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Ser migrante é uma arte e há um festival que o comprova

2025 foi o ano escolhido para apadrinhar a primeira edição de A Arte de Ser Migrante, um festival que durante quatro dias abordou em Lisboa temáticas relacionadas com as migrações portuguesas sob diferentes ângulos temporais e geográficos.

O certame teve lugar nos icónicos Jardins do Bombarda e contou com a parceria do Largo Residências.

Numa entrevista “a dois tempos”, as organizadoras Amandine Desille e Liliana Azevedo contaram tudo ao BOM DIA.

Tendo em conta que esta foi a primeira edição do Festival A Arte De Ser Migrante, peço-vos, desde já, uma apreciação geral. Enquanto organizadoras, sentem que a iniciativa decorreu de acordo com as vossas expectativas?

Liliana: Fazemos um balanço muito positivo do evento que superou as nossas expectativas. O festival suscitou o interesse de um público bastante diversificado, pessoas de diferentes idades e origens, muitas delas com trajetórias migratórias de ou para Portugal, mas também pessoas que nunca saíram de Portugal. Essa heterogeneidade foi muito bonita de se ver e viver. Não só os/as convidados/as, mas também uma parte do público, participaram no festival vários dias seguidos, o que contribuiu para uma certa familiaridade entre as pessoas e criou um ambiente realmente muito bom. Houve quem nos tivesse congratulado por termos conseguido abordar temas sérios, alguns dos quais pesados – como as difíceis condições de trabalho e habitação em certos setores e territórios – num ambiente “leve” e com alguma frescura.

Sem dúvida, o formato original do evento – que colocou em diálogo a academia, as artes e os media – contribuiu muito para o seu sucesso. O festival suscitou interesse de públicos muito díspares porque era simultaneamente interdisciplinar, internacional, intercultural e intergeracional. Ao mesmo tempo, veio responder a uma necessidade sentida nomeadamente por quem tem origens portuguesas e nasceu, viveu ou vive fora de Portugal, mas também por quem vive em Portugal, tendo, ou não, uma experiência de vida lá fora. Estou a falar da necessidade de se criar espaços de encontro e de discussão sobre identidades híbridas e plurais. Além disso, o festival respondeu à necessidade de debate e de desocultação em torno das migrações portuguesas, porque continua a persistir um silenciamento das experiências migratórias de quem saiu de Portugal no século passado. Como foi salientado por algumas pessoas durante o festival, existe um silêncio entre pais e filhos/filhas, mas também um silêncio entre quem saiu do país e quem ficou, bem como um certo desinteresse por parte de quem nunca emigrou relativamente às vivências de quem partiu. Além disso, em função dos motivos de saída – políticos, económicos ou outros – os percursos de uns e de outros e respetivos contributos para o país são valorizados de forma diferente.

Resumindo, estamos muito felizes por ter conseguido congregar interesses muito diferentes, criar conexões entre gerações, mas igualmente sinergias transdisciplinares e transnacionais.

Amandine: Queria acrescentar que o festival levou cerca de dois anos e meio a concretizar-se. A Liliana e eu já tínhamos colaborado anteriormente, em 2019-20, na organização de um ciclo de oficinas nas nossas universidades e na publicação de uma coletânea de artigos científicos sobre migrações portuguesas, em 2020-21. Depois disso, surgiu a ideia de criar um evento fora da academia, onde se pudesse apresentar trabalhos criativos e artísticos sobre o mesmo tema.

Começámos por reunir título de livros, filmes, músicas, novelas gráficas… que abordavam as migrações portuguesas na Europa, sobretudo obras de autores e artistas que são migrantes ou descendentes de migrantes portugueses. Selecionámos algumas dessas obras e contactámos cerca de uma dúzia de pessoas que aceitaram, de imediato, o nosso convite.

