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Às anti-Pompeias deste burgo

Nota prévia: no concreto nada tenho a criticar ao indivíduo que se encontro no centro desta trama de eventos. O que se passou é tão só a cristalização de algo maior.

 

Corria o ano de 64 a.C. quando a mulher de Júlio César é vitima duma cabala que intentava por em causa a sua honra. Seguro da armadilha e da integridade da Pompeia, César não conseguiu, no entanto, serenar os rumores populares que versavam sobre a infidelidade desta. Não tendo alternativa César divorcia-se da sua esposa dando como justificação e quanto à sua integridade o facto de que “À mulher de César não lhe basta sê-lo, tem de parece-lo”.

Pretendendo não ser Pompeia, fomos recentemente avassalados por toda uma seita de opinion makers que disseram tudo e o seu contrário acerca do caso quente das autárquicas Luxemburguesas.

Não estarei a exagerar se disse que noite de 8 de Outubro o grosso da comunidade portuguesa no Luxemburgo se sentiu elevar com a chegada em primeiro lugar de José Vaz do Rio no escrutínio de Bettendorf. Era o sinal de um passo maior. Ainda que com dupla nacionalidade, esta seria a primeira vez que um português se sentaria aos comandos dum município deste país que nos viu chegar de forma consistente há meio século. Meio século de caminho para o primeiro passo significativo na integração política da comunidade.

Com uma adesão sofrível no que toca ao exercício do direito de voto por parte dos estrangeiros, este podia ser o catalisador que há tanto se esperava. Mostrar que o Luxemburgo não é, para nós portugueses, “o país deles” e que podemos ter parte activa nos desígnios do país.

Mas foi sol de pouca dura. No dia seguinte viríamos a saber que Vaz do Rio não estava interessado em assumir a função que os seus conterrâneos lhe confiaram.

Não fizeram esperar as análises do costume. Estilo Calimero, com a casca de ovo na cabeça, clamavam a plenos pulmões “é uma injustiça”. A culpa? A culpa era do sistema, “deles, aqueles de quem o país é, que, por certo, o haviam pressionado a abandonar.

Há altura, e como todos os outros não conhecendo a totalidade dos factos, fiz tão só um comentário que transcrevo aqui: “50 anos de ditadura fascista cristã fizeram maravilhas pela espinha dorsal dum povo. Ainda noutro dia discutia com alguém, autóctone, que me dizia que há uma razão para os portugueses se darem tão bem no Luxemburgo e para tão bem por aqui serem aceites: aceitam os dois e pacificamente a divisão de classes que existe.”

Como fiz questão de dizer na note prévia, a minha posição neste caso em nada se prende directamente com o Vaz do Rio. Expressões como “é o país deles” escondem precisamente uma condição de classe. Há já algum tempo que defendo que o maior problema dos portugueses no Luxemburgo não é de integração, mas sim de Classe. Sim no sentido Marxista do termo. Que sirvam de exemplo os inúmeros quadros do sector bancário, dos satélites e das instituições europeias. Esses não têm problemas de integração. Os que têm são aqueles que pertencem às classes económicas mais desprovidas.

Aquilo que Vaz do Rio demonstra ao recusar assumir a responsabilidade a que se candidatou e para a qual foi eleito é demonstração desse conforto de estar na classe inferior. Podemos aceitar que ele candidata, como o diz, aliás, sem a menor intenção de ganhar a eleição. Assim sendo só reforço ainda mais esta minha opinião.

Como canta o Sérgio Godinho:

«Vi-te a trabalhar o dia inteiro

construir as cidades prós outros

carregar pedras, desperdiçar

muita força pra pouco dinheiro

(…)

que força é essa

que trazes nos braços

que só te serve para obedecer»

Viemos para construir as cidades para os outros, “eles”, aqueles de quem é o país, e não queremos mais força que esse que “só [nos] serve para obedecer”.

Após o primeiro momento de “choque” soubemos que Vaz do Rio tinha recusado as funções que lhe foram confiadas por vontade própria. Os “arautos da democracia” não se fizeram esperar e vieram falar em pressões. Tivemos agora, numa entrevista, o relato de como tudo se passou. Calaram-se as vozes. Pois se querem manter a tese conspirativa só lhes resta chamar mentiroso a agora primeiro vereador da comuna de Bettendorf.

Mas a questão de fundo, a que interessa, é o porquê desta falta de vontade de participação, o porquê desta submissão com uma vontade irrisória de participação democrática. Como o disse no meu comentário, 50 anos de ditadura fascista-cristão fizeram-me milagres pela espinha dorsal de um povo. Aprendemos a andar curvados, a servir e não questionar, a fazer vénias aos Sr. Doutor. Somo uma verdadeira sociedade por castas.

Se em Portugal essa condição se foi dissipando, aqui, no seio da nossa comunidade no Luxemburgo, é algo que perdura.

Acima refiro os “arautos da democracia”. Aqueles que apregoam aos 4 ventos que são “eles”, aqueles de quem é o país, que não nos deixam participar, que não querem que os portugueses participem, são os primeiros a incorrer nos maiores atentados contra a democracia.

Entre as organizações da representação da comunidade, o movimento associativo de cúpula e os eleitos aos órgãos portugueses, temos de tudo: presidentes eternos, presidentes na sombra, actos eleitorais sabotados pelas próprias direcções, representantes em parte incerta… enfim, um rol de situações sem termino. Mas vamos mais longe, o que dizem sobre tudo isto as representações locais dos partidos políticos portugueses? Nada. Absolutamente nada. Estando ao corrente, clamando a democracia a pelos pulmões, ou gritando pela falta dela, remetem-se ao silêncio no que toca aos atropelos cometidos pelos nossos próprios compatriotas contra nós mesmos.

Muitos nobres e castos no parecer, são os primeiros a violar os princípios que dizem defender. Caso para dizer: aos representantes comunidade portuguesa não é preciso sê-lo, basta parece-lo.

Temos uma sociedade de castas em que uns, para se fazerem vistos, não têm pudor algum em se pôr sobre os outros. Mas depois são os primeiros a gritar “conspiração” quando o povo que, tal qual cacique ou capataz, tão bem educado vão mantendo se remete à sua condição de servente.

 

 

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