Há uns tempos, estive em Varsóvia. Gostei bastante. Foi uma viagem importante a vários níveis. Mas talvez um dos mais importantes tenha residido na construção da minha própria pessoa.
Numa tarde, previamente combinada, coma Presidente de uma fundação judaica, fui ao guetto da cidade. Sim, o guetto onde os nazis reuniam os judeus da região para os deportar para campos de concentração.
Nessa vasta zona da cidade, terão morrido milhares e milhares de pessoas. Os números, como diz o Saramago, são das menos exactas coisas que há no mundo. Contudo, aqui os números perdem a noção dos zeros que lhes colocamos para dar escala. São muitos os zeros, e foram muitas as pessoas.
Fizemos o roteiro habitual. Fomos aos locais de memória. Aos monumentos, aos sítios que se encontram marcados na paisagem para que sempre se saiba o que ali aconteceu.
Mas foi nos espaços sem memória do guetto que me senti verdadeiramente mal. Numa rua qualquer, entre prédios sempre iguais, construídos algures entre os anos 50 e os 70, uma vala normalíssima mostrava que tinha lugar uma mudança de canos de água. Nada de anormal, se não fossem os tijolos que daquela vala se viam. Iguais aos das poucas construções que restam desses sangrentos anos 40, eles eram a memória esquecida do quotidiano de pessoas como nós que, apenas nisso, foram diferentes: foram tratadas de forma sub-humana e morreram como não desejamos ver morrer animal algum.
Nesse momento, deixei de ser turista. Passei a ser um sofredor num caminho inexplicável: que fazem moradias naquele longo cemitério? Sim, aquele que fora o guetto de Varsóvia é agora um bairro residencial construído nas décadas de domínio soviético.
A memória é, de longe, o mais estranho e bizarro instrumento de inteligência que temos. Tanto consegue os mais brilhantes gozos, como nos consegue os mais desculpabilizantes esquecimentos. Como é fácil regressar, século após século, a discursos de radicalização que parece nada terem bebido nos dramas e nas lágrimas já antes vertidas?
Como se vive numa dessas habitações? que memórias, que fantasmas? que dores ou que gozos?
Dei por mim a olhar para um idoso que saia de uma dessas portas comuns. Teria idade mais que suficiente para já ser vivo quando naquele mesmo espaço morreram milhares de pessoas. Como consegue ele deitar-se naquela grande vala comum?
Paulo Mendes Pinto
