá-lo.  Contudo, também afirmou ter-lhe ocorrido a ideia de que a seguir ao 50, o Reino Unido possa invocar o Artigo 49 para poder regressar à União Europeia.

(Raúl Reis é funcionário europeu, mas as opiniões aqui veiculadas são puramente pessoais e não representam as instituições europeias)

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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