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O 25 de Abril, a guerra na Ucrânia e as eleições francesas

O 25 de abril é uma data fundadora, que marca uma viragem fundamental na história de Portugal. Por isso, pelo seu significado, pela esperança que nasceu nesse dia de um futuro límpido, nunca pode ser esquecido, tem sempre de ser celebrado.

Há ainda quem diga que falta cumprir abril, significando com isso que ainda não atingimos o desenvolvimento económico, social e institucional que nos compararia aos países mais desenvolvidos do mundo. Esta ambição é boa e não a devemos perder de vista. Mas não podemos deitar fora o bebé com a água do banho. Abril está a cumprir-se a cada dia que passa, com o empenho de cada um dos portugueses em fazer cumprir os valores de liberdade, democracia e desenvolvimento que nasceram com a revolução. De paz, porque abril também pôs fim à guerra colonial.

E foi precisamente numa altura em que os portugueses em todo o mundo celebram abril que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, falou perante o Parlamento e os portugueses, para lembrar que, tal como no nosso país, também o povo ucraniano trava uma luta heroica pela liberdade e pela democracia, para impedir que a invasão russa esmague esses valores tão fundamentais para os seres humanos.

É precisamente a liberdade e a democracia que tanta incomoda Vladimir Putin, um ditador sinistro e impiedoso, que perdeu totalmente a razão ao invadir a Ucrânia, como noutra escala já acontecera na Geórgia, Chechénia, Síria, no Donbass ou com a anexação da Crimeia, fazendo-nos assim lembrar que, apesar de todo o progresso, o mundo não está livre de retrocessos civilizacionais e do regresso das trevas e da barbárie.

É por isso que a luta pelos valores de abril é uma luta de todos e de sempre, para que cada um possa exprimir-se sem medo, para que haja respeito pela diversidade e pelo pluralismo, para que uma sociedade mais justa, com melhores condições de vida e mais igualitária seja um objetivo de todos.

O 25 de abril trouxe também a Portugal a integração europeia num espaço que é um lugar de liberdade, desenvolvimento e democracia. Este é, por excelência, o nosso espaço vital, de onde tiramos a nossa força e contribuímos para fortalecer os nossos parceiros. E, não podemos ter dúvidas, é este espaço também que Putin quer destruir, porque detesta todos os espaços de liberdade e de democracia, tanto no seu país como para lá das suas fronteiras. E é por isso que a Rússia tem financiado os partidos extremistas, sobretudo de extrema-direita, para fazerem a sua parte de trabalho sujo opondo-se à União Europeia e a tudo o que ela representa de liberdade, progresso e humanismo. E é também por estes valores e pela paz no continente europeu que os ucranianos estão a lutar, por todos nós.

Não podemos ter ilusões ou deixarmo-nos enganar pela normalização cada vez mais perigosa que os partidos de extrema-direita têm vindo a conseguir na Europa. As eleições francesas e a disputa entre Emmanuel Macron e Marine Le Pen também foi uma disputa pela sobrevivência do nosso espaço vital. “O nacionalismo é a guerra”, dizia o presidente François Mitterrand. E percebemos agora muito melhor o que isso significa com a invasão da Ucrânia. Marine Le Pen não gosta da União Europeia, já quis sair dela e da moeda única, tem antipatia com a Alemanha e todas as suas ideias vão no sentido de enfraquecer a União Europeia.

Como ficou bem patente durante a campanha e no último debate entre os dois candidatos, as fortes ligações que Marine Le Pen tem em relação a Putin e à Rússia são a maior evidência do perigo que a União Europeia correria se ganhasse as eleições, o que se transformaria num problema muito sério para todos nós.

A vitória de Macron é, portanto, uma vitória da democracia, da liberdade e da Europa e de todos os seus valores. É a vitória da solidariedade e da unidade europeia, que é a melhor forma de enfrentarmos os inúmeros e complexos desafios que todos temos pela frente, da paz e segurança às migrações, da prosperidade às alterações climáticas.

Paulo Pisco

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