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Aprender português com Eça

Não sou filólogo nem purista, nem sequer escritor. Limito-me a ser modesto cronista, e deixo fugir – para minha vergonha, – calinadas que muito me desgostam.

Consolo-me, porém, ao reconhecer que muita boa gente – de elevado grau académico – incorre, também, em crassos erros de palmatória.

Vem o preâmbulo a propósito de escritores consagrados, reconhecidos pela crítica, como excelentes prosadores, que apresentam, involuntariamente, em romances e ensaios, graves erros gramaticais.

Escritores, soberbos estilistas, como foi o extraordinário Eça de Queiroz, pecaram e pecam por enxamearem as obras de: galicismos, anglicanismos e neologismo, inconcebíveis.

Acabo de folhear “Falar e Escrever”, vol. II, de Cândido de Figueiredo, e deparo com a pergunta formulada por menina (senhora?) do Rio de Janeiro, dizendo que Eça escreveu nos “Maias” a frase: “gochemente dissimulado na sombra” e interroga sua opinião.

O conhecido filólogo, comenta: “Se fosse apenas neologismo! Mas é um galicismo descarado e absolutamente inadmissível. Como advérbio de modo pressupõe o adjetivo goche, que nós não temos, não precisamos nem teremos, enquanto nos ufanarmos de falar português. “Não há ninguém que não admire o formoso talento do autor de “Os Maias”, e a imaginação, mas, realmente, se Lulu quer estudar a língua portuguesa nos livros de Eça de Queirós dou-lhe os meus sentimentos, porque nunca saberá”.

O bom português encontra-se em escritores como Camilo e Castilho, e em numerosos e respeitados prosadores brasileiros e portugueses.

Acerca de Camilo, Vasco Botelho do Amaral no “Glossário Critico de Dificuldades da Língua Portuguesa” diz: “A linguagem de Camilo é riquíssima de valores expressivos (…) Em todas as páginas revela o Mestre o diligente estudo a que se consagrou, auscultando os dizeres das bocas populares e investigando nos clássicos, documentos ignorados, mas de inestimáveis riquezas idiomáticas. Junte-se a isso o extraordinário génio verbal e estilístico do escritor, e como resultado nos apresentará a admirável vernaculidade da língua de Camilo”.

O português do Brasil, apesar de tentativas infrutíferas de “criarem” uma língua, e haver sofrido influência do tupi, quibundo e dialetos africanos, além de vocábulos de línguas europeias, continua, com alguns baldões, a ser respeitada pelos consagrados prosadores do Brasil.

Porém, bom seria – penso eu, – que neologismos importados, só fossem introduzidos, após escutarem os países de língua portuguesa.

É o caso, entre outros, dos telefones móveis: celular num, telemóvel noutro, se pretendemos, que os da Comunidade da Língua Portuguesa, se entendem entre si.

 

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