UMinho desenvolve vacina contra doença que provoca um milhão de mortes por ano
Cientistas da Escola de Ciências da Universidade do Minho (ECUM) testaram com sucesso em animais uma vacina contra a candidíase invasiva, uma infeção fúngica que pode ser fatal para doentes imunocomprometidos, como quem faz transplantes ou quimioterapia. Nos ensaios pré-clínicos, animais vacinados registaram menos sintomas, maior taxa de sobrevivência e melhoria do estado geral do organismo após infeção.
A equipa da professora Paula Sampaio (na fotografia acima) quer agora fazer testes clínicos em humanos, para aferir a segurança e eficácia da vacina.
O projeto nasceu há dez anos nos laboratórios em Braga e, após várias tentativas, criou-se uma nanopartícula esférica de gordura (lipossoma), que transporta e apresenta duas proteínas do fungo Candida albicans ao sistema imunitário. Este reconhece-as e ataca o fungo quando o volta a ver. “Estas infeções são difíceis de diagnosticar atempadamente e de tratar, devido à toxicidade e resistência aos antifúngicos, mas a nossa vacina experimental conseguiu estimular o sistema imunitário a reconhecer e combater o fungo; acreditamos por isso que pode vir a reduzir a mortalidade, os internamentos prolongados e os custos associados, podendo ser um avanço importante na proteção de doentes em risco”, revela Paula Sampaio, do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) da ECUM.
Os resultados do trabalho saíram na revista “npj Vaccines”, do grupo Nature, envolvendo ainda Augusto Costa-Barbosa, Inês Pacheco, Andreia Gomes, Tony Collins e Célia Pais, todos do CBMA e do Instituto de Ciência e Inovação para a Bio-Sustentabilidade (IB-S) da UMinho, além de Alexandra Correia (Instituto de Biologia Molecular e Celular, IBMC) e Manuel Vilanova (IBMC e Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, i3S), ambos da Universidade do Porto.
As infeções por Candida mais frequentes surgem nos genitais, dobras da pele, unhas, boca e sistema digestivo. No entanto, em pacientes com imunidade baixa, este fungo pode entrar na corrente sanguínea, infetando órgãos internos e provocando candidíase invasiva. A candidíase invasiva afeta 1.5 milhões de doentes por ano, sendo que cerca de um milhão (63%) acaba por morrer.
Diferentes de vírus e bactérias, os fungos geram pouca atenção, mas as suas infeções são cada vez mais frequentes e paralelas, como aquando da Covid-19. A Organização Mundial de Saúde lista o Candida albicans entre os fungos mais urgentes na pesquisa científica e médica. “A candidíase é uma infeção oportunista, por vezes confundida com outras condições, o que dificulta o diagnóstico e reduz a perceção pública da sua gravidade; a ausência de campanhas de sensibilização e o fraco conhecimento geral sobre infeções fúngicas também levam a que seja subvalorizada no debate sobre saúde pública”, realça Paula Sampaio. “Mais do que diagnósticos eficientes, precisamos sobretudo de terapias para baixar a percentagem de mortalidade”, sustenta a docente.