Tudo ganhou outro ritmo, quando conseguimos encontrar um espaço para a realização do festival e estabelecemos uma parceria com o Largo Residências, associação que gere os Jardins do Bombarda, em Lisboa. Isso aconteceu apenas seis meses antes do festival. O mais bonito é que, apesar de ter passado mais de um ano entre os primeiros contactos e a celebração do protocolo com o Largo Residências, as pessoas com quem falámos no início continuaram connosco até ao fim, entusiasmadas em vir e mostrar o seu trabalho. Acrescentámos alguns nomes e atividades ao programa nos últimos meses, mas a ideia original manteve-se fiel ao conceito inicial.

O que não esperávamos era a carga emocional tão forte deste evento – os laços que se criaram entre artistas, académicos e jornalistas que, até então, não se conheciam de todo ou só se conheciam por videoconferência, e claro, com o público, do qual uma parte significativa nos acompanhou ao longo dos quatro dias.

Em quatro dias, cumpriu-se um programa intenso que teve como grande objetivo “abordar as migrações portuguesas através de diferentes ângulos temporais e geográficos”. Para tal, reuniram uma série de convidados ligados às mais variadas áreas de atividade. Sentem que é esta pluralidade de opiniões o caminho para mostrar a Portugal o que é, de facto, a diversidade que existe na nossa diáspora?

Amandine: Sem dúvida. Ambas queríamos,desde o início, alcançar essa diversidade, até porque nós próprias representamos essa diversidade. Vimos de disciplinas diferentes, eu sou geógrafa e a Liliana é socióloga, circulámos por países distintos, e o nosso trabalho criativo – para além da academia – também é diverso: eu trabalho com vídeo, e a Liliana com fotografia e desenho. Estivemos muito atentas à representatividade em termos de gerações, trajetórias migratórias, disciplinas, meios de expressão, geografias… e conseguimos, embora colocando o foco apenas em quatro países nesta edição, traçar um mapa plural das preocupações que atravessam as nossas produções. Curiosamente, apesar dessa pluralidade, muitas experiências eram partilhadas. Nesse sentido, ser ou sentir-se português fora de Portugal é, de facto, uma experiência comum.

Liliana: Essa pluralidade está presente na diáspora, tal como está presente em Portugal, só que nem sempre temos essa perceção quando olhámos para a diáspora a partir deste retângulo à beira mar plantado. O que quero dizer com isto é que uma pessoa que nunca saiu do país reconhece que Portugal é um país muito diverso embora pequeno, mas terá tendência a olhar para os/as portugueses/as que vivem fora como uma entidade de certa forma homogénea: são “os franceses”, “os suíços”, e por aí fora. Tal como, nos países de residência, olham para as pessoas portuguesas, sejam elas migrantes ou descendentes, como “os portugueses” sem terem noção que alguém que vem do Minho terá uma cultura e identidade distintas em relação a alguém que vem do Alentejo ou das ilhas. Aliás, muitos/as portugueses/as descobriram a diversidade do seu país, cultura e língua quando emigraram, porque nem sempre tiveram a oportunidade de viajar dentro de Portugal antes de sair do país. Como sabemos, o léxico e os sotaques são bem diferentes entre regiões, mas também as práticas gastronómicas e musicais, por exemplo, e a descoberta de outros modos de fazer, estar e ser português ocorreu frequentemente além fronteiras: nos empregos, nas associações, nos clubes desportivos, na escola, etc.

Queria ainda sublinhar que parte da “experiência comum”, que a Amandine referiu, está relacionada com os vaivéns que caraterizam a vida de quem reside num outro país, nomeadamente as vindas regulares a Portugal para passar férias e visitar a família, entre outros motivos. Ou seja, existe igualmente semelhanças, qualquer seja o país de residência ou a idade, no que concerne a experiência de tecer relações com Portugal. É comum ouvir migrantes e descendentes de migrantes contarem que se sentem tratados/as como estrangeiros/as em Portugal ou que sentem um certo desfasamento com o país e dificuldade em encontrar o seu lugar na sociedade portuguesa. Ao mesmo tempo, essa experiência comum é também uma experiência plural: pode assumir contornos diferentes e inclusive variar ao longo da vida.

