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“Portugueses na Alemanha não querem fazer 300 quilómetros para votar”

Os conselheiros das comunidades na Alemanha avisam que a distância e a pandemia de covid-19 vão impedir muitos portugueses de votarem nas eleições presidenciais do fim de semana, lamentando a falta de alternativas.

Os portugueses a viver na Alemanha têm quatro locais onde podem exercer o direito de voto no sábado e domingo, Berlim, Dusseldorf, Estugarda e Hamburgo, obrigando muitos a deslocações de várias dezenas e até centenas de quilómetros.

“É uma situação complicada”, confessou Alfredo Stoffel à agência Lusa, explicando que cada um dos 16 estados federados da Alemanha “tem as suas normas sanitárias”, levando as pessoas a questionarem-se sobre a segurança.

“Se, na zona de residência, não podem deslocar-se ao fim da rua para ir fazer tarefas do dia-a-dia, então viajar centenas de quilómetros para ir votar está fora de questão”, justificou o conselheiro das comunidades portuguesas, sublinhando que, mesmo várias pessoas que não falham atos eleitorais, desta vez não vão exercer esse direito.

“A maior parte das pessoas está preocupada. A área consular é muito extensa, e as pessoas não querem fazer 300, 400 quilómetros para votar. Tenho conhecidos que têm de cumprir um percurso de mais de 600 quilómetros, e, além das restrições, não querem arriscar a saúde”, partilhou o conselheiro das comunidades José António Loureiro.

O Governo federal alemão decidiu na terça-feira prolongar o confinamento até 14 de fevereiro para fazer face à pandemia de covid-19. As escolas vão manter-se fechadas e passa a ser obrigatório o uso de máscaras cirúrgicas nos transportes públicos e supermercados.

Além destas restrições, os cidadãos residentes em zonas onde se registam mais de 200 novas infeções por cada cem mil habitantes, num período de sete dias, só podem abandonar o distrito ou a cidade até um raio de 15 quilómetros.

A embaixada de Portugal na Alemanha fez um pedido formal ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para que as deslocações por motivo do exercício do voto fossem permitidas.

“Recebemos uma resposta formal dando-nos garantia que, as deslocações aos postos consulares por ocasião da eleição presidencial, se encontram oficialmente autorizadas. As deslocações dos eleitores aos locais de voto são consideradas como razão válida justificativa de deslocação”, frisou Francisco Ribeiro de Menezes, em declarações à agência Lusa.

“Para assegurarmos uma maior visibilidade e uma garantia adicional aos que, esperemos que sejam muitos, se desloquem às mesas de voto para votar, fizemos uma declaração em português e alemão, que está disponível no ‘site’ da embaixada, que pode ser descarregada ou impressa”, acrescentou o embaixador de Portugal na Alemanha.

Alfredo Stoffel espera que, apesar dessa garantia, “não existam problemas colaterais”, revelando que fará uma viagem de, no total, 700 quilómetros para poder escolher o próximo Presidente da República.

“Eu vou votar a Berlim, sabendo de antemão que temos uma declaração da embaixada onde é justificada a minha ida, mas as autoridades sanitárias poderão fazer outra leitura das nossas movimentações, obrigando-me a fazer quarentena ou um teste à covid-19”, adiantou.

Para o embaixador de Portugal na Alemanha, a obrigatoriedade de quarentena ou teste não deverá cumprir-se para os portugueses na Alemanha que decidam ir votar.

“O nosso entendimento, que é um entendimento de bom senso, é que essas deslocações não implicam quarentena, nem à saída, nem à entrada”, realçou.

Stoffel lamentou que não tenham sido criadas alternativas, apesar dos alertas feitos desde o início do ano passado, justificando que o Governo português “teve tempo suficiente para repensar a maneira dos emigrantes poderem votar”.

“O desdobramento das mesas de voto não foi aceite por Portugal. Se tudo tivesse sido planeado com tempo, talvez tivéssemos conseguido, pelo menos, abrir nas zonas onde Portugal está representado. Mas não, isso não foi feito”, constatou.

José António Loureiro concordou, acrescentando que “o mais simples, teria sido adiar as eleições”.

“Já que o voto eletrónico não é possível, pelo menos podiam ter garantido o voto por correspondência, ou adiado a votação. Era de prever que isto fosse acontecer, que os números da covid-19 fossem piorar, obviamente que não se consegue resolver isto com dois meses, tinham de ter preparado com tempo”, argumentou.

“A abstenção vai ser muito grande. Não será surpresa para ninguém”, sentenciou.

O embaixador de Portugal na Alemanha, Francisco Ribeiro Menezes, garantiu que “todas as condições de higiene estão reunidas” para votar.

“Estamos a oferecer os consulados, e a secção consular em Berlim, com as melhores condições de higiene possíveis, e com a certeza de que as pessoas se podem deslocar às mesas de voto sem serem intercetadas pelo aparelho de Estado alemão”, sublinhou.

Com o recenseamento automático, são quase 80 mil os portugueses na Alemanha com capacidade eleitoral.

As eleições presidenciais, que se realizam em plena pandemia de covid-19, estão marcadas para 24 de janeiro e concorrem às eleições sete candidatos: Marisa Matias (apoiada pelo Bloco de Esquerda), Marcelo Rebelo de Sousa (PSD e CDS-PP) Tiago Mayan Gonçalves (Iniciativa Liberal), André Ventura (Chega), Vitorino Silva, mais conhecido por Tino de Rans, João Ferreira (PCP e PEV) e a militante do PS Ana Gomes (PAN e Livre).

No estrangeiro, a eleição decorre nos dias 23 e 24 de janeiro, podendo votar os cidadãos portugueses que residem fora de Portugal e que estão recenseados na Comissão Recenseadora (CR) da sua área de residência (correspondente à morada constante do Cartão de Cidadão).