Há umas semanas um amigo voltou-se para mim e perguntou com olhos cândidos e esperançosos: «E eu não podia mudar de nacionalidade??». Isto deu-se antes das últimas eleições legislativas portuguesas, pelo que o seu desconsolo com o país nada tinha que ver com os resultados eleitorais, que já antecipava. Olhava-me sério. «Não posso ser… sei lá… talvez espanhol??». E prosseguiu dizendo que queria um país, sem guerras, sem confusão, sem esqueletos no armário da História, um país que amasse a cultura…».
Sustive um ataque de riso a custo. Lembrara-me de súbito de uma tira da Mafalda, a deliciosa heroína de banda desenhada criada por Quino. Mafalda, menina sempre preocupada com o estado do mundo, olha para um globo e pergunta-se porque é que ninguém fala na Noruega. «As pessoas falam de países onde há bombas, greves, ataques, rebeliões, crimes, racismo, revoluções… mas da Noruega nada». E conclui limpidamente «Pelos vistos a violência tem mais prestígio do que o bacalhau.» Olhei para o meu amigo. Tinha cara de bacalhau infeliz. Sugeri-lhe que casasse com uma norueguesa.
Fiquei a matutar nos meus dois passaportes, português e luxemburguês e apeteceu-me comer gromperenkichelchen, aqueles bolinhos de batata que se comem com puré de maçã ou sem ele. Não há festa nem feira por todo o Grão-Ducado onde não estejam presentes, como as salsichas, a cerveja e a taça de shampes. Vendidos por três, equivalem a um prato de bacalhau com grão. «Gromperenkichelchen e posta de bacalhau não será decerto mau…», pensei.
Para além desta espantosa associação culinária, o que poderia Portugal aprender com o Luxemburgo, copiar do Luxemburgo ou até importar do Luxemburgo, quaisquer que fossem as taxas aplicadas, que nos pudesse servir imediatamente neste período complicado da vida da nação? Pensei em três coisas, tantas quantos os ingredientes principais dos gromperekichelchen – cebolas, ovos e batatas.
O hino
É como as cebolas. O hino nacional pode levar-nos às lágrimas, por exemplo em jogos da seleção nacional de futebol. Tal não acontece com os luxemburgueses, que nunca atingem esse estádio das competições. Mas há diferenças substanciais entre os dois hinos. O hino luxemburguês é simples e doce. Fala do apego à terra, dos rios que se espraiam e do vinho que cresce nas suas margens. Se pede ao Altíssimo que continue a fazer brilhar o sol da liberdade sobre o país e o afaste da opressão estrangeira, não se trata, ao contrário do hino português, de uma verdadeira canção guerreira. Não há heróis, como no hino português, nem grandes valentias, nem vitórias sobre a terra ou sobre o mar, nem egrégios avós, nem canhões (foram substituídos por drones…) contra os quais marchar, marchar, para levantar o esplendor murcho. Que o hino luxemburguês nos inspire para a revisão do nosso: substitua-se o Alzette e o Mosel pelo Douro e pelo Tejo, os canhões pelo vinho e o esplendor pelo sol da liberdade! Fica bonito.
A festa
É como os ovos, serve para ligar o que precisa de ser ligado. O feriado nacional luxemburguês – festeja-se o aniversário do Grão-Duque – celebra-se a 22 e 23 de junho, sendo o dia 23 dedicado às cerimónias oficiais. Há algumas diferenças entre os dois feriados nacionais. A primeira é o próprio nome: o feriado nacional do Luxemburgo chama-se «festa nacional» e nem precisa de maiúsculas. O feriado nacional português, 10 de junho, chama-se «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas» -. É pesado e sério – uma chatice a que falta o ar de festa. No Luxemburgo, os festejos são variados: o cortejo com archotes, onde as associações nacionais e locais desfilam perante os soberanos, uma bela vitrina da diversidade da sociedade luxemburguesa; o sempre espetacular fogo de artifício; os inúmeros concertos espalhados pela capital; o folclore de todo o lado, com os ranchos portugueses a brilhar… Importemos pois o espírito da festa nacional luxemburguesa e façamos do 10 de junho a «Festa de Portugal», a festa de todos: dos portugueses em Portugal, dos portugueses cá fora e dos estrangeiros aí dentro.
Os consensos
É como a batata, sem ela nada feito. Quando me tornei conselheira comunal no Luxemburgo-Cidade tive dificuldade em compreender o comportamento das pessoas e a sua forma de fazer política. Era diferente daquilo que conhecera até à data. Respeita-se a forma, as pessoas são bem educadas e não se interrompem umas às outras, – nem em debates televisivos pré-eleitorais – e os excessos de linguagem são mal vistos. Após um discurso mais inflamado ou de uma troca de galhardetes mais picante, os responsáveis dos grupos políticos em causa levantam-se e vão falar-se para dissipar mal-entendidos e apaziguar as águas. Quantas vezes me surpreendi – e indignei – com a decisão de nos abstermos em vez de votar contra determinadas propostas quando era isso o que queríamos. Vim a perceber que a abstenção servia por vezes para não ferir susceptibilidades, marcar o apreço pelo esforço dos serviços municipais na elaboração de determinadas propostas ou reconhecer o trabalho de um vereador de um grupo político com ideias distintas das nossas. É melhor haver uma proposta má – pode ser melhorada – do que não haver proposta nenhuma – não poderíamos trabalhar. Assim pensavam. Uma hipocrisia? Uma pasmaceira?
Não será só isso. Talvez seja antes uma sabedoria adquirida ao longo de muitos anos, o fruto de uma prática tornada forma de estar. Encravado entre gigantes, o território que é hoje o Grão-Ducado foi no passado dominado por todas as potências europeias ao sabor dos sobressaltos da História: espanhóis, holandeses, austríacos, franceses, alemães, todos por aqui passaram. Os luxemburgueses tiveram de aprender a relacionar-se com quem viesse. E o país é uma horta, como se costuma dizer. A paz com os vizinhos é um bem precioso. O Luxemburgo foi pobre antes de ser tornar o país com o nível de vida mais elevado da União Europeia. Foi um país de emigração antes de se tornar um país cuja população residente é composta maioritariamente por estrangeiros – que são a chave do sucesso económico do país.
Nestas circunstâncias, não é de espantar este gosto pela cordialidade, pela contenção, pela medida. Não é de espantar a preocupação em proteger as relações com os outros, em salvar as aparências – as nossas e as deles -, e em procurar manter sempre uma porta aberta ao diálogo e à criação de consensos, que são ampla e ativamente procurados. Nem sempre são alcançados, mas, pelo menos, tenta-se, num país que não tem nenhuma tradição de maiorias absolutas. Tudo isto poderíamos importar do Luxemburgo, país pequeno e sem heróis, para distribuição a rodos na futura Assembleia da República.
Quanto aos outros ingredientes dos gromperekichelchen – duas colheres de farinha para engrossar, óleo de girassol para fritar, sal, pimenta, noz moscada e salsa picada a gosto para apaladar, esses, não precisamos de os importar. O pequenino, o acessório, o colorido, temos de sobra. Quanto ao nosso bacalhau, que continue a vir da Terra Nova ou da Noruega, mesmo que os bacalhoeiros possam ser tripulados por filipinos.
Eduarda Macedo
