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Português apresenta música de Schostakovich em Paris

O DSCH-Schostakovich Ensemble, liderado pelo pianista Filipe Pinto-Ribeiro, apresenta no sábado, em Paris, o seu mais recente álbum, a primeira gravação integral da Música de Câmara para Piano e Cordas de Dmitri Schostakovich.

O recital serve de mote à apresentação do duplo CD do DSCH – Schostakovich Ensemble, editado pela etiqueta Paraty, e que é apresentado em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, no próxima terça-feira.

Em declarações à agência Lusa, Pinto-Ribeiro disse que os músicos, “de uma forma absolutamente natural”, procuraram nesta gravação “uma grande espontaneidade na interpretação” das obras.

“São obras que tocámos muito, que analisámos, que tocámos em concertos, em diversas épocas, e a que regressámos”, disse.

“A verdade é que, durante a gravação e na sua preparação, a nossa intensão foi muito captar o momento, o momento espontâneo e não o acumular de camadas de informação e reflexão”.

O pianista referiu que “algumas destas obras estão gravadas pelo próprio Schostakovich, que foi um excelente pianista”, e que são obras escritas “num registo muito menos soturno, carregado, e até encenado”, do compositor.

“A sua música, como é óbvio, transporta sofrimento, mas também transporta alegria, esperança, transporta um micro ou macrocosmos de sentimentos, e de liberdade acima de tudo”, disse Filipe Pinto-Ribeiro à Lusa, numa alusão ao tempo de vida de Schostakovich, na antiga União Soviética, e à perseguição de que foi alvo, desde os anos do estalinismo.

“Essa liberdade tem na sua música características interessantíssimas. Como é que na sua vida complicada, agrilhoada, com dificuldades e com alguns constrangimentos em termos estéticos, muitas vezes tentaram condicioná-lo muitas vezes, a verdade é que a sua música é um grito de liberdades, às vezes também de dor”, acrescentou.

O compositor russo Dmitri Schostakovich (1906-1975) foi um dos aclamados músicos da ex-União Soviética, que, tendo beneficiado de um mecenato inicial, pós-revolução, mas que se debateu posteriormente com os mecanismos políticos da liderança de José Estaline.

De 1943 a 1956, o compositor foi oficialmente “banido” da lista de artistas do regime soviético, que deixou de lhe fazer encomendas. O ano de 1948 foi um dos mais duros, com as suas obras retiradas de circulação. Neste período escreveu a Abertura “Festival” (1954), que veio a tornar-se, em 1980, tema de abertura dos Jogos Olímpicos realizados em Moscovo.

Em 1960, o compositor concertou as suas relações com a cúpula soviética e inscreveu-se no Partido Comunista. Continuou a ser visto com alguma controvérsia. Em 1965, foi um dos nomes na área da cultura que abertamente defendeu o poeta Joseph Brodsky, sentenciado a cinco anos de exílio e trabalhos forçados. Foi também um dos 25 intelectuais que assinou uma carta ao líder soviético Leonid Brejnev, para que Estaline não fosse reabilitado.

Filipe Pinto-Ribeiro referiu que os músicos sentiram “alguma afinidade” com o compositor e “paixão por tocar este repertório e o mostrar num todo, apesar de estar muito gravado, pois são obras com imensas referências, e há uma tentação com a música de Schostakovich e com todo o enredo da sua vida, com a sua ligação à política, às questões éticas, ao sofrimento, com a família… Por vezes cai-se na tentação de carregar a sua música de uma forma muito telúrica, muito dramática, ‘melodramática’”.

“Nunca encontrei isso na sua música e toco Schostakovich desde os meus 11, 12 anos, e sempre achei que era uma música com a qual se podia desfrutar e não ter uma perspetiva fechada”, disse Pinto-Ribeiro à Lusa.

O recital, no sábado, às 16:00 locais, na Salle Turenne, do Musée de l’Armée Invalides, na capital francesa, inclui peças de Schostakovich e de Wolfgang Amadeus Mozart, e o DSCH – Schostakovich Ensemble, de ‘geometria variável’ (diferente constituição instrumental), apresenta-se com Filipe Pinto-Ribeiro, ao piano, Corey Cerovsek, no violino, e Adrian Brendel, no violoncelo.

Segundo nota do Musée de l’Armée Invalides, “150 anos separam o nascimento dos dois génios da História da música”, Mozart e Schostakovich.

Sobre Pinto-Ribeiro, o programador do Musée de l’Armée Invalides afirma que “é um dos músicos portugueses mais reconhecidos a nível nacional e internacional, que foi recentemente nomeado como artista Steinway”.

De Schostakovich, em Paris, vai escutar-se Trio n.º 1, “Poema em dó menor”, para piano e cordas, a Sonata em ré menor, para violoncelo e piano, e o Trio n.º 2 em mi menor, para piano e cordas. Do compositor austríaco será interpretado o Trio em Dó Maior, para piano e cordas, e a Sonata em mi menor, para piano e cordas.