De que está à procura ?

Lisboa
Porto
Faro
Colunistas

Breve ensaio sobre a barbaridade

A barbárie está impregne na cronologia da natureza humana – uma marca de nascença no rosto da civilização, que precisou de séculos para se afastar dos mais gritantes espetáculos de humilhação e desigualdade: o esclavagismo – de onde partiu essa famosa afirmação do gládio vencedor, numa arena onde o povo apupava a morte e um único homem ditava com o polegar a sentença de um escravo: vida ou morte.

Esta foi uma das mais antigas tradições da Humanidade. A normalização do instinto violento e brutal que o homem e a mulher apresentam desde os primórdios da nossa História, quando a sobrevivência era ainda uma questão animal. É impossível separar o passado do presente – que é futuro. Uma das funções da História é a aprendizagem empírica e ainda mais a teórica. Vejamos: de um lado, o escravo, treinado em combate, alimentado vigorosamente e vendido para lutar e, eventualmente, morrer. Do outro, o Imperador, de braço estendido, um pouco à imagem de, por exemplo, um presidente espanhol a decidir a sina de um ser vivo em dias de tourada. Em ambos, uma grandiosa arena e um público em aplauso.

Hoje, trocam-se as feras pelo cavalo, troca-se de milénio, e a roda selvagem da existência humana substitui os seus atores: existiu ali um momento de vergonha, com muitos ecos de rebeldia, afirmando ser a vida um direito universal, afirmando ser a liberdade individual uma prova máxima de Humanidade. E, contudo, não se deixou de matar. No espetáculo da tortura pública, do “pão e circo”, apenas se retirou o homem derrotado – o vencedor (o homem) ainda é figura presente nessa celebração de sangue. Hoje, já não há dois escravos em confronto. Há apenas um – o homem desceu das bancadas e é agora o representante da vitória.

Vale lembrar: o rosto da evolução tem marcas de nascença. Sempre foi inerente ao ser humano ver-se como superior perante o que o rodeia (a ignorância foi aliada da nossa História – agora, sabemos ser uma bactéria num universo sem limite. Seria de pensar que a assunção da nossa pequenez nos tornasse mais humanos e menos deuses, não foi para isso que os criaram, para contrastar com a nossa falta de conhecimento?). Foi natural, para um povo ainda habituado à superioridade, à sua existência enquanto ser maior entre todos os outros, entrar, de armas em punho e armas que são somente mãos, na arena. No fundo, ao dizer-se que o homem merecia viver e o substituíram por um animal desarmado além-cornos, afirma-se ser o Animal inferior ao Homem, como se afirmava ser o escravo inferior ao povo. Afinal, ele não pensa. Não tem razão. O mais curioso é terem escolhido o touro como oponente. Olharam para os seus chifres e pensaram: “ao menos assim damos a ilusão de adversidade”. No fundo, esses, que pensavam, sabiam que qualquer arma de sobrevivência animal é inferior à maior arma de sobrevivência humana, a Razão.

Somos únicos – nesta Terra, até agora – pela capacidade de pensamento. Por conseguirmos ser muitas vezes lógicos e nem sempre instintivos. Por entender várias perspetivas, incluindo a não-humana. Claro que, como em tudo, esta Razão difere de cérebro para cérebro. Mas é indissociável – torna-nos humanos. E, como humanos, somos animais. A Humanidade é Animal. Com a sorte tremenda do raciocínio. Com a capacidade de discernir a nossa própria natureza, se exercitarmos essa capacidade de pensar. Os tempos de superioridade deveriam estar por um fio, mas ainda participamos numa sucessão sociológica incapaz de, agora, dar vazio a tanta exploração.

Um cachorro tem a inteligência aproximada de uma criança de dois anos. Mas seria bárbaro colocar o cão frente-a-frente com o homem e o seu espeto. Como seria bárbaro assassinar outro homem perante o delírio da multidão. Como é bárbaro o duelo entre um touro, indefeso de lógica, contra um homem e uma mulher, igualmente sem lógica e com ainda menos respeito pela vida, principalmente quando dele se faz uma prova de superioridade e humilhação financiada, como na antiga Roma, pelo próprio Estado, um duelo desequilibrado entre um – ainda – escravo e o seu substituto, o homem e a mulher que sabem o futuro: sair dali vitoriosos.

De nada adianta limpar as lágrimas ao touro, num gesto vão de sentido, fruído, imbuído de hipocrisia. Se ele chora, é porque sofre. Se ele sofre, é para centenas de pessoas, mesmo que não o entendam, se sentirem superiores na sua própria existência. A selvajaria é uma mancha na face da Humanidade. Convém recorda-la para evitar o erro do passado. Urge romper com a própria pele e usar cada vez mais a Razão.