
Acabara de ler, no meu periódico: cinquenta mil aposentados franceses, manifestaram o desejo de virem viver para Portugal, para poderem ter fim de vida mais feliz, quando Silvério – velho amigo de meu pai, – entrou na confeitaria da baixa, onde saboreava o cafezinho.
Curvado, olhos baixos, passos incertos, amparado ao guarda-chuva, de haste de madeira, este intimo amigo de meu pai, após o formalístico: “ boa-tarde”, pediu-me licença para se sentar à minha mesa.
Já não sou jovem, mas Silvério podia ser meu pai. Como fui educado a respeitar os mais idosos, aconcheguei-me para a parede, permitindo assim, que pudesse sentar-se mais à vontade.
Como não havia assunto, e para não escutar habituais lamúrias de achaques da velhice, contei-lhe a noticia que acabara de ler. A resposta foi pronta e enérgica:
– “Estamos transformados no asilo da Europa!…”
Como argumentasse que era bom: porque vêm divisas. Abespinhou-se, e, atirando-me olhos de indignação, acrescentou:
– “Somos o asilo dos velhos da Europa e o hotel e restaurante dos jovens!…”
E continuou:
– “Repara, meu velho: meu pai dizia: No tempo da monarquia era uma vergonha. Veio a República, e até os cidadãos venderam para a Grande Guerra!… Chegou Salazar: deu-nos paz e liberdade de circular pelas ruas, sem ser assaltado, mas… os salários eram magrinhos!… Surgiu a liberdade…
“Pensávamos todos, que acabaria a miséria; mas o que se vê?!”
“Mais miséria!… Salários baixos; e as reformas não sobem!… Só o salário mínimo… – dizem… Em breve todos receberemos o salário mínimo!…
“A Europa despejou milhões! A nação ficou melhor: mais rica; mas o povo?! Ficou na mesma ou ainda pior… Os velhos nem dinheiro têm para se recolherem num lar!… e os novos, se querem vida folgada, têm que ir para fora!…
“Gasta-se fortunas para financiar o ensino. Para quê? Se, obtido o diploma, partem para longe!…”
Como lhe dissesse que dias melhores virão. Que está a melhorar… Repostou de imediato:
– “Isto não tem emenda! Foi, e sempre será, terra que não interessa a ninguém!…
“Diziam que a culpa era da “direita”… Veio a “esquerda”… Recebeste aumento?! Eu recebi míseros euros, que eram parte do que me roubaram há cinco anos!…
“Entretanto tudo subiu: gasolina, electricidade… IMI… – parece que ser proprietário é crime! – Tudo… Tudo sobe!
“Os da esquerda pregam uma coisa, mas chegados ao poder… é o que se vê!… Até ficam mudos!… Bem dizia meu pai: “Querem conhecer o vilão, mete-lhe a vara na mão!…”
Tentei consolar o Silvério:
– “As coisas vão melhor! Estão a melhorar!… Portugal tem futuro!…”
Mal pronunciei “futuro”, replicou de olhos esgazeados:
– “Desde menino que ouço essa treta: Portugal, como o Brasil, são países de futuro; mas nunca do presente!…”
Desisti. Tentei dar outro rumo à conversa. Falei de futebol, da FIFA, dos Jogos Olímpicos, de novelas televisivas…; tudo que anestesia os ânimos exaltados…
E Silvério saiu de cara desanuviada, e até com sorriso de felicidade nos lábios.
Nada há melhor para amainar pessoas nervosas, do que o futebol e o carnaval. É remédio santo: já os imperadores romanos sabiam…
