Autores da diáspora apontam carência de apoios e visibilidade
Os desafios e oportunidades de escrever e publicar em português fora de Portugal estiveram no centro do segundo painel da oitava edição da conferência PORTUGAL+, promovida pelo jornal BOM DIA e realizada a 11 de outubro, na Sala José Ensch da Abadia de Neumünster, no Luxemburgo.
Sob o tema “Escrever e Publicar em Português Cá Fora”, o debate contou com a participação de Manuel da Silva Ramos (escritor), São Gonçalves (autora), Isabel Pascoal (representante da Livraria Pessoa), Teresa Dangerfield (escritora), Paulo Pisco (diretor do Departamento de Comunidades Portuguesas do PS) e Elisabete Rodrigues (chanceler no Consulado-Geral de Portugal no Luxemburgo e escritora). A moderação esteve a cargo de Fabiana Bravo (BOM DIA).
Entre as questões colocadas aos participantes estiveram temas como o impacto da distância geográfica na relação com a língua e a cultura portuguesas. Discutiram-se ainda as dificuldades de publicar fora de Portugal, o papel do poder político na promoção da literatura da diáspora e a existência (ou falta) de redes de apoio entre autores portugueses no estrangeiro.

A autora São Gonçalves abriu a discussão sublinhando que um dos maiores desafios de escrever fora de Portugal é “não ceder à tentação de escrever noutra língua, de manter sempre esta fidelidade à nossa língua e identidade portuguesa”. “Quando vivemos muito tempo fora, podemos correr o risco de esquecer palavras, vocabulário, formas gramaticais. (…) O maior desafio é manter a qualidade da escrita em português”, afirmou.
Para Teresa Dangerfield, que já foi professora de português no estrangeiro em Inglaterra (onde vive atualmente) e escreve literatura infantil, a distância traz desafios próprios: “Escrevo como se fosse para crianças que estão em Portugal e, depois, apresentar esses livros onde eu estou é que tem sido mais difícil”. Para facilitar, Teresa tem adaptado, simplificado e elaborado materiais que pretendem facilitar a compreensão das suas histórias, sem perder o encanto das palavras e pensando nas crianças que não dominam totalmente a língua.

O escritor Manuel da Silva Ramos trouxe ao debate uma visão mais política, criticando o desinvestimento do Estado português na cultura e na educação. “Isto é uma questão política. Basta ir a Portugal e ver o que se passa na educação. (…) Os políticos não querem, evidentemente, dar cultura às pessoas. Isso é problemático. Não lhes interessa que as pessoas sejam cultas. (…) O país está num estado lastimável, a educação está num estado lastimável”, referiu.
“Os espanhóis têm o Instituto Cervantes, que não é o Instituto Camões. O nosso Instituto Camões não faz nada”, acrescentou o escritor.
“Por exemplo, com o que o Estado perde em tribunais arbitrais, já tínhamos feito em Portugal dois ou três hospitais e já tínhamos dado às comunidades dinheiro para terem professores à altura”, referiu.

Manuel da Silva Ramos propôs ainda a criação de uma editora sediada no estrangeiro que possa apoiar autores da diáspora, ajudando-os a publicar e a chegar a novos públicos. O escritor defende que o Estado português deveria atribuir bolsas aos artistas da diáspora.
Já Paulo Pisco afirmou que procurou sempre dar destaque aos autores da diáspora, reconhecendo as sérias dificuldades que enfrentam. Concordou também com a necessidade de criar uma estrutura permanente de apoio cultural. Relembrou encontros de escritores da diáspora que realizou no passado, em Odivelas, no âmbito do festival das culturas lusófonas.
“Não há propriamente um apoio para a cultura na diáspora dirigida aos portugueses e lusodescendentes. Há as atividades do Instituto Camões, que são relativamente elitistas. Elas são importantes, dão a conhecer um outro Portugal que muitas vezes nas comunidades não se conhece, mas eu sempre critiquei o facto de não se dar mais voz aos criadores da diáspora e continuo a achar o mesmo. Acho que o Instituto Camões podia ter um papel muito mais ativo na promoção desses valores”, defendeu.

“Quem escreve nas comunidades está numa espécie de limbo, porque, sendo portugueses, são estrangeiros nos países onde vivem, mas longe de Portugal não têm a projeção que merecem”, acrescentou. O diretor do Departamento de Comunidades Portuguesas do PS defendeu a criação de mais iniciativas dedicadas aos autores da diáspora.

“Em termos de conteúdo, há uma enorme riqueza em relação à descoberta de uma identidade, à divisão de identidades ou à necessidade de regressar às origens. E isto é um material literário de enorme sensibilidade e riqueza”, concluiu.

A representante da Livraria Pessoa, Isabel Pascoal, reconheceu que, apesar das dificuldades em atrair público, há um interesse crescente pela leitura em português no Luxemburgo: “Não é só o mercado da saudade. Há portugueses no Luxemburgo a ler e a comprar livros em português”. Isabel considera que o Camões tem feito um esforço, referindo que a associação que representa participa em feiras, organiza clubes de leitura e promove autores de Portugal e da diáspora. “Levamos os livros portugueses e lusófonos até ao público real. (…) Temos um grupo bastante fiel de pessoas que nos seguem e participam nos nossos eventos”, esclareceu.
Elisabete Rodrigues, chanceler no consulado de Portugal no Luxemburgo e escritora, destacou que escrever continua a ser uma atividade solitária, mas acredita que a colaboração entre autores é essencial e deveria ser maior. “Lançar um livro para o público é um pouco largar um pedaço de nós”, explicou. “Devia haver talvez mais associações, colaborações, eventos em que nos pudéssemos juntar – mas isso não é só na diáspora”.

Sobre o mesmo tópico, São Gonçalves reforçou que essa rede de apoio entre autores da diáspora não deve limitar-se a cada comunidade isolada: “divulgar autores portugueses não pode ser só dentro da comunidade local”. Para a autora, as antologias e os projetos conjuntos são formas importantes de dar visibilidade aos autores que escrevem em língua portuguesa. “De facto, devia haver mais interação e solidariedade entre os autores”, realçou.
O debate terminou com a seguinte questão: se tivessem de dar um conselho a quem quer começar a escrever e publicar em português fora de Portugal, qual seria?
Elisabete Rodrigues acredita que “se a pessoa gosta de escrever e isso é uma paixão, é sempre um caminho que vale a pena percorrer, independentemente de publicar ou não”. A escritora considera que se trata de “perseguir os sonhos”, procurando, por exemplo, diferentes formas de apoio e ajuda de outros escritores e autores.


Teresa Dangerfield concorda e acrescenta que é fundamental “insistir, persistir e nunca desistir”.
São Gonçalves concluiu com um conselho dirigido aos novos autores, sublinhando a importância de “ler, ler muito, ler sempre, escrever” e “não esperar que o sucesso esteja à porta, porque pode demorar”.
Veja, em baixo, o vídeo com todas as intervenções do painel.