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Ser do “contra”

Ouvi ou li, não me recordo onde, nem quando, que Aquilino Ribeiro, certa vez asseverou que era: “Contra tudo e contra todos”.

Desconheço se o foi; mas há episódios, na sua vida, que levam a crer que sim.

Todavia, sabemos, que nada: seja doutrina política ou filosófica; seja Arte ou Literatura, consegue reunir audiência “respeitável”, se não for: “contra”. Anti, “contra tudo, contra todos”.

Por regra, o intelectual é do “ contra”; não que haja, muitas vezes, motivos para o ser, mas porque conhece: ser do “contra”, aumenta a venda de livros e é eficaz para arrebanhar “fãs”.

Também é do “ contra” o operário oportunista; desse modo, sem esforço, em regra, alça-se na hierarquia sindical ou na hierarquia da empresa. Certo, que esta, apressasse a entregar-lhe o cargo pretendido, para emudecê-lo.

Mas ser do “contra” não basta para ter sucesso: é preciso dar nas vistas; pôr-se em bicos de pés, como o vulgo diz, e principalmente: bradar.

Bradar, fazer barulho, é imprescindível para o êxito.

Com brados, os judeus conseguiram que o procurador romano condenasse O inocente, sabendo que O era; e é bradando, xingando, berrando, que as alas esquerdistas e direitistas dos parlamentos, conseguem fazerem-se ouvir e ganhar simpatia.

O humilde, o respeitador, o honesto, o que pesa os atos, pela razão e Moral, dificilmente vai longe… Porque os que labutam nas trevas são mais unidos, mais camaradas… Já Cristo o dizia.

A conversa conciliadora. A cavaqueira delicada, quase desapareceu da nossa coletividade. Agora, discute-se: ser do “contra”, discutir, ser polemista, dá prestigio e até: “ inteligência”.

O povo, que não consegue raciocinar – grande manada acéfala, – acredita sempre no que ouve: aos gritos, aos berros, aos brados; e reconhece autoridade à voz que se levanta.

Mas ser do “contra”, discutir, bradar, ainda não é suficiente para o medíocre alcançar o desejado Olimpo.

É – lhe necessário: o escândalo.

A mass-media – que devia viver de notícias e opiniões, – só aumenta a audiência, com o escândalo.

O ambicioso, o falho de talento, precisa de recorrer ao escândalo, para ser conhecido.

Escandaliza: no modo de trajar, com gestos e atitudes, desnudando-se, e exprimindo conceitos chocantes…que chocam cada vez menos.

Já poucos se escandalizam: se o artista plástico apresenta “bezerro”, a critica – para não parecer ignorante, – admira, e o publico, repete, para dar ar de entendido. – Diz Unamuno, em: “Solilóquios y Conversaciones”, que: “ A crítica, costuma ser, de ordinário, o comentário da moda”; e raros são os que não querem estar com a moda…

Em matéria Moral e bons costumes, poucos se aventuram a comentar; receiam cair no ridículo; receosos de serem taxados de retrógrados; de velhos caducos… de ignorantes…

Ser do “contra”, bradar, e escandalizar, é o meio seguro do “Zé-ninguém” parecer ser “alguém”; ter acesso aos meios de comunicação e tornar-se conhecido nas Artes, e quantas vezes, até, na ciência!

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