Atelier Sagrado: O projeto luso-francês que reinventou a arte têxtil
O Atelier Sagrado, projeto artístico que une Portugal e França, é uma das iniciativas mais singulares da arte têxtil contemporânea. Baseado em técnicas artesanais, sustentabilidade e uma profunda ligação ao património cultural português, o atelier apresenta peças únicas que misturam cor, simbolismo e matérias naturais. Para compreender a essência deste projeto, o BOM DIA entrevistou David Oliveira, lusodescendente de 46 anos, nascido em França e com origens em Ourém, que fundou o atelier ao lado do companheiro e parceiro criativo, Laurent Malbete, francês de 54 anos.
Antes de regressar a Portugal, David viveu um percurso que muitos considerariam improvável. Trabalhou vários anos na Louis Vuitton como merchandising manager e sempre viu a moda como “uma forma de ciência social: capta um instante preciso, reflete um desejo coletivo, um estado de espírito”.
Mas, apesar de uma carreira marcada por experiências globais, David nunca se desligou das origens. “No meio de todas essas experiências, que o filho de emigrantes que sou nunca imaginaria viver, nunca esqueci as minhas raízes, essa terra que sempre ecoou dentro de mim”, diz-nos. E o amor de Laurent pelo país tornou o regresso inevitável. “Queríamos trabalhar de outra maneira, num outro ritmo, num ambiente onde a luz, essa luz única de Portugal, abre novas perspectivas. O céu aqui é amplo, elevado, quase espiritual.”, explica.
Para David, viver agora o quotidiano português foi transformador: permitiu-lhe desfazer a “fotografia suspensa no tempo” que os pais emigrantes carregavam consigo: “Percebi que Portugal evoluiu. Tornou-se dinâmico, moderno, ambicioso. Há uma nova geração que tem a mesma intensidade que nós colocamos no nosso projeto.”
Já para Laurent, natural de Bourges, “foi descobrir um território onde se sente bem, inspirado, livre.” A sua visão “fresca alimenta a nossa criatividade e, por vezes, admito, invejo essa liberdade”, assume David.
“Sentimo-nos privilegiados por viver esta riqueza multicultural que alimenta a nossa criatividade”, acrescenta.

O nascimento do Atelier Sagrado
Criar com as mãos sempre foi, para David, “uma forma de equilíbrio, quase uma necessidade”. Durante anos, Laurent já participava naturalmente no processo, sem que o apercebessem. A viragem ocorreu há dois anos, durante a primeira exposição de David: “Tornou-se evidente que já não era ‘eu’, mas ‘nós’”.
“Nesse momento, propus-lhe criarmos um atelier juntos”. Assim nasceu o Atelier Sagrado, entre França e Portugal, uma fusão entre o olhar estético de David, moldado pela moda, e a sensibilidade humana de Laurent, vindo da área da saúde. “Somos um casal na vida e um casal criativo. (…) Cada um traz a sua cultura, o seu olhar, a sua sensibilidade.”, esclarece.
A inspiração central? “A própria vida: a cor, a emoção, o legado dos motivos, a nobreza das matérias naturais e duráveis”. “Queremos mostrar que a arte e o artesanato podem fazer parte do quotidiano, oferecendo uma alternativa mais consciente num mundo onde tudo é rápido e descartável”, acrescenta.

Portugal como território simbólico e emocional
O país é uma fonte de inspiração e presença natural na obra da dupla. Azulejos, arte popular, Bordallo Pinheiro, fibras tradicionais e paisagens portuguesas inspiram os artistas e surgem transformados em peças carregadas de singularidade.
O folclore e a religiosidade também os inspiram, sobretudo enquanto elementos culturais. Exemplo disso é “The Lady”, uma Nossa Senhora de Fátima com 1,10 m, reinterpretada e “orientada para o feminino sagrado, explorando essa nuance entre espiritualidade institucional e feminilidade ancestral”. Transmitir emoção é sempre o desafio: “Conseguir transmitir emoção através das formas, das cores e da matéria”.

Arte sustentável
Técnicas artesanais, sustentabilidade e qualidade são “o coração” da abordagem de David e Laurent. Num mundo acelerado, o atelier escolhe o contrário: tempo, cuidado e rastreabilidade. A parceria com a Rosários 4, referência na produção de fibras naturais em Portugal, reforçou esta missão. “Recebeu-nos como família”, conta David. As lãs, linhos e algodões da marca integram agora parte das peças, sempre respeitando matérias-primas e técnicas manuais.
David considera que “somos todos únicos” e o artesanato recorda isso mesmo. “Acreditamos que o artesanato deve estar no centro de um futuro mais responsável, onde a mão humana volte a ter o seu lugar no quotidiano.”.
Além disso, o Atelier Sagrado dá nova vida a estruturas antigas, recuperando objetos marcados pelo tempo e transformando-os em arte: “É uma mensagem de responsabilidade e de consciência. Há tantas coisas produzidas pelo ser humano que carregam a marca do tempo. Gostamos de lhes dar um novo fôlego e de expressar o que é único através delas. Encontramos maravilhas em Portugal.”

Feedback e o futuro
As obras do atelier já foram apresentadas em França, Genebra e Portugal. O Hotel República, em Tomar, acolhe atualmente algumas das peças, como “A Wonder Garden” e “The Lady”.
Sobre o feedback do público às criações, o lusodescendente refere que “o importante é que há sempre uma reação. Isso significa que o nosso trabalho não deixa ninguém indiferente e essa é a maior recompensa.”.
Para o futuro, a dupla quer expandir o projeto para novas galerias e exposições, dentro e fora de Portugal, sempre com o objetivo de levar uma visão renovada do país ao mundo.
David e Laurent desejam que o Atelier Sagrado contribua para mostrar um Portugal sensível e contemporâneo, seguindo a tradição de artistas como Vanessa Barragão ou Joana Vasconcelos por quem são “fascinados”. “Esperamos ir além da visão ‘postal’ de Portugal. (…) Queremos expressar essa profundidade: um Portugal vivo, sensível, popular e intelectual. Se o Atelier Sagrado puder contribuir, mesmo que modestamente, para essa valorização, ficaremos profundamente honrados”.
Aos jovens artistas portugueses, David deixa um conselho: “Um artista é alguém que ousa mostrar a sua visão ao mundo. Isso exige coragem e tempo, não se poupem: expressem aquilo que vos faz vibrar, lancem-se sem esperar. A vossa visão pode transformar coisas. A vossa sensibilidade alimenta a dos outros. É um ciclo de vida”.
Texto: Fabiana Bravo