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O fogo no nosso imaginário religioso

Mais uma vez, vivemos este ano em Portugal uma vertiginosa onda de incêndios. Trata-se de um ciclo normal nos verões, o que não deixa de ser o momento para pensar um pouco no que de negativo o fogo nos transmite. De facto, pode ser o momento de encontrar alguns dos medos ancestrais que nesta época tão fortemente se reavivam.

As grandes queimadas sempre foram uma arma e uma ferramenta da espécie humana desde que domesticou a agricultura há poucos milhares de anos atrás. Paralelo desse uso ainda o encontramos nas queimadas que neste século XXI ainda se fazem na Amazónia para destruir floresta e alargar a área de cultivo. Foi desta forma que se arroteou muita terra ao longo dos séculos. Foi desta forma que, provavelmente, se concorreu para a desertificação dos férteis (mas frágeis) campos que vieram a resultar nos enormes desertos do Norte de África.

Ferramenta dificilmente controlada, sempre foi alvo de duras medidas coercivas nas sociedades urbanas da nascente civilização ocidental. O «fogo posto» é um crime desde tempos imemoriais. Duas das razões que o catapultaram para essa dimensão: ser incontrolável, e estar simbolicamente próximo do caos, da forma do fim do mundo. De facto, não é por acaso que quando o Ocidente cria e estabiliza uma imagem de inferno, um mundo negativo para os mortos, o vai rechear de fogo. A morte, o fim dos tempos, será pela queima, dura e purificadora (definitiva) de tudo, até dos males, qual imagem da Sodoma e da Gomorra bíblicas.

Mais tarde, na época do nascente cristianismo, no desenrolar do mito em que se transformou o célebre incêndio de Roma na época de Nero, encontramos muito desses medos ancestrais aliados a essa nascente religião. Para os cristãos será a prova da insanidade dos césares, para os pagãos será a imagem da impiedade dos cristãos que não adoravam os deuses da cidade de Roma. O incêndio é “prova de fogo” para todos, acusação máxima que justificará perseguições, a uns, e, a memória destruída, para Nero.

Efectivamente, o cristianismo irá herdar em bloco essa simbologia, misto de purificação e de destruição, sempre aliada a uma imagem de fim. Na Idade Média o fogo posto passa a integrar a “lista” de pecados que implicavam penitência. Isto é, ser-se rapado, coberto de cinza e metido na prisão durante a Quaresma, saindo depois em Quinta ou Sexta-feira Santa. No século IX algumas das sanções a que o penitente estava, teórica e religiosamente, sujeito eram: não poder exercer a actividade das armas, não poder ser proprietário, não poder fazer negócios, não poder recorrer aos tribunais, não poder entrar numa Ordem, não poder casar, ou, se era casado, não poder viver com a mulher. Passados muitos séculos, um milhar de anos, o Direito Canónico de 1917 (can. 2345) refere o fogo posto com danos graves como sujeito a “penas eclesiásticas” e o seu perdão reservado ao bispo.

De facto, para o bem e para o mal, o fogo, religiosamente, queima. A nós, herdeiros deste longo percurso, não pode deixar indiferentes pelo grau de destruição e de abalamento mental que nos infringe.

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