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Na morte de José Mário Branco

Se é sempre ingrato falar negativamente de um falecido, ainda mais ingrato o é quando esse falecido está aureolado da intocável respeitabilidade com que uma certa esquerda reveste os seus «santos». Remo contra a maré das louvaminhas pela recente morte de José Mário Branco, um dos ícones daquele período da história de Portugal que ficou conhecido como PREC, condensação jocosa do chavão «processo revolucionário em curso», marcadamente incidente no ano de 1975. Deploro, por exemplo, a atitude do presidente da República, que se referiu ao cantor como se de um ilustre nome da música e das letras se tratasse (na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa está tão-só a preparar a sua recandidatura à Presidência, esforçando-se por ficar bem em todas as fotografias, para o que tão depressa elogia um arauto do totalitarismo esquerdista como viola o caráter laico da República Portuguesa deslocando-se propositadamente a Roma para a investidura de um cardeal ou tira selfies com um rufia negro de um bairro clandestino que na véspera agredira um agente da autoridade).

Um dos argumentos da extrema-esquerda a favor dos protagonistas dessa fase de má memória, quando Portugal pareceu resvalar para uma ditadura revolucionária de cariz terceiromundista, é que se tratava de resistentes antifascistas graças aos quais foi possível libertar o país do regime do Estado Novo e instaurar a democracia. Falso! O sonho dos agentes do PREC, incluindo aqueles que, como José Mário Branco, lhe ofereciam os seus dotes artísticos, não era propriamente libertar a sociedade portuguesa de uma ditadura, mas sim substituir essa ditadura (fascista, oligárquica, burguesa, reacionária) por uma outra, «avançada», «popular», «progressista».

Numa das suas canções mais emblemáticas, diz José Mário Branco: «A cantiga é uma arma/ contra a burguesia./ Tudo depende da bala/ e da pontaria./ Tudo depende da raiva/ e da alegria./ A cantiga é uma arma/ de pontaria.» Ao falar em «arma contra a burguesia», está, obviamente, a declarar que o sistema político-económico baseado na iniciativa privada deve ser combatido (com «bala» e «pontaria»). A favor de quê? De sistemas sociais altamente ineficazes que caraterizaram o século XX, na União Soviética e seus satélites da Europa Oriental, na China maoista, no Camboja dos Khmers Vermelhos, na miserável Cuba, nas ex-colónias portuguesas de África… sistemas que, não só falharam estrondosamente, mas também (e sobretudo) recorreram sistematicamente ao terror para se imporem.

Uma outra das canções mais emblemáticas, intitulada «Eu vim de longe», diz: «Quando a nossa festa se estragou/ e o mês de novembro se vingou/ eu olhei p’ra ti/ e então eu entendi:/ foi um sonho lindo que acabou,/ houve aqui alguém que se enganou.» É nítido o ressentimento rancoroso contra a ação militar que, a 25 de novembro de 1975, desfez a deriva totalitária esquerdista que ameaçava Portugal e repôs o sentido democratizante do 25 de Abril de 1974. A «festa» que «se estragou» era o delírio em que, durante o PREC, viveu uma certa esquerda, desde o Partido Comunista Português (que, num dos seus órgãos oficiosos, o entretanto desaparecido Notícias da Amadora, proclamava «Seremos uma democracia popular!») até às organizações mais extremistas, como o Partido Revolucionário do Proletariado e o seu braço armado, as Brigadas Revolucionárias (PRP-BR), e aos visionários irresponsáveis da linha de Otelo Saraiva de Carvalho. Este último, enquanto chefe do COPCON (Comando Operacional do Continente ao longo do PREC), preconizava a concentração (naturalmente seguida de execução) de todos os «reacionários» na praça de touros do Campo Pequeno, e consta que, durante a sua vigência, prendeu mais gente do que a PIDE durante o Estado Novo. A sua ambição parecia ser transformar Portugal numa síntese confusa da Cuba de Fidel Castro com a Argélia revolucionária, o Moçambique de Samora Machel e a retrogradíssima Albânia. Mais tarde, perante o colapso do devaneio esquerdista (ou seja, após o triunfo das forças moderadas a 25 de novembro de 1975), fundou uma organização terrorista armada, as Forças Populares 25 de Abril (FP-25), autoras de diversos atentados bombistas, como aquele que, em São Manços, matou uma septuagenária e uma criança de berço e que Otelo persistentemente justificou por se tratar de uma família de «latifundiários».

José Mário Branco era um dos bardos que cantavam louvores a esta situação surrealista. E não é porque tinha bons dotes musicais e entoava cantigas melodiosas que se torna automaticamente um artista valoroso. Que sentido teria afirmar «apoiava um projeto tenebroso, mas cantava tão bem»? Numa entrevista a um canal de televisão, difundida há poucos dias por ocasião da sua morte, declarou que um dos pontos de honra dos revolucionários em 25 de abril de 1974 era «a independência das colónias portuguesas». Poderia defender-se afirmando que essa independência era inevitável. Contudo, para ele e para todos os que comungavam e comungam do seu ideário, a independência das colónias portuguesas não era apenas inevitável — era desejável. E nunca se retrataram desse erro colossal, nem mesmo perante a catástrofe que foi a descolonização («tragédia» lhe chamou o insuspeito Melo Antunes): com os seus milhões de deslocados; com as guerras civis que se lhe seguiram; com o fuzilamento em massa dos antigos elementos africanos das Forças Armadas portuguesas na Guiné, por ordem de Luís Cabral (o mesmo que, depois de destituído por um golpe de Estado em 1980, se refugiou em Portugal, onde, juntamente com a família, viveu a expensas do erário público português no dourado exílio da Linha do Estoril); com a execução, por incineração em vivo, dos chamados «grandes reacionários» no Moçambique da Frelimo machelista (onde, entre outras medidas «progressistas», se instauraram a pena capital e a pena de «chicotada» [sic]); com a implacável guerra entre MPLA e UNITA em Angola, a qual o igualmente insuspeito Miguel Sousa Tavares comparou à que travassem, por um lado, os Khmers Vermelhos e, por outro, a Mafia ou a Camorra.

Pode-se, certamente, contrapor que, quarenta e cinco anos depois, o PREC está ultrapassado; que muita da culpa da deriva esquerdista se deveu à intransigência ditatorial do salazarismo; que o radicalismo pequeno-burguês teria sido um passageiro e infantil desvario. Não tenhamos, porém, ilusões: jamais esta gente teve a coragem e a hombridade de reconhecer os crimes medonhos e as tragédias que, pelo menos moralmente, apoiavam. Pelo contrário: persistem em menorizá-los, pois o que importa não são os efeitos concretos, mas sim os ideais «de esquerda». Note-se que o tema «A cantiga é uma arma» foi entoado por saudosistas do PREC durante o velório de José Mário Branco na Voz do Operário. O esmagamento de vidas humanas, por via dos ideais, é de somenos importância; conta é a visão «progressista», a visão «de esquerda», aparente carta branca que aos beneficiários confere indulto incondicional. Por exemplo, Otelo Saraiva de Carvalho lamentou a queda do sinistro Sadam Hussein, um político «de esquerda» (que a sua queda esteja associada a uma intervenção desonesta e oportunista do presidente norte-americano George Bush Junior é outra história).

Enfim, a José Mário Branco aconteceu apenas aquilo que, passe a lapalissada, nos acontecerá a todos. Mas não é por morrermos que passamos, ipso facto, a bons e saudosos. Poderá ser alguém a recordar com nostalgia pela família e pelos amigos. Mas nome grande das artes em Portugal não é.

Jorge Madeira Mendes

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