Alguém anda a roubar os dias. Os dias estão cada dia mais pequenos

O mês de Agosto já vai na segunda metade e as árvores de praças e de jardins públicos já estão com as suas cãs, com as folhas caídas a fazer recordar Almeida Garrett. Garrett com dois tês, como o próprio publicista sublinhava, por mor de quem gostava de pronunciá-lo à francesa. Que no caso, Garrett, não queria que tomasse proporções grandes e à francesa. Pese Almeida Garrett ter exercido cargos importantes em França e em Inglaterra.
O livro Folhas Caídas não é só um título a apelar à memória outonal. É uma colectânea de poemas de amor inspirados e prova de amor à equatoriana, Rosa de Montúfar – quitina nobre (…). Folhas Caídas, o último livro de Garrett, é um emblema entre o vasto e diverso trabalho literário do autor portuense cuja obra assim mais conhecida será Viagens na Minha Terra.
Atribuí-se a Almeida Garrett o pioneirismo no Movimento Romântico, essencialmente com a publicação do seu poema “Camões”. Iniciador do Teatro Romântico Português, Almeida Garrett teve também uma intensa actividade política, tendo sido deputado e Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Almeida Garrett foi ainda jornalista, fundou e dirigiu o jornal diário “O Portuguêz” e o semanário “O Cronista”, tendo colaborado com outras publicações periódicas e literárias. Com mais de cinquenta personalidades subscreveu um protesto contra a proposta sobre a liberdade de imprensa, que ficou conhecida por “lei das rolhas”.
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett, nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 1799, e já agora, porque haveria de perecer, finou-se o corpo em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854. No Porto é patrono de uma biblioteca pública situada junto do Palácio de Cristal, mas o seu nome é emprestado a diversos organismos e toponímia em Portugal.
Sugiro a leitura do livro-poema “Camões” para perceber a profundidade poética de Garrett, com dois tês!
Obrigatório é deixar o poema, infra, para ler a intensidade “da sua paixão”.
O Retrato de Vénus
Vénus, Vénus gentil! — Mais doce, e meigo
Soa este nome, ó Natureza augusta.
Amores, graças, revoai-lhe em torno,
Cingi-lhe a zona, que enfeitiça os olhos;
Que inflama os corações, que as almas rende.
Vem, ó Cípria formosa, oh! Vem do Olimpo,
Vem cum mago sorrir, cum terno beijo,
Fazer-me vate, endeusar-me a lira.
E quanto podes cum sorriso, ó Vénus!
Jove, que empunhe o temeroso raio;
Neptuno as ondas tempestuoso agite;
Torvo Sumano desenfreie as fúrias…
Se dos olhos gentis, dos lábios meigos
Desprender um sorriso a Idália deusa,
Rendido é Jove, o mar, o Averno, o Olimpo.
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)
