
Escritor e jornalista, Alexandre Staut recebeu, este ano, um dos mais importantes prêmios para publicações sobre gastronomia, o Best French Cuisine Book, no concurso internacional Gourmand World Cookbook Awards, por seu Paris-Brest, livro de memórias dos tempos em que trabalhou como cozinheiro na França.
É também autor do livro infantil A vizinha e a andorinha (2015) e dos romances Um lugar para se perder (2012) e Jazz band na sala da gente (2010). Tem inédito outro romance, O incêndio, sobre um incêndio criminoso que destrói uma biblioteca pública do interior do Brasil, uma espécie de fábula sobre a devastação de bibliotecas pelo país, livro que ainda traz como tema a homossexualidade na adolescência, algo pouco trabalhado na literatura brasileira.
Além de escritor, edita a revista literária São Paulo Review, que idealizou em 2013, e é editor da Companhia Editora Nacional, uma das mais importantes do país, fundada em 1925, por Monteiro Lobato. Nesta entrevista, o autor fala sobre sua obra, a de colegas, sobre jornalismo e gastronomia, uma de suas áreas de pesquisa.
Pode nos contar um pouco sobre sua relação com os livros e os autores que considera decisivos em sua formação?
Sou, antes de tudo, um leitor. Gosto de ler todos os dias e, se não o faço, parece que falta alguma coisa. Tudo começou aos onze anos, com o estímulo de uma professora de Português, dona Rosinha. O primeiro romance juvenil que ela passou para a minha turma foi O cachorrinho Samba, de Maria José Dupré.Eu não sabia direito o que era para fazer. Achei que fosse para decorar o texto. Eu andava por algumas ruas mais tranquilas da cidade com o livro na frente da cara, lendo-o. Li aquele livrinho muitas vezes seguidas, até que o decorei. Só depois, soube que ela pedia para lermos uma única leitura. Todos na sala de aula riram de mim, quando souberam da história. Meses depois, descobri a biblioteca, um oásis na cidade parada, sem graça, em que nasci, Espírito Santo do Pinhal. Ali, descobri que ler em silêncio era muito melhor do que pelas ruas. A biblioteca é tema de um romance inédito que escrevi, O incêndio, que fala do descaso de autoridades brasileiras em relação às bibliotecas públicas e que ainda trata da homossexualidade na adolescência. Pretendo publicá-lo em 2018.
Bom, mas falando dos autores que me formaram, poderia citar José Mauro de Vasconcelos, Josué Guimarães, Marques Rebelo, Fernando Sabino, Bandeira e Drummond.
Tendo passado, nas últimas duas décadas, por alguns de nossos mais importantes veículos de imprensa, quase sempre escrevendo sobre cultura, algum balanço a fazer? A imprensa cultural tem cumprido seu papel ou as leis de mercado têm falado mais alto?
A imprensa cultural, na maior parte das vezes é releasesca. Vive de releases que as assessorias de imprensa mandam para as redações. Ou, então, só tem olhos para aquilo que já tem prestígio, talvez por medo de apontar novidades e errar e pela falta de tempo dos jornalistas. Para piorar, a grande imprensa nacional passa por uma grande crise e as editorias trabalham, em grande parte, com jornalistas inexperientes. Mas há exceções, claro.
Criar sua própria revista, a São Paulo Review, foi uma resposta ao que se produz, em boa parte, no jornalismo cultural contemporâneo?
A São Paulo Review olha para nomes consagrados, mas concede espaço a escritores em começo de carreira, às editoras pequenas e independentes. Pelo menos uma vez por mês, abrimos espaço para autores inéditos, gente desconhecida que manda contos, poemas. Alguns que nunca publicaram antes. Claro que há um trabalho de curadoria e não publicamos absolutamente tudo o que nos enviam.
Seu livro de estreia, o romance Jazz band na sala da gente, busca, a partir da história de sua família, no interior de São Paulo, a reconstrução de uma época que, embora limitada tecnologicamente, dava espaço a uma vida mais criativa e, talvez, feliz. Concorda com tal ideia?
Não saberia dizer se a vida de antes era melhor ou mais feliz. Na família do meu pai, que está retratada neste livro, talvez fosse. O livro é a biografia inventada do meu avô paterno, e ele era músico, era festeiro. Com sua orquestra de chorinho tocava em bailes, no cinema da cidade. Talvez, fosse uma época de vida social bastante intensa. Minha avó me contava que ia ao cinema todas as noites, nos anos 40, ver o grupo do meu avô tocar.
Após escrever três romances para o público adulto, o que o motivou a escrever para crianças e a lançar A vizinha e a andorinha?
Este livro infantil caiu no meu colo. Percebi um dia que tinha uma vizinha cantora e isso me motivou a escrever um miniconto. Depois, olhando mais de perto, percebi que a história poderia ser adaptada para o público infantil. Passei-a para minha amiga, Viviane Ka, com quem divido a direção da São Paulo Review,e perguntei se ela tinha sugestão de ilustrador e editor. De imediato, sugeriu a filha, Selene Alge, que criou aquarelas lindas para o livro.
