Talvez princípios da Primavera de 1973.
Abriu-se a porta do ginásio e a voz da contínua cortou o ar: «N.º 24 chamado à Senhora Reitora!».
Era eu. Gelei. A turma, mais de trinta meninas, ficou petrificada a olhar para mim. Ser chamada à Senhora Reitora era gravíssimo… A professora perguntou se eu poderia terminar a aula e ir então ao gabinete da Senhora Reitora. Atrapalhada, a contínua respondeu que não, que tinha de ser já.
«Vou assim?» – perguntei-lhe, aflita. O fato de ginástica era tudo menos gracioso, calções tufados e saia curta de popelina barata azul escura, camiseta branca com o emblema da Mocidade Portuguesa.
Assim fui, atrás da contínua, pelos corredores brancos do liceu, silenciosos àquela hora. Subimos a escadaria de mármore até ao segundo andar, ao gabinete contíguo à sala das professoras.
Tinha medo. O que teria eu feito? Decerto algo de mal…subir a escadaria reservada às professoras? Escapar-me da escola à socapa? Apanhar aqueles papelinhos que o MAESL distribuía? Fumar no recreio? Ser mal-educada com as contínuas? Não…
A Senhora Reitora esperava-me, sentada à sua grande e pesada secretária. A seu lado, estava a Vice-Reitora. O gabinete era claro e espaçoso. A contínua fechou a porta atrás de si e eu fiquei de pé, a escassos metros das duas senhoras, que cumprimentei com uma pequena vénia, pedindo desculpa por estar de fato de ginástica. A Senhora Reitora sorriu.
– Chegou um aerograma para ti – disse a Senhora Reitora – Sabes o que é um aerograma?
Abri os olhos e a boca de espanto. Sim, sabia o que era, um papelinho muito fino, azul ou amarelo. Dobrado, transformava-se em envelope. Era neles que os soldados no Ultramar escreviam às famílias e vice-versa. Não pagavam selo.
– Mas eu não conheço soldado nenhum, não escrevi a soldado nenhum! – disse eu, atrapalhada. Pensariam elas que eu fizera alguma coisa mal feita?
A Senhora Reitora estendeu-me o aerograma. Era azul. Lia-se o meu nome completo, Liceu Rainha D. Leonor, Lisboa, escritos com uma caligrafia de garoto que mal sabe escrever. As duas senhoras ficaram de olhos cravados em mim. Instintivamente, devolvi a missiva à Senhora Reitora.
– Quer abrir, por favor, Senhora Reitora, e ler?
Pareceu satisfeita e assim fez. Contava o rapaz que tinha visto uma fotografia minha num jornal, numa notícia sobre uns campeonatos escolares, onde eu tinha ganho uma prova de badminton.
– Isso foi no outono passado, Senhora Reitora… – disse eu.
– Bem sabemos – retorquiu a Senhora Reitora, sorrindo -parece que o nome do nosso liceu chegou longe. E prosseguiu a leitura.
O rapaz tinha 20 anos, estava no mato em Moçambique, sentia-se triste e sozinho porque não tinha noiva, nem namorada. Se eu podia ser madrinha de guerra dele? Precisava de uma madrinha, muitos camaradas tinham madrinhas e era uma alegria receber as cartas delas. Nas margens, havia desenhos desajeitados de bichos e palmeiras.
A Senhora Reitora falou. Aquele rapaz era um dos muitos valentes soldados que estavam no Ultramar a defender a Pátria. Via-se que era um pobre rapaz, com pouquíssima instrução, a caligrafia grande e incerta, a carta pejada de erros e escrita com esforço. Seria uma boa acção, escrever-lhe. Porém, deveria falar com a minha família, que teria de me autorizar a fazê-lo.
No recreio, o aerograma passou por várias mãos. «Madrinha de guerra…», sussurravam as minhas amigas, assustadas. Uma disse-me que a irmã mais velha também o era. Tínhamos treze anos. Da guerra, só falávamos em surdina. Em casa, a minha mãe fazia por vezes relatos terríveis das suas visitas ao Hospital Militar. Receava que a guerra não acabasse nunca e já estava a matutar em estratagemas para livrar dela o meu irmão, ainda uma criança.
O conciliábulo familiar decidiu que eu poderia escrever ao rapaz, se quisesse. Escrevi-lhe. Recebi cinco ou seis aerogramas dele. Lembro-me bem de dois: um, pelo Natal, com votos de Boas Festas com desenhos de um pinheiro de Natal, bolas e sinos com laçarotes. Outro, desesperado, em que me dizia que tinham sido apanhados numa emboscada e que uma mina explodira o seu melhor amigo.
Aqueles aerogramas, os que recebia e os que escrevia, enchiam-me de tristeza, uma tristeza esquisita e sem nome. Aquela boa acção causava-me uma dor imensa, como se o coração se rasgasse ao meio. Havia ali qualquer coisa que não estava certa: aquele rapaz, um bichinho assustado, devia estar na escola e não na guerra, não devia ter visto morrer o amigo, não deviam andar para ali a matarem-se uns aos outros, não devia haver guerra nenhuma, eu não devia estar a escrever aquelas cartas, que história era essa de matar e morrer pela Pátria?
A certa altura, deixei de ter notícias. Alguns anos depois, um amigo militar disse-me que, se eu quisesse, poderia saber, através do número de identificação militar, se o rapaz teria regressado ou não. Dessa vez, eu não quis.
Eduarda Macedo
