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Portugal, pioneiro da estratégia geopolítica da navegação e dos Descobrimentos, votado ao esquecimento

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A História nem sempre faz justiça ao contributo português para o património universal. Ao longo dos séculos, muitos feitos nacionais foram sendo diluídos em narrativas mais vastas sobre a chamada “expansão europeia”, esquecendo frequentemente o papel pioneiro de Portugal.

Portugal foi a primeira potência global. Com a sua ciência náutica, capacidade diplomática e coragem marítima, os portugueses criaram rotas, mapas e ligações entre continentes muito antes de outras potências europeias.

Recordemos alguns exemplos:

  • Austrália: os mapas de Dieppe, da década de 1540, apresentam representações da costa australiana com designações portuguesas, muito antes da chegada do capitão Cook, embora esta teoria continue a ser debatida entre historiadores.
  • Canadá: antes de Jacques Cartier, os irmãos Gaspar e Miguel Corte-Real exploraram a costa da Terra Nova, no início do século XVI, ao serviço da Coroa portuguesa.
  • Labrador: a região recebeu o nome de João Fernandes Lavrador, navegador português que a avistou em 1492.
  • Tibete: o jesuíta Bento de Góis foi o primeiro europeu a atravessar os Himalaias por terra e a demonstrar, em 1602, que o Cataio referido por Marco Polo correspondia à China.
  • Brasil: Pedro Álvares Cabral reclamou oficialmente o território para Portugal em 1500, tornando-o um dos pilares do império português.
  • Caminho marítimo para a Índia: Vasco da Gama ligou a Europa ao Oriente por via marítima, em 1498, abrindo as portas ao comércio global moderno.
  • Cabo da Boa Esperança: Bartolomeu Dias dobrou o extremo sul de África em 1488, provando ser possível navegar do Atlântico para o Índico.
  • Circum-navegação: Fernão de Magalhães liderou a primeira viagem de circum-navegação do globo, embora ao serviço da Coroa de Castela.
  • Nilo Azul: o jesuíta Pedro Páez, missionário ao serviço do Padroado Português do Oriente, foi o primeiro europeu a chegar à nascente do Nilo Azul, em 1618, muito antes do escocês James Bruce.

O domínio português assentava numa avançada ciência náutica e cartográfica. A cartografia portuguesa, produzida por nomes como Lopo Homem, Pedro Reinel e Jorge Reinel, era das mais sofisticadas do mundo. Ainda assim, muitos destes trabalhos acabaram integrados numa narrativa genérica de “cartografia europeia”, apagando parcialmente a sua origem portuguesa.

Portugal adiantou-se às restantes potências europeias porque estas estavam concentradas em guerras internas e disputas continentais. O reino português pensou estrategicamente o mundo de forma pioneira, aliando expansão marítima, diplomacia e conhecimento científico.

A caravela, desenvolvida pelos portugueses no século XV, revolucionou a navegação oceânica. O uso do astrolábio e outras técnicas permitiu calcular latitudes e navegar em mar aberto com maior segurança. A chamada Escola de Sagres, associada ao Infante D. Henrique e à Ordem de Cristo, reuniu conhecimento náutico, astronómico e cartográfico essencial para os Descobrimentos.

Também a diplomacia teve um papel decisivo. O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 entre Portugal e Castela, foi um marco da política internacional da época. Através dele, Portugal garantiu vastas áreas de influência em África, no Brasil e no Oriente.

Muitas vezes, os feitos portugueses são hoje classificados simplesmente como “europeus”, numa visão globalizante que tende a despersonalizar a História. No entanto, das caravelas aos mapas, do Brasil ao Japão, foram os portugueses os primeiros a construir um verdadeiro império global, apoiado na inovação tecnológica, no financiamento régio e na coragem dos navegadores.

Este texto não pretende desvalorizar a história de outros povos, mas antes recordar o papel singular de Portugal na construção do mundo moderno. Com a independência das antigas colónias, parte dessa influência geopolítica portuguesa foi substituída pelas esferas de influência das grandes potências do século XX, nomeadamente os Estados Unidos e a União Soviética.

Num tempo marcado pelo globalismo e pelo consumismo, esta reflexão pode parecer excessivamente patriótica. Mas procura, acima de tudo, questionar qual é hoje o sentido e a missão de Portugal no mundo contemporâneo.

António Justo

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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