Com vê o mercado editorial para o novo autor no Brasil? Lemos pouco os nossos jovens autores por que eles têm pouco a dizer ou por que somos desatentos e preconceituosos com o que produzimos por aqui?
Acho que existe bastante mercado para jovens autores e muitos deles conseguem encontrar leitores, principalmente em plataformas eletrônicas. Fico besta em ver como eles têm leitores em plataformas digitais. O bacana é que, como o leitor pode ler o trecho inicial da obra, só se continua a leitura daquilo que realmente for convincente, dos livros bem escritos, aqueles que apresentarem o mínimo de verossimilhança.
O excesso de lançamentos editoriais na área infantil não tem subtraído a qualidade do que se publica?
Estou começando agora a acompanhar o mercado de infantis. Tem um monte de besteiras nas livrarias, obras que o meio chama de ‘livro presente’ e que traz personagens da TV, como Peppa Pig, os caça-níqueis. Meu livro é paradidático e acho que esta área está cada vez melhor, com temas muito bons, alguns nunca antes pensados para o mercado infantil, como morte, sexualidade, perdas.
A vizinha e a andorinha permite que não só as crianças, mas também os adultos se dêem conta do quanto nos escondemos, sobretudo os que habitamos os grandes centros urbanos. Ao escrevê-lo, alguma razão especial o motivou?
Antes de tudo, agradeço a sua leitura. Pois é, pensei sim nesse aspecto, na vida daqueles que moram nas grandes cidades e que passam, às vezes, anos sem travar o mínimo de contato com os vizinhos.
Nem sempre as relações entre autor e ilustrador são pacíficas. Como foi a parceria com Selene Alge? Durante o trabalho dela vocês trocaram muitas figurinhas?
Nós conversamos e pensamos juntos em soluções o tempo inteiro, eu, Selene e Bell Mota, a editora. O trabalho foi realizado de forma bastante respeitosa.
Muitos escritores dizem que escrever para crianças é mais gratificante, pois o retorno, além de mais verdadeiro, é quase imediato. Consegue sentir isso?
Fiz alguns encontros com crianças que leram o livro, como os alunos do Sesi da cidade de Cotia, e recebi abraços carinhosos e sinceros das crianças. Foi muito recompensador.
Outra de suas paixões é a gastronomia. É possível um paralelo entre ela, a literatura e o jornalismo?
A gastronomia chegou até mim através do meu pai. Ele era funcionário público, em Pinhal e, nos tempos vagos, datilografava um caderno de receitas. Isso nos anos 70. Lembro da casa cheirando moqueca, feijoada e dobradinha, aos domingos. Aliás, na época, eu odiava o cheiro, mas ficava sempre perto dele. Acho que de tanto observar, tornei-me pesquisador da gastronomia, principalmente da Idade Média europeia.
Para aprender de perto este tema, fui trabalhar em cozinhas na Inglaterra (por um ano) e na França (três anos e meio). Mais tarde, trabalhava na editoria de cultura da Gazeta Mercantil, em 2006, quando contei para a editora de lifestyle que tinha estudado e cozinhado em restaurantes europeus. Na mesma hora, ela me chamou para assinar uma coluna de gastronomia no diário. Aceitei o convite e achei o mundo do jornalismo gastronômico bastante otimista. Assim, fiquei. Hoje, não cozinho mais profissionalmente, não tenho vontade. Quando o mundo da literatura está muito cheio de politicagens, corro para a cozinha e assim me distraio com receitas e pratos.
Como surgiu a ideia de escrever Paris-Brest? Ao publicá-lo, imaginava a consagração internacional que receberia?
Logo que voltei ao Brasil da temporada na França, em 2005, tentei transformar o filme O garoto selvagem, do Truffaut, num romance. Pretendia fazer o caminho inverso do usual, quando um livro é adaptado para o cinema. Mas não conseguia, acho que pelo fato de o filme ser uma obra-prima. Aí percebi que tinha uma história original e que era um tanto parecida com o filme do Truffaut, minha vida na França.Foi então que comecei a escrever Paris-Brest. O livro foi bem. Continua encontrando novos leitores. Ganhou o Best French Cuisine Book, no concurso internacional Gourmand World Cookbook Awards. Foi finalista do Prêmio Jabuti e vira e mexe está na lista dos mais vendidos da Amazon, na categoria livros de gastronomia.
Quais os seus novos projetos?
Pretendo lançar O incêndio, no inicio de 2018. É um livro importante. Discute assuntos espinhosos do Brasil de hoje. Discute a caretice que tomou conta do país e também o descaso com nossas instituições culturais. Além disso, continuo a fazer minhas pesquisas na área de gastronomia/alimentação. Já começo a esboçar o próximo livro, que vai falar das tradições da culinária brasileira, dos índios aos dias de hoje.
Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

