Ansião e Ourém distribuem ajuda do Luxemburgo por quem mais precisa
Os municípios de Ansião, em Leiria, e Ourém, em Santarém, receberam no princípio desta semana perto de três dezenas de toneladas de materiais de construção vindos do Luxemburgo, para distribuírem pelas vítimas das tempestades Kristin, Leonardo e Marta, que deixaram um rasto de destruição na zona Centro do país.

O repto foi lançado pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Luxemburguesa (CCILL) e pelo Grupo Sopinor aos empresários e à sociedade civil do grão-ducado, que depressa reuniram mais de 100 toneladas de materiais de construção, produtos de higiene, ferramentas e equipamentos de proteção individual.
Assim que o primeiro camião foi carregado, os responsáveis pela iniciativa, Orlando Pinto (fundador do Grupo Sopinor) e Francis da Silva (CCILL), não tiveram dúvidas: Muitos outros iam repetir a viagem, de cerca de 2.000 quilómetros, tão brevemente quanto possível.
Depois de uma primeira remessa ter sido entregue diretamente a Matas (freguesia do concelho de Ourém) e à Marinha Grande (concelho do distrito de Leiria), a segunda foi enviada para os estaleiros das câmaras municipais de Ansião e Ourém.
Desta vez, foram entregues 27 toneladas de materiais isolantes, telhas, cimento, geradores, tintas, blocos de construção, ferramentas, chapas, lonas, vestuário de proteção para os bombeiros e até mobiliário suficiente para equipar um quarto completo.

Depois de vários dias na estrada, o semi-reboque da empresa de transportes Cardoso & Irmão (que também se associou a esta causa) parqueou no estaleiro municipal de Ansião, onde já o aguardavam Orlando Pinto, o seu encarregado Filipe Martins e o secretário de apoio à vereação da edilidade local, Rúben Margarido.

Naquele estaleiro, também severamente afetado pelo comboio de tempestades, ficou não só o material necessário, como, acima de tudo, a promessa de Orlando Pinto fazer deslocar uma equipa da Sopinor, a título gratuito, para, durante uma semana, apoiar a reparação da habitação de uma idosa da freguesia de Pousaflores.

A comitiva, que o BOM DIA acompanhou, tomou depois rumo em direção a um dos centros de recolha de Ourém. A ela juntou-se pouco depois Rui Vital, vice-presidente daquele município e vereador com o pelouro da Proteção Civil.
O autarca descreveu à nossa equipa a madrugada de 28 de janeiro como “uma autêntica calamidade”, tanto pela quebra imediata dos serviços de telecomunicações e vias cortadas, como pelo facto de ter visto todos os seus 34 edifícios escolares danificados e 16 lares sem eletricidade para garantirem as mínimas condições aos utentes em estado mais debilitado. “Estavam desesperados”, recordou.

“Acreditamos que o nosso concelho foi o mais afetado pela tempestade Kristin”
Durante uma rápida visita da comitiva do grão-ducado às instalações da Proteção Civil de Ourém, o coordenador municipal, Miguel Freire, contabilizou “entre nove e dez mil edifícios de primeira habitação atingidos”, e “uma centena de pessoas desalojadas”. “Acreditamos que o nosso concelho foi o mais afetado pela tempestade Kristin”, reforçou o vice-presidente, Rui Vital.

De volta ao estaleiro, o vaivém constante de empilhadores e funcionários em torno do pesado nunca fez cessar as restantes operações deste local, que desde o início da crise está a servir como depósito e centro de recolha de materiais de construção.

Durante aquela tarde, vários munícipes acercaram-se do local, a maior parte com telhas partidas na mão, para solicitar algumas unidades para recomporem os seus telhados.
Foi o caso de Joaquim e Fernanda Marques, casal emigrado há 50 anos em Auxerre, França, e com raízes em Lameirinha, freguesia de Seiça. Assim que soube “pelas notícias” da catástrofe que ocorrera, viajou para Portugal.
A residência onde costumam passar “largas temporadas” sofreu “bastante”: “Temos um quarto todo estragado por causa da chuva, parte do chão da casa, vários buracos no telhado e uma arrecadação danificada”, disseram ao BOM DIA.
As últimas semanas têm sido passadas a tentar salvar tudo aquilo que conseguem, mas a grande dor de cabeça está a ser, a par de muitas outras pessoas, a reparação do telhado.
Joaquim saiu do carro de matrícula francesa e foi de pronto ao porta-bagagens buscar um exemplar de uma telha. Diz que não encontra igual “em lado nenhum” e que “a sua forma é tão específica que não ‘casa’ com outras”.

Saiu do centro de recolha com o mesmo pedaço com que entrou, mas com a informação de que em Ourém existiam dois revendedores daquela marca em concreto. Ia dirigir-se naquele mesmo dia a ambos, para tentar a sua sorte.

Uma vez completa esta segunda entrega, Orlando Pinto garantiu ao BOM DIA que mais duas se seguirão “nas próximas semanas”. Neste momento, está em contacto com outros municípios afetados para articular a chegada do material doado que ainda tem armazenado numa das suas empresas, em Schifflange.

Como ajudar?
O apelo da CCILL e da Sopinor foi maioritariamente dirigido a empresas e empresários do grão-ducado, mas estende-se a toda a comunidade, pelo que o interesse em fazer chegar ajuda a Portugal deve ser comunicado à referida câmara de comércio através do e-mail , ou da entrega de bens materiais no centro de logística criado no estaleiro da Sopinor em Schiflange (Sopinor, 70, Zone Industrielle um Monkeler 4149).

Luís Vieira Cruz | texto e fotos