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Autoridades malacas querem apagar parte da história portuguesa

Lusodescendentes em Malaca, antiga colónia portuguesa na Malásia, criticaram a possível alteração do nome de uma colina que alberga ruínas de uma muralha e igreja construídas pelos portugueses e ainda a estátua de São Francisco Xavier.

“As autoridades devem pensar seriamente sobre a ideia de se alterar o nome da Colina de São Paulo para Bukit Melaka”, disse à Lusa o representante da minoria luso-malaia perante o estado de Malaca, Joseph Santa Maria.

Joseph Santa Maria foi um dos lusodescendentes, a maioria a residir no bairro português em Malaca, onde vivem cerca de mil a dois mil descendentes de portugueses em mais de 110 casas, que se juntaram nas redes sociais para criticar as pretensões do diretor geral da Corporação dos Museus de Malaca.

“Gosto do que temos hoje, da diversidade na cultura. Unidade na diversidade”, afirmou à Lusa o ex-conselheiro da cidade Ronald Gan.

Os dois lembram que Malaca foi em 2007 considerada Património Mundial da UNESCO precisamente devido à sua história e singularidade.

Em resposta à Lusa, o diretor geral da Corporação dos Museus de Malaca, Mohd Nasruddin bin Rahman, confirmou que a mudança deverá avançar: “Estamos em vias de obter a permissão do Estado para alterar o nome”.

O responsável pelos museus de Malaca justificou esta pretensão com o facto de, segundo o próprio, Bukit Melaka ser o nome da colina antes da época colonial, “desde a era do Sultanato de Melaka”, por volta do século XIV, dissolvido em 1511 quando Afonso de Albuquerque, o 2.º Governador da Índia Portuguesa, desembarcou ali, demoliu a Grande Mesquita e levantou no local uma fortaleza.

A relação de Portugal com Malaca remonta a 1509, quando Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou àquela localidade malaia para estabelecer relações com o soberano local.

Após a chegada dos portugueses a Malaca, a colina foi batizada Nossa Senhora do Oiteiro e no cimo foi construída uma igreja com o mesmo nome, pelo capitão e fidalgo português Duarte Coelho, em agradecimento à Virgem Maria por lhe ter salvo a vida durante uma tempestade no mar.

Em 1590, uma torre de campanários foi acrescentada à frente da igreja, rebatizada Igreja de Madre de Deus.

“Nessa colina histórica está também o túmulo de São Francisco Xavier, que foi enterrado na colina e mais tarde exumado e enviado para Goa, na Índia”, recordou Joseph Santa Maria, sublinhando que o missionário católico visitou Malaca seis vezes e pregou várias vezes na colina.

Uma estátua em mármore de São Francisco Xavier, construída em 1953, encontra-se no cimo da colina, e foi erguida em homenagem ao missionário mais conhecido da Malásia. Contam as lendas que quando o português ia ser canonizado em 1614, o Vaticano exigiu o braço direito, o mesmo braço que São Francisco Xavier utilizava para abençoar os convertidos.

A estátua, sem o braço direito, encontra-se ainda hoje no topo da colina, assim como ruínas de arquitetura portuguesa, holandesa e inglesa.

Depois de cerca de 100 anos de domínio português, a cidade foi tomada pelos holandeses, em 1941. O complexo ficou parcialmente destruído, tendo sido mais tarde reparado e renomeado Igreja de São Paulo, designação que permanece até aos dias de hoje, assim como a colina, com igual denominação mesmo durante a administração inglesa, até 1957, data da independência da Malásia.

De acordo com vários historiadores, defendeu Joseph Santa Maria, a Colina de São Paulo era referida como “Monte dos Animais ou Monte Delimaria”.

“O diretor do Museu de Malaca deve fazer mais investigação e justificar as suas afirmações de que a Colina de São Paulo era originalmente conhecida como Bukit Melaka, sem se tornar [em motivo] de riso para historiadores e para o mundo, incluindo a UNESCO”, afirmou o luso-malaio.

“Espero que tenhamos historiadores qualificados para realizar o estudo necessário”, acrescentou.

Nas declarações à Lusa, o diretor geral da Corporação dos Museus de Malaca assegurou que o que está em causa não é apagar a História de Malaca, mas sim repor a designação original.

“O seu local histórico será preservado como habitualmente pela agência responsável”, prometeu.