Entre tantas iniciativas, qual a que consideram como o ponto alto do Festival? E em termos mais gerais, que ilações há a tirar?

Amandine: Para mim, é impossível escolher um único ponto alto – tudo depende da perspetiva. Do ponto de vista pessoal, senti-me muito ligada à mesa-redonda sobre os futuros das diásporas portuguesas. O meu filho nasceu em Portugal, filho de dois pais migrantes, e vi ali, de certa forma, conversas que irei ter com ele no futuro. Do ponto de vista da organização, os momentos de maior afluência foram a abertura do festival e o vernissage das exposições da ilustradora Madeleine Pereira e do fotógrafo Pedro Rodrigues, no primeiro dia. A frescura dos seus olhares foi muito apreciada do público. Recebi muitos abraços do público após a exibição do filme “Além do Silêncio”, de Christophe Fonseca, que emocionou muita gente, e algumas pessoas até às lágrimas. Mas é difícil destacar uma atividade em particular – todas contribuíram para criar o ambiente especial deste festival e o impacto nas pessoas que nele participaram.

Liliana: Tal como a Amandine, tenho dificuldade em destacar apenas um momento, pois cada dia teve o seu ponto alto, ou até mais do que um! Além disso, cada momento do festival ressoou de forma diferente nas pessoas que participaram – e, por isso, não é uma questão de resposta fácil. Enquanto organizadora, destacaria dois momentos: a abertura do festival, que reuniu os representantes máximos de três embaixadas – Suíça, Luxemburgo e França – e um leque muito diversificado de pessoas interessadas na temática. O fim de tarde do primeiro dia foi feito de encontros, reencontros, escuta e muita partilha. Foi realmente um fim de tarde especial!

Nesse dia, choveu bastante e tivemos de repensar a ocupação de diferentes espaços dos Jardins do Bombarda. Não sendo possível realizar as atividades no exterior, como havíamos planeado, fomos obrigadas a concentrar debates, exposições, apresentações, livros e o momento de convívio num único espaço interior. Em Lisboa, quando chove, as pessoas desistem por vezes de sair. Estavámos, por isso, receosas que fôssemos ter pouco público. Contudo, não só a chuva não desanimou o público como contribuiu para a criação de um ambiente intimista, que perdurou nos dias seguintes.

Outro ponto alto do festival foi o finissage das atividades participativas, no último dia, que culminou com a apresentação de retratos que a fotógrafa Estelle Valente fez durante o festival e com a voz de Virginie Janelas que cantou e tocou músicas originais suas. Foi um momento de grande emoção.

Em termos de organização, quais os grandes desafios por trás de um evento com tal envergadura? Consideram positiva a aceitação quer dos oradores, autores, convidados, quer do público visitante?

Amandine: Extremamente positiva. O maior desafio foi… sermos apenas duas pessoas a organizar um evento desta envergadura! Para uma próxima edição, será necessário formar uma equipa maior. O segundo grande desafio foi o financiamento. O festival não é um evento académico no sentido clássico, nem é exclusivamente artístico. Esta abordagem híbrida, que tanto valorizamos, torna mais difícil conseguir apoios, pois não se encaixa facilmente em nenhuma categoria tradicional. Além disso, organizar algo em Portugal sobre migrações portuguesas também traz os seus desafios – mas isso, a minha colega Liliana poderá explicar melhor.

Liliana: Organizar um evento é sempre desafiante e quando se trata da primeira edição ainda mais. Podemos dizer que foi relativamente fácil mobilizar tanto os/as convidados/as como o público em geral. O formato original do evento suscitou igualmente interesse e reações muito positivas por parte das entidades e pessoas que contactámos nos meses que antecederam o festival. Foi, no entanto, bastante complicado conseguir que essa recetividade se traduzisse em apoios concretos, como já referiu a Amandine. Ora porque se tratava de uma primeira edição e algumas entidades preferem esperar para ver resultados, ora porque era organizado por duas investigadoras e não por uma entidade coletiva, ora porque, apesar do tema ser as migrações portuguesas, o enquadramento legal existente só prevê apoios para atividades deste género fora de Portugal, etc.

