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Anie Welter: os caminhos desafiadores do teatro de bonecos

Atriz, diretora teatral e dramaturga, Anie Welter começou a fazer teatro ainda como estudante do ensino médio. Logo em seguida, passou a integrar o Grupo XPTO e, em 2004, fundou a Cia Noz de Teatro, Dança e Animação com a proposta de unir as linguagens de teatro, dança, animação de objetos, música e artes plásticas, além de investigar novos materiais na confecção de bonecos, adereços e cenários. Dentre os vários prêmios que recebeu, está o APCA de 2013, pelo espetáculo Pop, considerado a melhor animação daquele ano.

Quando a descoberta do teatro?

A arte em minha vida foi despertada de uma forma muito interessante. Pequena, eu assistia ao programa do Chacrinha e quando via as moças dançando, as chacretes, dizia para minha mãe: é isso que eu quero fazer! Meu pai ficava horrorizado. Mesmo assim, quando eu tinha onze anos, comecei a fazer um curso de balé. Comecei dançando e, no primeiro ano do ensino médio, passei a fazer teatro, na escola pública em que estudava. Entre as disciplinas da escola, não havia um curso de teatro. Fazíamos as aulas, porque amávamos e quem levou aquela atividade até  nós foi um chileno, recém-chegado ao Brasil, que adorava teatro. Eu nunca tinha visto uma apresentação de teatro ao vivo e ele nos ensinou muitas coisas. Aos poucos, fui participando de cursos e oficinas de teatro e dança,  gratuitos, até que fui convidada para entrar em um grupo que direcionou a minha vida para um caminho muito especial e profissional, o Grupo XPTO.

O que a moveu para formar a Cia Noz de Teatro, Dança e Animação? Qual a razão de trabalhar o universo infantil?

Quando resolvi reunir minhas ideias para a criação de um espetáculo, que envolvia a pesquisa que comecei no Grupo XPTO, através da intersecção das linguagens, sem barreiras, assim como a observação do meu primeiro filho, ainda bebê, descobrindo o seu mundo, sua paixão pela bola e a conclusão de que o homem tem fascinação pelo redondo, surgiu o espetáculo Oras Bolas.  Foi um ano de pesquisas e coragem. Com o Oras Bolas nasceu a Cia Noz de Teatro, Dança e Animação. As crianças se comunicam utilizando diferentes linguagens,  desvendam o mundo e trazem as ideias mais originais e contemporâneas que existem. O ser humano mais contemporâneo que existe é a criança.  Focar as criações nas crianças abre espaço, no meu modo de ver, à liberdade, ao mais profundo e sincero que há em nós. Bom, mas isso não significa que nunca faremos um espetáculo para o público adulto. É que, talvez, ainda não cansamos de observar o universo tão mágico e original que é o infantil. Para nos comunicarmos com as crianças e principalmente com a nossa criança interior, é necessário estarmos 100 % disponíveis, despojados, com o olhar aberto para o novo. Eu falo muito isso, quando dou aulas sobre o olhar do bebê. Para ele, tudo é novidade. Eu encontro a minha criança e brinco durante o processo criativo. O que me interessa são os caminhos desconhecidos e desafiadores que esse olhar me traz.

Criar exige pesquisa, disciplina, paciência e objetivo. Dos espetáculos criados pela Noz, quais lhe trouxeram mais desafios e prazer?

É difícil de responder qual espetáculo foi mais difícil realizar, porque em todos eles encontrei muitos desafios e muitos prazeres. As atividades de pesquisa abarcam a investigação de objetos, bonecos, cenários e adereços, dentro de um ateliê artístico, onde os profissionais vivenciam, criam e constroem, de forma artesanal. A maioria dos espetáculos tem como ponto de partida ideias relacionadas ao material cênico. O resultado é levado para a sala de ensaio, onde, através de jogos e improvisações, é transformado, dentro do universo lúdico, em personagens e histórias. Alguns processos de criação foram longos. Tivemos espetáculos com tempo de pesquisa de um ano, como o Oras Bolas. De dois anos, como o 100 + Nem Menos e, agora, de três anos, com o ainda inédito Papinha, devido à pandemia. Outra dificuldade muito comum é a falta de patrocínio e as articulações que precisam ser feitas para que sejam produzidos.

Na Cia Noz há um processo coletivo de criação dos bonecos, adereços e cenários para os espetáculos? Pode nos contar um pouco sobre ele?

