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Os atentados de Paris

(Declaração política do deputado Carlos Gonçalves na Assembleia da República dia 18 de novembro de 2015)

Na passada sexta-feira, Paris, a cidade luz, referência de liberdade e tolerância foi, uma vez mais, alvo de atentados terroristas que a transformaram num verdadeiro palco de guerra. Ataques inaceitáveis, ataques inconcebíveis, ataques de uma violência extrema que tiveram apenas por objetivo matar o maior número possível de inocentes e espalhar o terror.

Na altura dos atentados, estava em Paris. No momento em que aconteciam, estava no cinema e não esqueço a preocupação e o pânico estampado na cara das pessoas que iam tendo notícias do que estava a acontecer. Todos nós tínhamos familiares, amigos ou conhecidos que podiam estar naqueles locais onde ocorreram os ataques. “Momentos muito complicados”.

A pátria de Voltaire fica, uma vez mais, ligada a um momento negro da história do terrorismo internacional.

Desde a II Guerra Mundial que a França não tinha sido alvo de um ataque desta envergadura no seu território. Estes atentados, tal como os de janeiro passado, ocorreram no coração da cidade, do país e da Europa, em locais que claramente simbolizam a forma de estar e de viver nas nossas sociedades vieram demonstrar que aquilo que conquistamos, ao longo de vários seculos, está a ser alvo de um ataque que deve merecer, da nossa parte uma resposta firme e que demonstre que esses valores estão acima de qualquer fundamentalismo ou fanatismo.

Sr. Presidente,

Sras. e Srs. Deputados,

Perante o que vimos as nossas primeiras palavras são para manifestar a nossa solidariedade para com todas as vítimas e seus familiares, para com a França e o seu povo e também para com a comunidade portuguesa.

A França é um país conhecido pela sua diversidade e é neste país que reside uma comunidade franco-portuguesa estimada em 1 300 000 pessoas.

Uma comunidade que foi, uma vez mais, vítima dos atentados pois dois cidadãos de origem portuguesa acabaram por ser mortos nos ataques que ocorreram junto ao Estádio de Saint Denis e na sala de espetáculos “le Bataclan”.

Permitam-me que de uma maneira especial lembre aqui o Manuel Dias, e a Priscilia Correia, apresentando às suas famílias, aos seus amigos e a toda a comunidade portuguesa uma mensagem de apoio e solidariedade neste momento tão complicado.

Não posso, no entanto, deixar de destacar que naquelas horas de terror, alguns dos nossos compatriotas tiveram um papel de grande coragem na ajuda aos sobreviventes da tragédia, o que mereceu o reconhecimento das autoridades e comunicação social francesas.

É também por isso que voltamos, hoje aqui nesta Câmara a reafirmar que temos muito orgulho nas nossas comunidades espalhadas pelo Mundo e, em particular, pela comunidade portuguesa residente em França.

Sr. Presidente,

Sras. E Srs. Deputados,

Permitam-me que fale desta comunidade à qual também pertenço. Esta é uma comunidade que ama, de forma apaixonada, o seu país de origem mas que se reconhece também nos valores do país onde reside e, por isso, não há português em França que não vibre aos primeiros acordes da Marselhesa.

Esta forma de estar, de ser solidário com o país de origem e empreendedor no país de acolhimento, tem sido uma clara mais valia para o nosso país. A comunidade portuguesa em França é hoje uma referência no plano económico, através das suas 45 000 empresas e no plano político, através dos milhares de quadros políticos.

Uma comunidade que se revê num país que nos últimos quatro anos recuperou a sua credibilidade externa, transmitindo evidentes sinais de confiança, de estabilidade e de um país cumpridor. Foram estes sinais que permitiram um investimento, sem paralelo na história democrática portuguesa, das comunidades no seu país, o que deu um enorme contributo para o sucesso da nossa economia, muito particularmente no que diz respeito às exportações e ao investimento.

No entanto, as comunidades portuguesas olham com perplexidade para a situação que o país vive actualmente. Não compreendem que no seu país quem ganha eleições não governe e não compreendem que um caminho percorrido que mobilizou todos os portugueses, incluindo aqueles que residem no estrangeiro, possa agora ser posto em causa por questões que visam apenas concretizar objectivos de sobrevivência política.

Estes são sinais preocupantes para quem reside no estrangeiro e para o pequeno e médio investimento no nosso país. Para estes portugueses, Portugal tem de dar continuidade às políticas que permitiram superar a crise e dar uma imagem de um país estável no plano político.

Os portugueses residentes no estrangeiro, em Outubro, com o seu voto, fizeram a sua escolha. Uma escolha clara e, sobretudo, uma escolha que põe em causa quatro anos de discursos em que nesta casa se falou de emigração apenas como arma de arremesso político. Os resultados eleitorais foram a melhor resposta.

Esta minha intervenção teve, infelizmente, de se adaptar a uma realidade que consideramos trágica e que ainda hoje teve mais desenvolvimentos.

No entanto, como sempre a vida tem de continuar. Por isso, depois dos atentados, Paris procura voltar à normalidade apesar do clima de insegurança que se instalou. Os seus habitantes percebem, como todos devemos perceber, que não devemos ficar reféns destes ataques cobardes porque isso seria a pior resposta ao que aconteceu. A nossa comunidade volta, neste fim de semana a organizar um conjunto de eventos retomando assim, também, a sua actividade normal.

Sr. Presidente,

Sras. e Srs. Deputados,

Termino, lembrando as palavras do General De Gaulle, em 1944 na Câmara de Paris, no momento da libertação da cidade. De Gaulle afirmou “Paris outragé (ofendido), Paris brisé (destroçado), Paris martyrisé (martirizado)…mais Paris liberé (libertado)! Liberé par lui même!

Estas são palavras que se adequam, em parte, ao momento que vivemos. Mas esta não é uma questão parisiense ou simplesmente francesa, nem sequer um tema de âmbito europeu. É um tema mundial, é um tema global porque atravessa fronteiras e deve ultrapassar interesses nacionais porque o que esta em causa é um bem fundamental e um pilar essencial do mundo em que vivemos e queremos continuar a viver: a liberdade.

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