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Portugal: Um país onde o topo sobe… e a base sobrevive

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Há manchetes que passam rapidamente pelo ciclo mediático. E há outras que funcionam como um espelho brutal da sociedade em que vivemos. A notícia de que alguns administradores em Portugal chegam a ganhar dezenas de vezes mais do que os seus trabalhadores não é apenas um número. É um símbolo. Um retrato. Um sinal dos tempos.

Naturalmente, gerir grandes grupos empresariais implica responsabilidade, pressão, tomada de decisão constante e impacto económico significativo. Ninguém sério defenderá que todos devem ganhar o mesmo. Mas a verdadeira questão é outra: quando a distância entre o topo e a base se torna tão extrema, ainda falamos de mérito… ou já falamos de desequilíbrio estrutural?

Portugal continua a ser um dos países europeus com maiores fragilidades salariais. Apesar de algumas melhorias recentes nos indicadores de pobreza e desigualdade, os dados continuam a revelar uma realidade preocupante. Segundo estudos recentes e dados analisados a partir da World Inequality Database, os 10% mais ricos concentram uma fatia esmagadora da riqueza nacional, enquanto uma parte significativa da população vive com salários próximos do limiar de sobrevivência.

O próprio conceito de “classe média” tornou-se difuso. Em Portugal, basta pouco mais de 900 euros líquidos mensais para alguém ser estatisticamente enquadrado como pertencente à classe média segundo critérios da OCDE. Isto significa que milhares de pessoas consideradas “classe média” vivem, na prática, permanentemente pressionadas por rendas elevadas, prestações bancárias, energia, alimentação e impostos.

Entretanto, as diferenças salariais internas dentro das próprias empresas continuam a aumentar. Não apenas entre administração e trabalhadores operacionais, mas também entre cargos intermédios e funções técnicas altamente qualificadas. Emmuitos setores, o esforço, a formação académica, a especialização e a produtividade deixaram de acompanhar proporcionalmente a evolução remuneratória.

E talvez o mais preocupante seja a perceção crescente de injustiça social. Uma sociedade não entra em rutura apenas por pobreza extrema. Entra em rutura quando quem trabalha sente que o esforço deixou de compensar. Quando os jovens altamente qualificados emigram porque não conseguem construir uma vida digna no seu próprio país. Quando famílias inteiras trabalham e, ainda assim, vivem constantemente aflitas financeiramente.

A isto soma-se uma realidade frequentemente esquecida: a das pessoas com deficiência.

Quando se analisam desigualdades salariais, empregabilidade e progressão profissional, raramente se discute o impacto acrescido sobre cidadãos com deficiência auditiva, visual, motora ou outras condições incapacitantes. Muitos continuam a enfrentar barreiras silenciosas no acesso ao emprego, na adaptação dos postos de trabalho, na progressão de carreira e até no simples reconhecimento das suas competências.

Em demasiadas situações, exige-se mais para provar exatamente o mesmo valor.

E essa desigualdade raramente aparece nos grandes títulos de jornal.

Curiosamente, tudo isto acontece numa altura em que empresas, instituições e marcas multiplicam campanhas públicas sobre sustentabilidade, inclusão, bem-estar, responsabilidade social e capital humano. Mas existe um risco perigoso quando o discurso institucional se afasta demasiado da realidade sentida pelas pessoas: nasce a desconfiança.

Talvez por isso o crescimento de discursos populistas, radicais e anti-sistema esteja a aumentar em vários países europeus. Quando cidadãos sentem que vivem num sistema onde o esforço é desvalorizado, a habitação se torna inacessível, os salários não acompanham o custo de vida e a riqueza se concentra progressivamente no topo, cresce inevitavelmente o sentimento de afastamento das elites políticas e económicas.

Importa também dizer algo com honestidade intelectual: algumas manchetes podem ser construídas de forma emocionalmente explosiva e politicamente conveniente, sobretudo em contextos de tensão laboral ou reformas legislativas recentes. O debate não deve cair numa simplificação infantil entre “ricos” e “pobres”. O sucesso empresarial é importante. O investimento privado é fundamental. Empresas fortes criam emprego, inovação e crescimento económico.

Mas uma economia saudável não pode medir o sucesso apenas pelos dividendos distribuídos ou pelas remunerações milionárias no topo. Tem também de medir a capacidade de garantir dignidade, mobilidade social e esperança às pessoas comuns.

Porque o verdadeiro perigo para uma sociedade não é existirem pessoas muito ricas. O verdadeiro perigo é crescer o sentimento de que o sistema deixou de funcionar para a maioria.

E talvez seja precisamente isso que tantos portugueses começam silenciosamente a sentir.

Referências e contexto estatístico:

• Dados e análises da World Inequality Database

• Indicadores do INE, PORDATA e OCDE

• Estudos da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre desigualdade e pobreza

• Relatórios europeus sobre transparência salarial e desigualdade remuneratória

António Ricardo Miranda

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