O processo criativo da companhia é colaborativo e permite que todos os atores contribuam para a encenação como criadores, não apenas de seus personagens, mas também no roteiro. Sempre fiz questão de ter a possibilidade de experimentação. Por exemplo, nosso “light design” entrou na companhia como ator.E nossa produtora ainda atua como atriz. Todos têm a oportunidade de criar e confeccionar os cenários, adereços e bonecos dos espetáculos. Normalmente, os artesãos são os próprios atores de nossa companhia. Eu mesma confecciono os bonecos ou faço parte da equipe de confecção. Isso abre um campo imenso de possibilidades. Desde o início, a companhia conta com profissionais de diversas abordagens artísticas, como atores, bailarinos, artistas visuais, etc. O que ajuda muito em todo o processo.

Peter Brook diz que “todas as formas são degraus para se chegar ao sentido.” Qual a principal mensagem que o grupo deseja transmitir às crianças em seus espetáculos?

Eu acho que a mensagem principal dos nossos espetáculos é para as crianças serem elas mesmas, mais livres para brincar, imaginar e criar um mundo melhor dentro e fora delas.

Considera ainda haver um olhar preconceituoso em relação à arte que se constrói para a criança, considerando-a menor?

Infelizmente, o preconceito com o teatro infantil existe. É como se a criança pudesse engolir algo inferior, por ser pequena e não ter noção das coisas, mas é exatamente o contrário, pois a criança é exigente e 100% sincera. Se ela não gosta, ela não finge gostar como muitos de nós, adultos. Levanta-se da cadeira e vai procurar coisas melhores para fazer. É uma sinceridade que nos ajuda a sermos melhores.

Como analisa a questão dos editais para as companhias de teatro infantil? O que fazer para melhorá-los?

Os editais para o teatro infantil têm as mesmas exigências dos editais de teatro adulto, só que oferecerem valores menores. Temos que produzir o mesmo com menos dinheiro. Acho lamentável que ainda exista tal distinção. Para melhorar, no mínimo, os valores deveriam ser iguais aos do teatro adulto.

A Cia Noz mantém uma sede, inaugurada em 2017, o Galpão dos Lobos, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Como se deu esta conquista e que benefícios ela traz ao grupo?

O galpão foi um presente maravilhoso. Em 2016, fomos convidados para integrar um grupo de companhias de teatro para ocupar um espaço que anteriormente era de uma oficina de funilaria. A Funsai (Fundação Nossa Senhora Auxiliadora do Ipiranga) sempre contratava espetáculos para suas entidades. A verba para as contratações começou a ser um problema com a crise econômica no Brasil. Então, fizeram um acordo conosco: pagaríamos os aluguéis com apresentações. Somos cinco grupos, a maioria com espetáculos direcionados às crianças. O mentor dessa ideia era o Dr. Gusmão, uma pessoa apaixonada pelo teatro e com um coração enorme, que perdemos para o Coronavírus. Desde 2020, não apresentamos os espetáculos e, em março de 2022, acabou o nosso contrato de comodato com a Funsai. O terreno onde fica o galpão foi vendido para uma construtora e um condomínio tomará conta de todo o quarteirão na rua Gama Lobo. Um cenário triste, pois precisaremos encontrar um novo endereço para nossa sede.

 Como foi fazer teatro on-line, durante a pandemia?

A pandemia nos pegou no meio de um processo. O espetáculo Papinha estava com data marcada de estreia para abril de 2020. Tentamos, durante alguns encontros on-line, fazer algo para continuar, mas, como nossos espetáculos são muito físicos, conseguimos somente elaborar um pouco mais o roteiro que já tínhamos e tudo ficou parado, esperando a volta dos ensaios presenciais. Organizamos uma mostra dos nossos espetáculos em nosso canal do Youtube e ganhamos um Proac de emergência, para fazer uma gravação do espetáculo Cocô de Passarinho, que também disponibilizamos em nosso canal. Criamos alguns vídeos, utilizando utensílios de casa, dando vida a eles e, com isso, surgiram cenas muito legais, que acabaram gerando um workshop, encomendado pelo Sesc. Tivemos muitas dificuldades, pois muitos dos atores não tiveram meios de pagar suas contas.  Mas o melhor é que ainda estamos juntos. A companhia está em pé, firme e forte. E estamos terminando o espetáculo Papinha, que terá sua estreia ainda neste semestre.

Sobre o autor da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

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