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Venezuela: Paulo Cafôfo pede protagonismo de Portugal na transição

O antigo secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e ex-líder do PS-Madeira, Paulo Cafôfo, considera que a situação na Venezuela exige “preocupação, serenidade e sentido de responsabilidade”, deixando duras críticas ao regime de Nicolás Maduro, mas também fortes reservas em relação à intervenção militar dos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump.

Em duas reflexões publicadas nas redes sociais, Cafôfo reafirma que sempre foi “claro” na sua oposição ao regime venezuelano, que classifica como “ditatorial e corrupto”, acusando-o de ter “subjugado todo um povo à miséria”. Sublinha que essa posição “nunca foi ambígua”, mas frisa que isso não o impede de desconfiar das motivações da actual administração norte‑americana.

Segundo o socialista madeirense, a acção militar dos EUA “levanta sérias interrogações no plano do direito internacional”, em particular pela ausência de uma “cobertura clara e inequívoca” de organismos multilaterais, como a ONU. Cafôfo recorda que, na história recente, Washington “raramente actua movido apenas pela reposição da democracia”, havendo “quase sempre interesses estratégicos, económicos ou geopolíticos em jogo”.

“Ora, a Venezuela é um país riquíssimo”, lembra, apontando o petróleo, o lítio, o ouro e outros minerais raros como tentação óbvia. Na sua leitura, Trump quer “fazer da América Latina o seu quintal, alinhado politicamente e favorável aos interesses americanos”, e o ataque à Venezuela funciona também como “útil manobra de dispersão” face ao embaraço dos chamados “Epstein Files”.

Ainda assim, Cafôfo admite que a política internacional “não é feita apenas de legalidade formal”. Há, diz, momentos em que a lei “protege regimes ilegítimos e nega a soberania popular”, como no caso venezuelano. Nesses contextos “há ações que se podem tornar necessárias para restaurar justiça, liberdade e democracia”. A linha é “tudo menos clara”, reconhece, mas pode haver situações em que “quebrar a legalidade, tendo como objetivo restaurar a democracia, os direitos humanos e a soberania popular, pode ser a única forma”.

A grande interrogação, insiste, é “até onde irá Trump?”, avisando que não se podem aceitar “novas formas de dominação” nem permitir que a Venezuela seja “espoliada dos seus recursos por interesses que não sejam os do seu próprio povo”.

Paulo Cafôfo elenca ainda um conjunto de pontos que considera essenciais neste momento:

  1. A prioridade deve ser a segurança da comunidade portuguesa na Venezuela e a solidariedade com o povo venezuelano, “que há muito ansiava pelo fim de um regime que lhe retirou liberdade, dignidade e futuro”.
  2. “Muito ainda está por acontecer” e o momento exige “prudência e cautela”.
  3. “A Venezuela merece ser livre e democrática. E na Venezuela têm de mandar os venezuelanos.”
  4. A intervenção militar dos EUA, que “noutro momento terá de ser analisada e avaliada com profundidade”, não pode em circunstância alguma conduzir à apropriação dos recursos venezuelanos por interesses externos.
  5. A confirmar‑se não apenas o afastamento de Maduro, mas a “deposição do regime”, impõe‑se “uma transição cuidadosamente acompanhada por organismos internacionais”, que garanta soberania, estabilidade e eleições livres.

Nesse quadro, Cafôfo defende que Portugal, “pela importância e dimensão da comunidade portuguesa na Venezuela”, muita da qual tem origem na Madeira, deve estar “na dianteira deste processo”, assumindo “um papel ativo de mediação e defesa dos seus cidadãos”, ao mesmo tempo que contribui para que o futuro do país sul‑americano seja decidido pelos próprios venezuelanos e não ditado a partir do exterior.

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