Outro desafio importante foi suscitar o interesse da comunicação social nacional em torno do tema das migrações portuguesas, que consideramos ter ficado esquecido nas comemorações do cinquentenário da Revolução dos Cravos. Verifica-se, aliás, que, de modo geral, o foco na imigração é mais apetecível para os media em Portugal, sobretudo a imigração suscetível de gerar algum tipo de tensão social – seja a imigração de trabalho do sudeste asiático, seja os chamados Vistos Gold, por exemplo – do que as múltiplas circulações com origem em Portugal. O tema das migrações portuguesas é, aliás, frequentemente abordado de forma polarizada: por um lado, destaca-se a emigração recente de jovens qualificados/as, por outro, quando se adota uma perspetiva histórica, destaca-se sobretudo a emigração para França no período anterior à transição democrática. Ambos fenómenos acabaram por se tornar representações arquetípicas e ocultar a diversidade das experiências e perfis migratórios nos últimos sessenta anos. Em suma, há ainda muito trabalho pela frente…

Neste evento reuniram pessoas de Portugal, França, Suíça e Luxemburgo. Porquê estes países em concreto? E é vosso objetivo que este leque se abra a mais comunidades?

Amandine: Na primeira lista que fizemos, incluímos outros países. Mas tivemos de fazer escolhas para esta primeira edição do festival e optámos por trabalhar com as redes e conhecimentos que já tínhamos. Ainda assim, estes países são absolutamente centrais na história das migrações portuguesas. Importa, no entanto, referir que o público veio de muitas outras partes também – tivemos pessoas do Canadá, Bélgica, Alemanha… entre outros.

Liliana: A escolha de França, Luxemburgo e Suíça deve-se nomeadamente ao facto de estes serem, historicamente, os principais países de destino de portugueses e portuguesas na segunda metade do século passado e de, no século XXI, continuarem a ter uma posição de destaque, nomeadamente junto de trabalhadores/as com baixas qualificações – que continuam a ser a maioria das pessoas que saem de Portugal. O Observatório da Emigração (https://observatorioemigracao.pt ) publica anualmente relatórios com base nas estatísticas dos países de destino. Se olharmos para o último relatório disponível, que apresenta dados de 2022, vemos que a França e a Suíça são, respetivamente, o segundo e o terceiro país de destino e que o Luxemburgo ocupa a sétima posição. Porém, no Luxemburgo, os portugueses ocupam a primeira posição nas entradas de estrangeiros, representando 11,6% do total de entradas naquele ano, enquanto representam somente 2,4% do total no caso de França e 0,9% no principal destino migratório em 2022: Espanha.

Quanto à questão da abertura, sim… consideramos que seria muito interessante podermos alargar o foco geográfico, se conseguirmos identificar académicos e artistas que trabalhem sobre migrações portuguesas noutros países. Mas não sabemos se, de momento, o caminho é por aí, pois essa ampliação acarreta novos desafios.

Por fim, é de esperar uma segunda edição? Se sim, para quando? E o que podemos esperar dela?

Liliana: Estamos com vontade de continuar. Ainda mais depois de termos sentido até que ponto o festival tocou as pessoas que nele participaram e de percebermos que responde a uma verdadeira necessidade de diálogo, de afirmação e de reconhecimento de quem tem histórias de vida que se cruzam com Portugal, qualquer seja o território onde viva presentemente. Pois os percursos de vida são cada vez mais complexos e incorporam muitas circulações: vaivéns, mas também, por vezes, alternância entre períodos de sedentarismo e movimentos migratórios, nomeadamente migrações de regresso, num ou noutro sentido.

Amandine: Mas antes disso, queremos trabalhar o material que recolhemos durante esta primeira edição do festival, de modo que… deem-nos dois ou três anos!

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