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Tom Gallagher: “Portugal foi um exemplo das tensões do Ocidente no século XX”

© DR

O historiador britânico Tom Gallagher considera que Portugal representou, no século XX, um exemplo das tensões da civilização ocidental, contrariando algumas das teses de alguns historiadores em relação a momentos da história recente do país.

“Penso que Portugal tem vindo a ser interessante porque lutou para ter um sistema político estável ao longo do tempo”, num “ocidente que sempre foi destruído por guerras que destruíram o progresso” e onde “nunca houve acordo de longo prazo de valores e básicos elementos de liberdade de expressão”, afirmou à Lusa, por ocasião do lançamento do seu novo livro “Portugal e o Ocidente: Do ultimato britânico e de Salazar à revolta utópica”.

“Em Portugal, durante o século XX, estas tensões foram evidentes” e o país “é um reflexo muito útil das tensões da civilização ocidental”.

Para o historiador, não foi o ultimato inglês de 1890 que levou à queda da monarquia, como insistem outros historiadores, mas sim o “crónico estado de subdesenvolvimento” do país, onde a “monarquia já não era um elemento unificador”.

“Escolhi o ultimato [para iniciar a história recente de Portugal] porque revela a fragilidade e a dependência do país face às grandes potências do mundo, neste caso a Inglaterra”, afirmou.

Já quanto ao fim do 25 de abril, Tom Gallagher considera que Portugal “nunca foi um palco importante da Guerra Fria”, entre os Estados Unidos e a União Soviética.

“A transformação de Angola num país comunista, ou pelo menos para fora da órbita ocidental, seria inevitável”, disse, salientando que o período pós-revolucionário na metrópole teve mais elementos internos de conflito do que ingerência externa.

Para o historiador, Moscovo “nunca investiu seriamente em Portugal durante o período pós-25 de Abril e, se existisse uma guerra civil após o 25 de novembro, o caminho seria um regime comunista no sul a que os Estados Unidos também não se iriam opor” militarmente, considerou.

Até porque, recordou Gallagher, “Jimmy Carter ganhou pouco depois” as eleições nos EUA e “a política da administração dos EUA mudou muito, optando pela não-intervenção” em países terceiros.

Na segunda guerra mundial, Portugal esteve também no centro de tensões mundiais, dessa vez entre os EUA e a Inglaterra, com Churchill a defender a neutralidade do país, para impedir que Franco alinhasse com Hitler, como iria suceder.

Já os EUA “trataram Portugal como um Estado cliente e como um país não importante que deveria obedecer à civilização ocidental”, ao longo do conflito mundial.

Os líderes dos dois países “não se entenderam. Roosevelt era anti-imperialista e queria os europeus fora das colónias, enquanto Salazar sempre foi, principalmente, um nacionalista”, que queria manter o “estatuto imperial de Portugal.

E foi, no seu entender, a resistência ao conflito por parte de Portugal que levou Salazar a não aceitar qualquer mudança de regime, tendo como meta manter o império colonial.

“A ditadura deveria continuar, custasse o que custasse”, porque Salazar “não confiava nos americanos, que queriam impor o seu modo de vida ao mundo”, defendeu Gallagher.

Com 467 páginas, o livro, editado pela D. Quixote, distingue os principais momentos da história recente em Portugal e, em todos, o autor faz o resumo da sua apreciação do período histórico em causa, baseando-se em documentação comparada.

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