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Saúdinha e bom negócio

Recentemente uns senhores do camião do lixo, como vulgarmente dizemos, encontraram uma boa quantia de dinheiro e fizeram-na chegar ao dono.

A própria Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, de onde aqueles senhores prestam o seu trabalho tão desdenhado, por montes de nós, mas entre outros factos mais, basta vermos um diazinho de greve ou até um feriado em que se lhes permitem permitir-se estar junto da família, aí lembramos-nos.

Lembramos-nos, com uns senãos, porque são senãos enormes que não cabem aqui, e agora. A Câmara, dizia, agraciou-os.

Casos idênticos têm vindo recentemente a lume, e de ser tão dignos que deslumbram alguns de nós e a mim me translumbram. Tenho tomado conhecimento de outros, também fora de Portugal. Mas cada um com contornos enternecedores.

Isto fez-me lembrar que eu era mocito para os meus cinco, seis anitos, encontrei um relógio de senhora. O meu todo e tão saudoso pai mandou anunciar na igreja, na missa do domingo imediato.

Ai tempos, tempos em que tudo era tão peculiar que nos leva, normalmente, um pouco a brincalhar, dizermos que antes é que éramos felizes e não sabíamos. E não era tão mentira.

Durante muitos meses ninguém apareceu a reclamar o relógio. O meu todo e tão saudoso pai voltou a mandar anunciar da missa. Por fim apareceu uma senhora. São muitos anos passados que eu só lembro que era uma senhora franzina. Agradeceu muito e meteu os pés ao caminho para regressar a casa, provavelmente longe, porque não era conhecida.

Não andou muito, voltou atrás e deixou uma nota de vinte escudos. Ao tempo era muito, muito dinheiro. Não sei se o relógio valia ou se até teria valor sentimental, porque eram tempos em que as coisas, determinadas coisas tinham valores sentimentais.

Falo por experiência pessoal porque dava (ainda hoje dou) imenso valor a pequenas coisas. ‘inda hoje recordo com tanta desagradabilidade, por exemplo, um lenço que perdi. Um pequeno e simples lenço. O que designamos lenço do bolso. E dava-lhes valores especiais sendo ofertado de quem fosse o ofertante. No caso deste lencinho, foi a minha madrinha, a minha irmã menos nova (…) a quem debotava já muita afinidade, muita ternura. O que eu procurei esse lencinho sem encontrar!

Invoquei aqui o meu todo e tão saudoso pai. Não em vão.

Lições de humildade, bondade e todo um escol de exemplos maiores eu guardo ainda muitas das delas pese mo terem levado com doze anos, tinha ele cinquenta e sete.

O meu todo e tão saudoso pai trabalhava em calçado, coisa que já vinha do seu pai, a quem eu não conheci, sequer. Não dá para saber quantas gerações anteriores tinham essa actividade.

Lembro quando me levava com ele entregar o artigo aos clientes nas feiras de Lousada e Paredes, especialmente, porque não era como hoje: Não se tirava o carro da garagem por dá cá aquela palha.
Então aproveitava que eles viessem àquelas feiras, para evitar ir mais longe entregar o artigo.

Por mor da humildade dele, do coração de ouro, da honestidade, que ainda os maiores industriais felgueirenses, vivos testemunham e reconhecem que não ganhou dinheiro por esse procedimento… a sua humildade. Histórias bonitas que não são agora para aqui. É que são imensas e enternecedoras.

Recordo uma frase lapidar que ‘inda hoje digo, sobretudo a brincalhar: Saúdinha e bom negócio.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)