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Quando a exclusão se transforma em missão 

© DR

Ainda ontem completei 48 anos de vida. Não é ainda meio século de vida, mas é tempo suficiente para olhar para trás e perceber que cada etapa — mesmo as mais duras — ajudou a moldar quem sou hoje.

Nasci com deficiência visual causada por coloboma, que me retirou a visão central do olho esquerdo. Desde cedo a diferença fez parte da minha vida. Na infância, porém, o que mais pesava não era apenas a limitação física, mas o olhar dos outros. As crianças podem ser profundamente cruéis na sua inocência, e muitas vezes julgam sem compreender.

Hoje fala-se muito de bullying. No meu tempo nem sequer existia essa palavra. Mas a realidade existia: rejeição, isolamento, comentários sobre a aparência, a sensação de não pertencer. Ser diferente tornava-se um rótulo difícil de carregar quando ainda estamos a formar a nossa identidade.

A superficialidade tem um peso enorme na sociedade. E, quando somos crianças, pode marcar-nos de forma profunda.

Com o passar dos anos, novos desafios surgiram. A deficiência auditiva por otosclerose tornou-se também parte da minha realidade. Poderia ter sido mais um motivo para baixar os braços. Mas, paradoxalmente, foi também um ponto de viragem.

A certa altura percebi algo importante: a experiência que eu tinha vivido podia servir para ajudar outras pessoas que enfrentavam dificuldades semelhantes.

Foi assim que nasceu a Associação OUVIR.

Ao longo de quinze anos, este projeto tornou-se uma parte fundamental da minha vida. Houve momentos de grande entusiasmo, mas também períodos muito difíceis. Durante algum tempo caminhei praticamente sozinho. Houve incompreensões, obstáculos e até tentativas de exclusão dentro do próprio percurso associativo.

Mas nunca perdi o rumo.

Talvez porque quem já sentiu a rejeição na pele desenvolve uma sensibilidade especial para compreender a importância da inclusão.

Ao longo destes anos participei em seminários, conferências e formações avançadas. Li muito, aprendi muito e estabeleci ligações com pessoas e instituições importantes. Não me considero um especialista no sentido académico da palavra, mas alguém que construiu conhecimento através da experiência, da curiosidade e da vontade de compreender mais.

Acredito profundamente no valor do conhecimento partilhado. Aquilo que aprendemos ao longo da vida ganha verdadeiro significado quando pode ajudar outros.

Recentemente tive a honra de ser nomeado Embaixador da Semana do Som em Portugal, uma iniciativa internacional com reconhecimento da UNESCO dedicada à sensibilização para a importância da audição, da saúde sonora e da relação entre o som e a qualidade de vida.

Recebi essa distinção com humildade, mas também com a sensação simbólica de que ela representa algo maior: o reconhecimento de um caminho construído ao longo de muitos anos.

Costumo dizer que o respeito e a admiração também se constroem. Não surgem por acaso. Nascem da persistência, da coerência e da capacidade de continuar mesmo quando o caminho parece solitário.

Se hoje pudesse falar com uma criança ou um jovem que se sente excluído, diria algo muito simples: a dor que hoje sentes pode tornar-se a tua maior força amanhã.

Quem nunca caiu dificilmente compreende o verdadeiro valor de voltar a levantar-se firme, de cabeça erguida.

E mais do que palavras, estenderia a mão. Talvez não como alguém que tem todas as respostas, mas como alguém que conhece a caminhada.

Aos 48 anos continuo a acreditar que cada experiência — mesmo as mais duras — pode transformar-se em algo maior.

As mensagens de parabéns que recebi este ano podem não ter sido muitas, mas foram genuínas. E às vezes são precisamente essas que têm mais significado.

Porque no final da vida, aquilo que verdadeiramente conta não é quantas pessoas nos aplaudem, mas quantas conseguimos ajudar a levantar-se.

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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