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Uma reflexão crítica da PNL pela ciência do comportamento

Enquanto Psicólogo, ou seja, cientista do comportamento, a leitura do trabalho da Ordem dos Psicólogos sobre a Programação Neurolinguística (PNL) é fundamental para clarificar o mercado e os leigos no assunto (ver o link do documento em baixo).

Recomendo leitura, mas desde já cito que “os pressupostos da PNL não podem ser aceites com base nas evidências”. Em “33 estudos sobre PNL publicados em revistas ISI, destes apenas 18.2% mostram resultados que apoiam os princípios da PNL; em 54% dos casos os resultados não suportavam os princípios da PNL e em 27.3% dos casos os resultados foram incertos”. Saliento ainda que “a eficácia da PNL aplicada em contextos clínicos ainda não foi devidamente investigada”. Há a “necessidade de provar a sua eficácia”, pois até o seu próprio autor (Bandler) considera a PNL uma atitude, mais do que uma técnica”.

Preocupa-me, por isso, como é que vemos Psicólogos, especialistas do comportamento de excelência após a sua formação universitária de anos, com a possibilidade de fazerem formação pós-graduada fora das universidades e em entidades ligadas ao terreno e prática real, decidem fazer formação em PNL, gastando o seu dinheiro neste tipo de formações leccionadas por engenheiros, gestores, advogados, etc.., em vez das que são cientificamente sustentáveis e validadas. Ou seja, é quase que ser o endireita a ensinar o médico ortopedista como se tratar uma dor de costas…

Preocupa-me, por isso, e depois de ler um relatório da OPP baseado na evidência, ver estas formações e contactos com a PNL serem demasiado superficiais, pouco científicos, e darem apenas a ilusão de que são todos capazes de dominarem conceitos e articulações complexas da natureza humana, facilitando a ideia de que, depois desse treino, já podem “ajudar” outras pessoas ou empresas.

Costumo dizer e sempre defendi que sem uma compreensão neurobiológica e clínica, não temos saúde mental. A capacidade de saber fazer diagnóstico clínico no âmbito do desenvolvimento pessoal, saber as diferenças entre o normal e anormal (socialmente), o saudável e patológico (clinicamente) não é tarefa simples nem rápida. Estudar de forma séria os processos cognitivos e emocionais da natureza humana exige tempo, dedicação e reflexão profunda para conseguirmos desenvolver essa competência e podermos, depois, servir os outros.

Preocupa-me que os profissionais de saúde, para além de outros profissionais na área da gestão e economia, engenharia, direito, entre outros, se sintam atraídos pela PNL, frequentando workshops e pequenos cursos de formação, pois apesar do agradável passatempo que deve ser para mudar de ares e ouvir coisas novas, a sustentabilidade e aplicabilidade de mudança real é questionável, como mostram as várias revisões dos estudos sobre esta matéria. Estes contactos com a PNL são demasiados superficiais e não permitem ao participante dominar nem os princípios nem as técnicas da PNL, mas deixam a ilusão dessa possibilidade, principalmente quem está em dúvida do que quer na vida ou está insatisfeito no seu actual momento de carreira. Como é possível ler no trabalho da Ordem dos Psicólogos Portugueses, “parece provável que o sucesso da PNL seja determinado pelas características pessoais dos seus criadores (como o carisma e auto-confiança) o que impediria alguns dos aprendizes da PNL sem essas características de terem o mesmo sucesso”.

Para terminar, preocupam-me alguns aspectos éticos da forma desprotegida como o mercado leigo está da PNL: é questionável a forma como, priorizando ganhos económicos a curto-prazo de forma cega, permite uma aceitação incondicional e indiscriminada de qualquer um para fazerem esta formação sem nenhuma condição prévia de exigência mínima. Sem treino ou diferenciação, o resultado só permite facilitar a exploração de pessoas ou empresas vulneráveis, com pouca formação ou leigas no assunto, que provavelmente não conseguirão nunca resolver problemas ou fases complexas com soluções lineares e simples, o que resultará sempre em frustração e deslocamentos/ crises existenciais/ económicas.

Saber viver, gerir ou planear a vida, a sério de forma profundamente congruente com o nosso potencial a partir de quem somos ou onde estamos, não é simples e a capacidade de dedicar tempo, investir dinheiro em quem de facto pode ajudar e levar a essa auto-descoberta, com modelos validados cientificamente é tarefa árdua. O dinheiro que se gasta é o preço, mas o valor é o resultado obtido a médio ou longo prazo. Prefiro, em todas as minhas escolhas, apostar no valor que ganho, o que me ensina que o preço foi sempre barato.

Os cientistas do comportamento de excelência são os Psicólogos. Quando tenho uma dor de costas, apesar de muita gente continuar a ir ao endireita, vou continuar sempre a ir ao médico ortopedista, porque sem exigência não há competência. Ficar com uma lesão permanente ao tentar tratar uma dor temporária, não é para mim.

Aqui fica o link do documento na Ordem dos Psicólogos.

Ivandro Soares Monteiro, Prof Doutor
Psicólogo Clínico/ Psicoterapeuta
Psychological Coach & Consultor Comportamental (empresas)
Director da EME SAÚDE
Professor Universitário