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Uso ou abuso da linguagem?

O nosso espírito do tempo tem vergonha de usar algumas palavras antigas de expressão mais conotativa e direta; por isso prefere empregar, agora, uma linguagem mais voltada para a camuflagem.

Não me refiro aqui à linguagem informal ortográfica, um pouco embaraçada, reduzida, sem pontuações nem concordância, que se vai usando nos nossos espaços de comunicação virtual! Falo do amaciamento de palavras designadoras de profissões que eram demasiadamente conotadas pela situação considerada pela sociedade como menos nobre, ou por atividades que continuam, mas que hoje é preciso pegar com luvas brancas para as afidalgar. Talvez também para descarregar a consciência de uma classe fina a que todos queremos pertencer!

Esta necessidade de mudar o nome a profissões precárias, também poderia ser tomada como uma intrujice camuflada, apenas uma toalha para limpar o rosto.

Em vez de criarmos palavras eufemistas para profissões desfavorecidas pelo sistema vigente, porque não lhes conferir ordenados de ministro e então teríamos solucionado o problema da tal descriminação transmitida pela linguagem?

A propósito, na sociedade romana antiga, ministro era o servidor! Há evoluções difíceis de entender!

Certamente surgiriam outros problemas, mas não o da discriminação relegada também para as palavras.

Por outro lado, substituindo as palavras velhas por novas já não se gasta muito nos detergentes!

A respeito disto coloco aqui o texto “A nova Língua Portuguesa” que, sem detergentes, circulava há 10 anos, na Internet e que vim a saber ser de Helena Sacadura Cabral:

A NOVA LÍNGUA PORTUGUESA

“Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos ‘afro-americanos’, com vista a acabar com as raças por via gramatical – isto tem sido um fartote pegado!

As criadas dos anos 70 passaram a ‘empregadas domésticas’ e preparam-se agora para receber menção de ‘auxiliares de apoio doméstico’.

De igual modo, extinguiram-se nas escolas os ‘contínuos”; estes passaram todos a ‘auxiliares da acção educativa’.

Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por ‘delegados de informação médica’.

E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em ‘técnicos de vendas’.

O aborto efeminou-se em ‘interrupção voluntária da gravidez’;

Os gangs étnicos são ‘grupos de jovens’

Os operários fizeram-se de repente ‘colaboradores’;

As fábricas, essas, vistas de dentro são ‘unidades produtivas ‘e vistas da estranja são ‘centros de decisão nacionais’.

O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à ‘iliteracia’ galopante.

Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a suscetibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes ‘Conforto’ e ‘Turística’.

A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira…» ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental…» – eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.

Aquietadas pela televisão, já se não veem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um ‘comportamento disfuncional hiperactivo’

Do mesmo modo, e para felicidade dos ‘encarregados de educação’, os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, ‘crianças de desenvolvimento instável’.

Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado ‘invisual’. (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos – mas o ‘politicamente correcto’ marimba-se para as regras gramaticais…)

As putas passaram a ser ‘senhoras de alterne’.

Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em ‘implementações’, ‘posturas pró-activas’,’políticas fracturantes’ e outros barbarismos da linguagem.

E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.

Estamos lixados com este ‘novo português’; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma ‘politicamente correcta’.”

Fora de ironias! É certo que importa não nos perdermos na semântica nem nos factores contextuais, mas também teremos de compreender que, como vivemos num mundo cada vez mais aldeia, precisamos de um ajustamento das designações profissionais a nível internacional e de organizações internacionais!….

António da Cunha Duarte Justo