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O Guia Nativo: Um projeto com alma luso-brasileira

© DR

Com raízes em Belo Horizonte e coração dividido entre Portugal e o Brasil, Filipe Mendonça é um exemplo do que pode acontecer quando a herança cultural, a criatividade e a vontade de aprender se encontram no momento certo. Luso-brasileiro e atualmente a viver em Berlim, este jovem de 32 anos trocou o marketing pela programação e fundou o “O Guia Nativo”, um projeto que aposta em recomendações de viagem dadas por quem conhece verdadeiramente os destinos: os seus habitantes.

Apesar de ter crescido no Brasil, Filipe sempre manteve uma forte ligação a Portugal, graças aos avós maternos que nunca perderam o sotaque nem os laços com a terra natal. “Ouvir o português de Portugal faz-me lembrar deles”, conta. “Meu avô nasceu em Paredes, perto de Bragança, e conheceu minha avó quando foi morar em Lisboa. Eles se mudaram de vez para o Brasil quando minha mãe ainda era criança, mas nunca perderam os vínculos com Portugal.”, acrescenta.

Desde pequeno, Filipe Mendonça esteve rodeado por referências à sua herança portuguesa – dos livros que o avô trazia das viagens às histórias contadas em família, passando pelo contacto regular com os parentes que ainda hoje vivem em Portugal. “Não sei até que ponto essa herança influenciou a minha carreira”, admite, “mas provavelmente contribuiu para a decisão de me mudar para a Europa”.

Um amor chamado Lisboa

Entre esses laços com Portugal, Lisboa ocupa um lugar muito especial na sua vida. Foi a primeira cidade que conheceu fora do Brasil e, desde então, tornou-se uma espécie de porto seguro. “Morando em Berlim, tenho o privilégio de conseguir ir para lá mais ou menos uma vez por ano, e continuo a encantar-me com a beleza e a culinária sempre que vou”, conta. A ligação é tão forte que escolheu a capital portuguesa para celebrar o casamento com a esposa: “Não à toa é a cidade em que nos casámos, no belíssimo Paços do Concelho.”

Além do simbolismo pessoal, Lisboa tornou-se também um ponto de encontro familiar. “É como uma segunda casa”, diz Filipe, que aproveita cada viagem para reencontrar os familiares que vivem na cidade, sobretudo quando não consegue regressar à sua terra-natal, Belo Horizonte.

A mudança para a Alemanha

A transição para a Alemanha começou com estudos em marketing e um intercâmbio universitário em Weimar. Berlim foi a paragem seguinte e chegou com um trabalho na área de comunicação. “Costumo brincar que tenho uma relação tóxica com Berlim, pois sofro muito durante os dias frios e escuros, mas quando chega o verão me lembro por que me apaixonei pela cidade”, admite. “Berlim parece um retalho de pequenas cidades, pois cada bairro tem um charme único, muito devido à sua história e multiculturalidade. É fácil viver anos e anos aqui e nunca se cansar de descobrir novos cantos”, acrescenta.

Porém, o percurso profissional de Filipe sofreu uma reviravolta durante a pandemia, quando decidiu aprender a programar. “Foi exatamente O Guia Nativo que me levou à programação. Eu comecei o projeto em 2019, pouco depois de sair do meu antigo emprego. Como ainda não sabia programar, fiz tudo no WordPress, o que logo se mostrou muito limitado para as ideias que eu tinha. Alguns meses depois veio a pandemia do COVID e, com tempo de sobra nas mãos, decidi aprender a programar. Mais ou menos um ano depois consegui meu primeiro emprego na área.”conta.

Depois de aprender a programar sozinho, Filipe trabalhou alguns anos como Frontend Developer e atualmente é Full-Stack Developer na Cozero, uma plataforma dedicada à gestão de emissões de carbono. E a experiência tem sido muito positiva: “É ótimo trabalhar com um propósito com o qual me identifico, com um time que me recebeu muito bem e no qual há muitos portugueses, inclusive o CTO.”

Mesmo tendo trocado a comunicação pelo código, Filipe reconhece o valor do seu percurso anterior. “Foi esse diferencial que me ajudou a conseguir meu primeiro emprego, pois a empresa estava procurando um programador que ajudasse na comunicação entre desenvolvedores e designers. Fora que a minha experiência em marketing digital e SEO agradou muito o time. E mesmo que não fizesse diferença no currículo, acredito que o conhecimento intracurricular é sempre benéfico.”

Guia Nativo: turismo com alma local

“O Guia Nativo” nasceu da vontade de fugir às armadilhas para turistas e viver experiências autênticas. A ideia surgiu em 2013, quando fez um intercâmbio universitário em Weimar, na Alemanha, e teve a oportunidade de viajar mais, inclusive para Lisboa. “Acho que foi nesse momento que eu percebi que preferiria descobrir os lugares que os lisboetas frequentavam do que ver o Castelo de São Jorge pela enésima vez. Além disso, eu nasci e cresci em Belo Horizonte, que é uma das maiores cidades do Brasil, mas que não recebe muitos turistas internacionais. E se formos olhar do ponto de vista estritamente turístico, talvez não haja tanto para se ver na cidade, mas existe muita gente criativa fazendo muita coisa legal. Um exemplo é o Carnaval de Belo Horizonte, que basicamente não existia há 20 anos e, sem qualquer incentivo da Prefeitura, se tornou um dos maiores do país, com 6 milhões de foliões em 2024”, explica.

Para Filipe, viajar é muito mais do que cumprir uma lista de pontos turísticos – é mergulhar na vida local, apoiar pequenos negócios e descobrir o que escapa aos guias tradicionais: “Acho que é possível ser turista e ao mesmo tempo vivenciar um pouco do dia a dia dos locais e entrar em contato com eles. Viajar pode ser algo mais enriquecedor do que uma checklist de pontos turísticos. Também penso em quantos lugares e negócios locais não se beneficiam do turismo por não estarem nos roteiros tradicionais. Ao invés de pagar uma fortuna em algum restaurante lotado feito para turistas, por que não experimentar a comida de um pequeno estabelecimento?”

O Guia Nativo inclui dicas surpreendentes (em português do Brasil e em inglês), como a “Iglesia Patólica” de Madrid, fundada por um comediante. O site inclui dicas sobre diferentes cidades da Alemanha, Espanha, Irlanda, Polónia, Portugal e Rússia. Entre os destinos mais populares estão Lisboa e a capital espanhola.

Planos futuros e uma mala sempre pronta

Apaixonado por viagens, Filipe quer dedicar mais tempo ao seu projeto e continuar a alimentar o seu gosto por descobrir o mundo. Apesar de ser difícil eleger um destino preferido entre tantos que já visitou, Filipe guarda uma memória especial da mais recente passagem pelo Rio de Janeiro: “Em 2023 tive o prazer de revisitar o Rio de Janeiro depois de mais de uma década. É com certeza uma das cidades mais lindas que já vi.”

Recentemente concretizou o sonho de visitar a Austrália e espera conhecer o Vietname em breve. Enquanto isso, entre linhas de código e dicas de viagem, segue com um olhar atento ao que realmente importa: as histórias e as pessoas que fazem de cada lugar algo especial.

Texto: Fabiana Bravo

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